Coluna

Indústria goiana já vinha em desaceleração (antes do vírus)

Publicado por: Sheyla Sousa | Postado em: 09 de abril de 2020

A
produção industrial em Goiás vinha em ritmo de desaceleração antes mesmo da
parada súbita dos negócios causada pelas medidas de enfrentamento da Covid-19,
incluindo o distanciamento social e a paralisação de atividades não essenciais.
Os números trazidos ontem a público pelo Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE), em sua pesquisa industrial regional, retratam o momento
vivenciado pelo setor num momento imediatamente anterior ao ataque do vírus por
aqui e sugerem como seus efeitos serão extremamente doloridos para todos os
setores, considerando ainda o pesado custo em vidas.

Na
medição do IBGE, a produção da indústria em Goiás havia experimentado
crescimento de 1,3% na passagem de dezembro de 2019 para janeiro deste ano,
segundo dados já dessazonalizados (ou seja, excluídos fatores que só ocorrem em
períodos determinados do ano e que podem interferir na comparação, como as
festas de fim de ano, feriados e outros). Em fevereiro, a produção apresentou
variação de apenas 0,3% em relação a janeiro. Quando se considera igual mês do
ano imediatamente anterior, a indústria enfrentou em fevereiro o terceiro mês
de baixa, caindo 1,4% naquele mês, depois de perdas de 3,0% e de 1,0% em
dezembro e janeiro.

A
indústria de transformação sofreu perdas crescentes entre dezembro e fevereiro,
com recuo de 0,7% no mês final de 2019 e baixas de 1,0% e de 2,0% nos dois
meses seguintes. O desempenho foi influenciado principalmente pela retração na
produção de alimentos e medicamentos, setores estratégicos e mais relacionados
ao consumo de massa (um indicativo, portanto, de que a renda das famílias vinha
caminhando tropegamente). A indústria de produtos farmoquímicos e
farmacêuticos, para usar a classificação adotada pelo IBGE, segue aos
solavancos, entre altos e baixos. Desabou 7,3% em dezembro, avançou 2,5% em
janeiro e, no mês seguinte, caiu 6,1% (em relação aos meses idênticos de 2018 e
2019).

Alimentos em
baixa

O
setor de bens alimentícios, naquela mesma ordem, recuou 0,9%, caiu 4,3% e agora
em fevereiro havia desabado 8,1%. A redução no mês foi influenciada
principalmente pela menor produção de carnes bovina e de aves, leite e óleo de
soja refinado. A indústria do setor passou a acumular redução de 6,3% no
primeiro bimestre e uma variação de apenas 0,3% nos 12 meses terminados em
fevereiro deste ano (taxa que se compara com o avanço de 1,8% ao longo dos 12
meses de 2019). Assim, as indústrias de alimentos e de medicamentos foram
decisivas para o desaquecimento do setor de transformação industrial, A
sequência de dados no setor mostra a perda de fôlego desde o final do ano
passado, quando havia acumulado elevação de 3,2%. A taxa vem sendo reduzida
desde lá, passando a uma variação de 2,8% em janeiro e para 2,4% em fevereiro
(sempre no acumulado em 12 meses).

Balanço

·  
Como
são setores essenciais e, de alguma forma, os governos têm buscado preservar a
produção, o que poderá amenizar os danos esperados em função do coronavírus.
Ainda assim, a manutenção dos níveis (já baixos) de produção não está
assegurada diante da parada dos negócios a partir da segunda quinzena de março.

·  
A
compensação tem vindo de dois outros setores, ambos diretamente relacionados ao
agronegócio. A produção de biocombustíveis (etanol e biodiesel), que havia
desabado 21,6% em dezembro, avançou 1,1% em janeiro e experimentou um salto de
36,8% em fevereiro, diante de igual período do ano anterior. No bimestre, o
setor acumula elevação de 16,9%.

·  
A
produção de adubos e fertilizantes, catalogados no setor de “outros produtos
químicos” pelo IBGE, aumentou 22,5% em fevereiro, depois de altas de 13,0% e de
5,5% em dezembro e janeiro, respectivamente. A sequência de bons resultados
elevou o crescimento acumulado em 12 meses de 6,7% em 2019 para 7,9% em
fevereiro. No bimestre, a produção cresceu 13,6%.

·  
A
indústria de montagem de veículos continuava a oscilar entre bons e maus
resultados, mas com fortes variações entre um extremo e outro. Em dezembro, por
exemplo, a produção do setor chegou a saltar incríveis 92,5% para logo depois,
em janeiro, despencar 24,1%. Na medição mais recente, em fevereiro, a produção
avançou 7,5%. Os dois meses de comportamentos extremos fizeram a taxa acumulada
no bimestre entrar em terreno negativo, com recuo de 9,5% frente a igual
período de 2019.

·  
O
mais provável é que as montadoras goianas voltem a apresentar forte baixa em
março, sacramentando um trimestre muito negativo, a se considerar os números
divulgados nesta semana pela Associação Nacional de Fabricantes de Veículos
Automotores (Anfavea). Em todo o País, a produção de veículos caiu 7,0% na
passagem de fevereiro para março e desabou 21,1% em relação a março do ano
passado, seguindo o tombo observado para as vendas no mercado doméstico e a
retração continuada das exportações.

·  
A
primeira sondagem do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio
Vargas (FGV/IBRE) mostrou que a indústria tende a ser o setor da economia mais
afetado num primeiro momento. O levantamento indica que 43% das empresas do
setor industrial esperam alguma forma de redução em suas operações e nos
negócios, diante de 35,4% no comércio e 30,2% no setor de serviços.

 

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