sexta-feira, 26 de junho de 2026

Indústria goiana perde densidade e reduz capacidade de gerar riquezas

Lauro Veiga Filhopor Lauro Veiga Filho em 25 de junho de 2026

A pesquisa anual do setor industrial, conduzida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), indica que o setor industrial goiano tem perdido intensidade em seu processo produtivo, sugerindo uma redução em sua capacidade de agregar riquezas à economia e um avanço na dependência em relação a importações e a bens de baixo valor agregado, o que parece se refletir na participação majoritária de commodities de base agropecuária e mineral nas exportações. Em 2024, dado mais recente divulgado pelo IBGE, agora com atualizações e acréscimo de novas informações sobre a indústria em geral, a relação entre o valor da transformação industrial (VTI), que corresponde à “riqueza real” gerada dentro das fábricas, e o valor bruto da produção atingiu o menor nível da série histórica – muito embora a comparação com períodos anteriores tenha se tornado mais complicada em função das mudanças adotadas pelo instituto a partir da pesquisa referente a 2024.

Entre 2023 e o ano seguinte, aquela relação recuou de 32,37% para 31,88%, depois de ter alcançado 39,92% em 2010 – percentual mais elevado da série iniciada em 2007. Os resultados colhidos pelo setor industrial, incluindo os setores de transformação e de extração mineral, não guardam equivalência com a verdadeira montanha de subsídios e incentivos fiscais desviados do conjunto dos contribuintes para as empresas do setor ao longo de anos em sequência.

Neste sentido, pode-se considerar que as políticas de estímulo à agregação local de valor e atração de investimentos não alcançaram os objetivos pretendidos e deveriam ser já repensadas, especialmente com o início da vigência de um novo modelo tributário que, em tese, deverá estancar a guerra fiscal ao colocar um freio nas políticas regionais de redução de impostos e concessão de privilégios fiscais a setores escolhidos da economia.

 

Desindustrialização

Na descrição do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), a relação entre o valor da transformação industrial e o valor bruto da produção realizada pela indústria permite aferir a densidade do setor e o valor agregado pela indústria no processo de fabricação de bens e produtos acabados. Quedas naquela relação indicam que “o setor está gastando mais com insumos e matérias-primas (como commodities) para produzir, revelando menor complexidade produtiva e um processo de desindustrialização” – precisamente o que a política de incentivos buscava evitar, além de promover o crescimento com agregação crescente de valores, tornando o Estado “mais rico”. Resumidamente, o valor bruto da produção corresponde ao valor de todo o que a indústria produz, enquanto o valor da transformação “desconta” custos com matérias primas, energia e serviços prestados por terceiros dentro das fábricas.

 

Balanço

Ainda na definição do Iedi, “quanto maior a relação, mais sofisticada é a indústria, pois ela consegue transformar insumos básicos em produtos finais de alto valor agregado”, a exemplo de eletrônicos e máquinas em geral. Assim, uma queda na relação entre aqueles dois indicadores pode significar que os custos das operações e dos insumos “está consumindo uma fatia maior do valor da produção”. Seria, neste caso, “o típico retrato de indústrias que apenas montam produtos importados ou focam na exportação de bens primários/básicos”, como commodities agrícolas e minerais.

A redução persistente da relação entre valor da transformação e valor bruto da produção ao longo de anos seguidos, segundo outros analistas, deveria acender os sinais de alerta entre formuladores de políticas, já que mostraria uma cadeia produtiva local em processo de enfraquecimento pela perda de elos importantes em sua composição. Adicionalmente, sugere ainda “maior nível de consumo intermediário ou de aumento no custo das operações industriais”, num processo que pode estar associado a aumento no uso de insumos importados, “o que representa para o conjunto da indústria transferência de produção de seu respectivo valor agregado para o exterior”.

Novamente na avaliação do Iedi, considerando que a participação relativa do VTI no valor bruto da produção permite dar uma dimensão do “adensamento produtivo”, vale dizer da complexidade do que é produzido pela indústria e, portanto, da “riqueza efetivamente gerada” pelo setor, “em Goiás, essa relação reflete uma indústria historicamente concentrada em commodities e processamento agropecuário, com menor sofisticação tecnológica e menor agregação de valor em comparação aos grandes centros”.

Na visão de especialistas em política industrial, o cenário em Goiás indica “a herança de uma industrialização tardia que se especializou em fornecer insumos primários ou processados para o Sudeste, mantendo o Estado mais dependente dos setores de comércio e serviços na composição geral do PIB” (Produto Interno Bruto).

Segundo ainda o Iedi, a “pauta industrial no Estado” é liderada pelos setores de fabricação de bens alimentícios e biocombustíveis, que “geram muito faturamento bruto, mas dependem fortemente da compra de matérias-primas agropecuárias, limitando o salto no valor adicionado”. A mais recente pesquisa industrial anual do IBGE mostra que as indústrias de alimentos e de biocombustíveis responderam por 61,27% da receita líquida da indústria em geral e por 60,56% do valor bruto da produção industrial.

Naqueles segmentos, no entanto, a relação entre VTI e valor bruto produzido ficou em 26,77% na indústria de alimentos e em 39,66% para os biocombustíveis, acima da média estadual, neste último caso, mas ainda uma relação muito baixa. Para se ter uma base de comparação, na média da indústria em todo o País, a relação alcançou 41,47% em 2024.

Na indústria de produtos químicos, a relação foi a mais baixa, chegando a apenas 21,73%. O setor de veículos no Estado apresentou um percentual de 22,93%, o segundo mais baixo, indicando que aquela indústria tem se consolidado como mera montadora de partes, peças e acessórios importados, com agregação mínima de valor no Estado e, portanto, com ganhos reais muito reduzidos para a economia local.

Em contraposição, as confecções e a indústria têxtil ficaram entre as relações mais elevadas em 2024, respectivamente 54,41% e 52,27%, perdendo apenas para a indústria de fabricação de equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos, com 54,94%, e para o setor de manutenção, reparação e instalação de máquinas e equipamentos, a “campeã”, com 71,03%.

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