Coluna

Indústria de transformação reduz exportação ao menor nível em 11 anos

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 12 de setembro de 2020

Com
retração no comércio global de bens e mercadorias e enfrentando as agruras
impostas pela pandemia ao mercado doméstico, a indústria de transformação não
tem encontrado alívio nos últimos e muitos meses. A saída externa parece
bloqueada pela queda nos principais mercados de destino, em especial no caso da
Argentina, importante consumidora de veículos, e a demanda interna se arrasta.
Na área externa, as exportações da indústria de transformação atingiram, no
acumulado entre janeiro e agosto deste ano, o valor mais baixo em 11 anos,
superando apenas as vendas externas realizadas em igual período de 2009. Além
disso, o déficit comercial do setor agora passou a registrar o segundo ano de
alta.

O
setor de transformação chegou a exportar US$ 73,612 bilhões nos primeiros oito
meses deste ano, em queda de 14,87% frente aos US$ 86,465 bilhões vendidos lá
fora em igual período do ano passado. A partir de 2011, quando as exportações
no mesmo período haviam alcançado US$ 98,627 bilhões – o mais elevado para
aqueles oito meses desde o começo da década passada –, registrou-se um tombo de
25,4%.

As
importações, igualmente influenciadas pela crise no mercado interno, que fez
reduzir a demanda por bens industriais nacionais e importados, sofreram baixa
de 11,07% entre 2019 e 2020, passando de US$ 106,085 bilhões para US$ 94,339
bilhões, ainda no acumulado entre janeiro e agosto. As compras externas do
setor foram as menores em três anos. E, na comparação com janeiro a agosto e
2011, encolheram 25,9%, saindo de US$ 127,378 bilhões naquele ano – o valor
mais elevado na série estatística recente da Secretaria de Comércio Exterior
(Secex), refletindo o processo de desindustrialização instalado no setor desde
os anos 1990, numa substituição da produção local pela importação de partes,
peças, acessórios e bens industriais finais.

Déficits
comerciais

De
volta a 2020, a indústria de transformação voltou a ampliar o déficit em sua
balança comercial (exportações menos importações), com as compras externas
superando as vendas em US$ 21,031 bilhões, num avanço de 7,19% em relação ao
rombo de quase US$ 19,620 bilhões acumulado nos oito meses iniciais de 2019.
Desde 2018, o déficit do setor já cresceu 22,0%. Para registro, entre janeiro e
agosto de 2017, a balança do setor havia anotado um superávit (exportações
maiores do que importações) de US$ 282,668 milhões.

Balanço

·  
Os
números da balança comercial do setor de transformação trazem um agravante
neste ano. A chamada “relação de troca” setorial voltou a sofrer uma piora
neste ano, significando que os bens importados pelo setor ficaram relativamente
mais caros do que os produtos e insumos exportados. Em outros termos, a
indústria brasileira está transferindo maiores fatias de suas rendas para fora
do País, além de trocar a produção que poderia ser realizada aqui dentro por
importações.

·  
O
valor médio de cada tonelada de bens importados passou a ser pouco mais de duas
vezes maior do que o dos bens exportados. Essa diferença havia sido de 59,4% em
2019, girando em torno de 60% a 65% nos dois anos anteriores.

·  
Em
outro ângulo de análise, a diferença de custos entre bens importados e
exportados tem obrigado a indústria a realizar um esforço maior para vender
seus produtos no exterior, a despeito da alta do dólar (que em tese tende a
favorecer as exportações). A queda de quase 15,0% nas receitas de exportação
correspondeu a um crescimento de 16,2% nos volumes embarcados.

·  
Como
resultado, a indústria exportou mais, mas a preços
relativos mais baixos. De fato, o valor médio de cada tonelada despachada para
fora do País anotou redução de 26,7%.

·  
No
lado das importações, as despesas em dólar recuaram, como visto, pouco mais de
11,0%, mas os volumes importados baixaram apenas 3,16%. O valor médio dos bens
importados sofreu redução menos intensa do que na ponta das exportações, num
recuo de 3,64% frente a 2019.

·  
Entre
2011 e este ano, sempre na média do acumulado entre janeiro e agosto, os
valores médios dos bens exportados e importados caíram em velocidades
diferentes, com retração de 41,66% para as vendas externas e de 28,93% para os
importados.

·  
Responsável
por mais de dois terços do Produto Interno Bruto (PIB), o setor de serviços
apresentou desaceleração em julho, com variação de 2,6% frente a junho, depois
de ter avançado 5,2% naquele mês (agora, claro, na comparação com maio). O
setor ainda anotou retrocesso de 11,9% na comparação com julho de 2019.

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Conforme
anota o economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves, os
resultados frustraram as expectativas do mercado, que esperava alta de 3,1%
diante de junho e queda ligeiramente menor (de 10,4%) se considerado o mês de
julho do ano passado. Ainda de acordo com o economista, trata-se do “setor com
pior desempenho se considerada a perda no nível muito mais forte do que os
demais setores cobertos pelo IBGE e a perspectiva de recuperação mais lenta”. A
trajetória da atividade no setor desde a pandemia, acrescenta, sugere
“claramente que não teremos uma recuperação em ‘V’”.

·  
Os
números em Goiás foram ainda piores, com quase estagnação em ter junho e julho
(variação de apenas 0,1%), baixa de 14,5% em relação a julho de 2019 e um tombo
acumulado de 9,8% em sete meses.

 

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