sexta-feira, 6 de novembro de 2026

Indústria não cresce há cinco meses e acumula perda de 4,1% no período

Lauro Veiga Filhopor em
Indústria não cresce há cinco meses e acumula perda de 4,1% no período
Foto: José Paulo Lacerda/CNI

Com a taxa básica de juros mantida em 13,75% pelo Comitê de Política Monetária (Copom), pelo menos até o último convescote da agremiação neste ano, previsto para os dias 8 e 9 de dezembro, as possibilidades de alguma aceleração da atividade econômica no curto e mesmo a médio prazo tornaram-se ainda mais limitadas, dado o cenário de custos exorbitantes do crédito, inadimplência historicamente elevada no setor bancário e maior comprometimento da renda das famílias com o pagamento de juros e amortizações.

Entre os grandes setores da economia, a indústria nitidamente tem sido mais sacrificada, constrangida pelos efeitos diretos e indiretos da política de juros exorbitantes, o que termina afetando negativamente a demanda por bens industriais, de um lado, e postergando decisões de investimento, o que atinge mais diretamente a indústria de bens de capital, de longe o setor mais penalizado pela perda de produção. Os dados da pesquisa mensal da produção industrial, divulgada ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que a produção industrial como um todo parou de crescer a partir de maio deste ano, na série com dados dessazonalizados, quer dizer, com a exclusão de eventos e fatores que ocorrem todos os ano numa mesma época e que poderiam distorcer a comparação mês a mês.

Nessa comparação, depois de avançar 1,1% em abril, na comparação com março, a produção da indústria geral caiu 1,0% e 1,6% em maio e junho, anotando estagnação em julho e baixas de 0,7% e de 0,8% respectivamente em agosto e setembro. Na comparação dessazonalizada entre setembro e abril deste ano, a produção encolheu 4,1%. Mais do que isto, o setor não tem conseguido mais sequer superar os números do ano passado, situação observada a partir de julho último.

 

Três baixas seguidas

O dado positivo mais recente naquela comparação havia sido registrado em junho, quando a produção industrial havia superado os resultados do mesmo mês do ano passado em 1,7%. Na sequência, foram três meses no vermelho. A produção recuou 0,3% em julho e caiu 1,2% e 2,5% em agosto e setembro, acumulando queda de 1,4% no terceiro trimestre frente aos mesmos três meses do ano passado. Na análise do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), a queda no trimestre veio depois de “dois trimestres de expansão modesta, estimulada essencialmente pelo ramo extrativo”, já que o setor de transformação apresentou desempenho mais irrelevante.

 

Balanço

“A indústria de transformação, que conta com atividades mais sensíveis à conjuntura de taxas de juros elevadas e endividamento de empresas e famílias, acusou variação positiva em apenas um dos últimos seis trimestres”, anota ainda o Iedi. A produção nesta área sofreu baixa de 2,2% no terceiro trimestre deste ano em relação ao mesmo período de 2025.

Um dado expressa o cenário atual entre dois dentre os principais segmentos da indústria. O setor de transformação, na série dessazonalizada, registrou em nove meses apenas dois resultados francamente positivos, com as altas de 2,3% em janeiro e de 0,9% em fevereiro, sempre em relação aos meses imediatamente anteriores.

Foram, portanto, sete meses sem crescimento ou queda, com apenas uma tímida variação positiva de 0,1% em julho (tão tímida que pode ser avaliada como uma estagnação). Em agosto e setembro, a indústria de transformação reduziu sua produção em 0,8% e em 1,3% naquela mesma ordem. Na saída de abril para setembro, a transformação registrou baixa também de 4,1% (ditando o rumo de todo o setor industrial no mesmo intervalo).

As indústrias extrativas, que vinham sendo beneficiadas pelo incremento na exploração de petróleo, tiveram quatro meses de baixa ainda na séria de dados dessazonalizados, com baixas de 2,7% em maio, recuo de 0,3% em junho e quedas de 0,9% e de 0,6% em julho e agosto, retomando o crescimento em setembro (mais 1,7%). Esse comportamento colocou o dado de setembro ainda 2,9% inferior ao total produzido em abril deste ano, uma redução muito menos intensa do que aquela observada para a indústria de transformação.

A comparação com idêntico período de 2025 mostra um cenário mais favorável para o setor extrativo, que atingiu em setembro deste ano o 19º mês com números positivos, saltando 5,9% em relação ao nono mês do ano passado. A indústria de transformação não conseguiu acompanhar aquele desempenho e sofreu baixas em seis dos nove meses iniciais deste ano, metade das quais realizada a partir de julho, mês em que o setor sofreu queda de 1,0% (frente a julho de 2025).

Ainda na comparação anual, agosto e setembro foram meses negativos para a indústria de transformação, com queda de 1,9% naquele primeiro mês e uma redução duas vezes mais intensa no seguinte, numa queda de 3,8%. No acumulado entre janeiro e setembro deste ano, comparado os mesmos nove meses de 2025, enquanto a extrativa registra elevação de 5,9%, o que se compara com o recuo de 0,6% no setor de transformação.

O desempenho muito negativo da indústria de bens de capital igualmente chama a atenção, num movimento que sinaliza perdas para o investimento privado no País. A produção no setor, como mostra o IBGE e reforça o Iedi, sofre baixas desde o segundo trimestre do ano passado, em relação a iguais trimestres do ano imediatamente anterior. Neste ano, a pesquisa registrou perdas de 6,4% no primeiro trimestre, de 4,7% no segundo e de 4,1% no terceiro.

O dado agregado para o terceiro trimestre, anota ainda o Iedi, “esconde uma retração muito forte de bens de capital para a agricultura, de -31,6%, devido à escalada do endividamento dos produtores agrícolas”. A queda produção de bens de capital de uso misto e para uso pela própria indústria, também no terceiro trimestre, chegou respectivamente a 9,4% e a 2,9%.

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