Indústria para de crescer e acumula recuo de 1,5% entre abril e julho
A indústria brasileira abriu o segundo semestre do ano com mais um resultado negativo, acumulando quatro meses consecutivo sem crescimento. No período, foram três meses de perdas – abril, maio e julho – e um junho de estagnação total, o que levou a uma redução de 1,5% nos volumes produzidos ao longo daquele período, tomando março como base, na série de dados dessazonalizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em julho, comparado ao mês imediatamente anterior, a produção industrial recuou 0,2%, mantendo-se apenas 0,2% acima dos volumes processados em julho do ano passado, com variação de 1,1% no acumulado dos sete primeiros meses de 2025 em relação a igual período de 2024, quando a produção industrial havia avançado 3,2%.
Na constatação do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento da Indústria (Iedi), “o segundo semestre, para a indústria, começou reproduzindo o mesmo padrão que vínhamos observando tanto na produção física como em seu Produto Interno Bruto (PIB), a exemplo dos dados divulgados na terça-feira, 2, pelo IBGE: desaceleração e predominância de variações negativas”. Segundo o instituto, na origem daquele cenário “estão sobretudo as altas consecutivas das taxas de juros”. Nos últimos 12 meses, tomando ainda os dados ajustados sazonalmente, quer dizer, com exclusão de eventos e outros fatores que ocorrem todos os anos na mesma época, apresentou números positivos em apenas três meses, derrapando ou recuando em nove deles.
Como parece evidente, o diagnóstico comumente sacado pelas correntes predominantes do pensamento econômico, tidas como “hegemônicas”, para explicar o “fenômeno inflacionário” recente não se aplica ao setor industrial. Longe de apresentar um ritmo de crescimento considerado por aquelas correntes como insustentável, a indústria enfrenta de fato notórias dificuldades para crescer e, mais do que isto, para sustentar tendências de variações positivas por períodos mais longos no tempo. Vale dizer, a indústria não se beneficiou – pelo menos não na medida desejável – do bom momento no mercado de trabalho e de seus efeitos sobre a demanda doméstica, que passou a perder fôlego a partir do segundo trimestre.
Distinção
No caso da indústria, há uma distinção relevante a ser feita. O desempenho tem sido muito mais irrelevante para todo o setor de transformação industrial, enquanto a indústria extrativa, movida por números recordes para a produção de petróleo e gás natural e pelo incremento na extração de minério de ferro, tem observado resultados melhores. Ainda na série dessazonalizada, considerando o mês imediatamente anterior como base para comparação, a indústria extrativa avançou 1,6% entre março e julho deste ano, compensando em parte a baixa de 1,8% observada em junho para avançar 0,8% no mês seguinte. Na comparação com idênticos períodos de 2024, a produção no setor cresceu 3,9% e 6,3% em junho e julho, respectivamente, com ganho acumulado de 3,7% nos sete meses iniciais deste ano – lembrando que havia experimentado avanço de 1,8% em idêntico período do ano passado.
Balanço
- Na indústria de transformação, ao contrário, a produção havia recuado 1,0% e 0,5% em abril e maio, pela ordem, apresentou modestíssimo avanço de 0,1% em junho e devolveu o “ganho” em julho ao sofrer ligeira queda de 0,1%, acumulando redução de 1,6% em quatro meses.
- Ao ser comparada com os mesmos meses do ano passado, a produção do setor caiu 2,2% e 0,9% em junho e julho, apresentando variação de apenas 0,7% nos sete primeiros meses deste ano, taxa equivalente a um quinto da alta de 3,4% registrada na comparação entre os sete meses iniciais do ano passado com o mesmo intervalo de 2023.
- Os dados oficiais do IBGE mostram que a indústria de transformação registrou taxas positivas em cinco dos últimos 12 meses. Para o conjunto agregado de toda a indústria, reforça o Iedi, as estatísticas coletados pelo organismo oficial entre janeiro e julho deste ano registram expansão apenas para março, quando a produção avançou 1,7% em relação a fevereiro deste ano. “Todos os demais meses oscilaram em torno de zero”, anota o Iedi.
- Em sua análise, o Iedi observa ainda que a indústria de transformação tem apresentado desempenho “ainda mais anêmico”, com zero de crescimento no primeiro trimestre do ano, recuo de 0,9% no segundo e de 0,1% em julho, em linha com baixas de 1,0% e de 0,5% observadas pelo IBGE para o PIB do setor no primeiro e no segundo trimestres deste ano. “Cabe lembrar que é nesta parcela da indústria que estão muitos ramos produtores de bens cujos mercados dependem das condições de juros e crédito para se dinamizarem”, anota o instituto.
- Na comparação com igual período do ano passado, mostra o IBGE, 13 entre 25 setores acompanhados tiveram queda na produção, com perdas mais intensas, entre alguns dos principais segmentos, para “equipamentos de transporte”, com tombo de 5,3%, material de reparação e instalação de máquinas e equipamentos, com baixa de 3,7% e metalurgia, que reduziu a produção em 3,5% ao longo de julho.
- Num efeito pouco desejado, mas previsível, diante do encarecimento absurdo dos custos do crédito, a produção de bens de capital – que sinaliza tendências para o investimento no setor industrial e em toda a economia – perdeu dinamismo já a partir de março, quando a produção caiu 1,1% frente a fevereiro e ficou ainda 1,3% abaixo dos níveis registrados em março do ano passado.
- Na série dessazonalizada, a fabricação de bens de capital havia apresentado um respiro em abril, ao avançar 0,9% sobre março, mas encolheu 1,6% em maio. A variação positiva de 0,2% anotada em junho foi integralmente revertida em julho, com recuo de igual proporção.
- Na comparação com os mesmos meses de 2024, a indústria do setor chegou a apresentar altas de 6,7% e 8,5% em janeiro e fevereiro deste ano. Os meses seguintes, no entanto, apresentaram dados majoritariamente negativos, com baixas de 1,3% e de 4,1% em março e abril; um respiro em maio (graças à elevação de 1,2%); e perdas de 2,8% e de 0,1% em junho e julho. Em sete meses, o ritmo de alta, que havia alcançado 6,9% no ano passado, minguou para 0,9% neste ano.
- No trimestre encerrado em julho, comparado aos mesmos três meses de 2024, a produção de bens de capital para transporte e de uso misto anotou baixas de 2,0% e 4,5%, determinando o recuo de 0,6% para todo o setor. Mas houve crescimento de 1,9% e de 13,9% na produção de bens de capital destinados, respectivamente, à indústria e à agricultura, com altas ainda de 2,9% e de 3,1% para os setores de energia e construção.
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