Indústria recupera em janeiro parte das perdas realizadas em dezembro

Lauro Veiga Filhopor Lauro Veiga Filho em 7 de março de 2026

A mudança de ano parece ter trazido algum ânimo para o setor industrial, que conseguiu recuperar, em janeiro, parte das perdas sofridas em dezembro, numa reação que pode ter uma explicação no próprio desempenho muito ruim reservado para a indústria principalmente nos meses finais do ano passado.

Os dados da pesquisa mensal sobre a produção industrial, divulgados na sexta-feira, 6, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que os volumes produzidos pela indústria brasileira saíram de uma redução de 1,9% em dezembro para um incremento de 1,8% em janeiro deste ano, sempre na comparação com o mês imediatamente anterior, na série ajustada sazonalmente — quer dizer, excluindo-se os efeitos de eventos e demais fatores que ocorrem ano a ano nas mesmas épocas.

Na comparação com janeiro do ano passado, a produção variou apenas 0,2% depois de enfrentar uma estagnação em dezembro, refletida num recuo de 0,1% para o conjunto do setor industrial frente ao último mês de 2024. Parte do desempenho muito modesto pode ser explicado, na visão do IBGE, pelo mês “mais curto” neste ano. O primeiro mês de 2026 registrou 21 dias úteis, diante de 22 dias em janeiro do ano passado.

Quaisquer que sejam os resultados a serem trazidos pela pesquisa relativa a fevereiro, tornou-se mais complicado, daqui para frente, antecipar tendências não só para a indústria, mas para toda a economia, aqui dentro e lá fora. Desde o final de fevereiro, como se sabe, os cenários geopolítico e econômico em geral ganharam dramaticidade inesperada, com a guerra detonada por Israel e Estados Unidos contra o Irã e seu acirramento nos últimos dias.

Registra-se um agravamento das incertezas em todo o mundo diante da perspectiva de um conflito prolongado e de consequências ainda não visualizadas para a economia global e mais especificamente para uma região historicamente conflituosa, num resultado especialmente de intervenções imperialistas em série, promovidas pelas nações mais poderosas desde o século XIX, com investidas mais recentes verificadas a partir do começo dos anos 1950.

Escalada

Os preços do barril de petróleo dispararam na última semana, com os mercados futuros voltando a registrar cotações superiores a US$ 90, retomando níveis observados mais recentemente em setembro de 2023 para o petróleo tipo West Texas Intermediate (WTI) e em abril do ano seguinte para o Brent.

Entre quarta-feira, 26, e a sexta passada, dia 6, as cotações do barril nos mercados futuros saltaram 39,3% no primeiro caso e 30,6% no segundo, passando a flutuar ao redor de US$ 90,84 para o barril do WTI e US$ 92,42 no caso do Brent. Com risco de novas altas pela frente, a depender do desenrolar da guerra.

A escalada terá impactos sobre o comércio global, com efeitos internamente da mesma forma, com impactos inflacionários gerados por aumentos eventuais nos preços dos combustíveis — mas também com crescimento das exportações de petróleo e de receitas para o setor público provenientes da cobrança de impostos e contribuições sobre o setor e ainda de ganhos proporcionados pelo sistema de partilha nesta mesma área, com a venda do petróleo destinado à União na área do pré-sal.

Balanço

• De volta à pesquisa sobre a produção industrial em janeiro, o resultado geral recebeu a contribuição dos aumentos de 1,2% e de 2,1% anotados respectivamente pelas indústrias extrativas e de transformação em relação a dezembro passado, na série com ajuste sazonal. Neste último caso, foi o primeiro mês de crescimento desde agosto de 2025.

• A produção realizada pela indústria de transformação havia anotado variação nula em setembro e novembro, tomando agosto e outubro como referência, respectivamente, e chegou a recuar 0,4% em outubro, caindo 2,5% em dezembro.

• O setor extrativo alcançou o segundo mês de números positivos depois de avançar 0,8% em dezembro, mas não havia conseguido se recuperar totalmente do tombo de 2,4% registrado em novembro, acumulando recuo de 0,4% na comparação dos níveis de produção realizados em janeiro deste ano e outubro do ano passado.

• No confronto com o mesmo mês do ano imediatamente anterior, a produção da indústria em geral havia anotado perdas consecutivas de 0,5%, de 0,4% e de 0,1% em outubro, novembro e dezembro de 2025, com a variação tornando-se apenas levemente positiva em janeiro último, quando a produção oscilou para cima numa variação de 0,2%.

• Naquele tipo de comparação, a indústria extrativa chegou em janeiro deste ano ao 11º mês de crescimento, num salto de 11,9% frente ao primeiro mês do ano passado. De acordo com o IBGE, a alta vigorosa foi puxada, “em grande medida”, pela maior produção de petróleo em bruto e minério de ferro.

• A indústria de transformação experimentou trajetória quase inversa, com baixas nos últimos quatro meses. Depois de avançar 1,4% em setembro do ano passado, a produção no setor teve quedas de 2,2% em outubro, de 2,5% em novembro, de 1,6% em dezembro e de 1,9% em janeiro deste ano, mantendo no vermelho o resultado acumulado em 12 meses, que mostra recuo de 0,6%.

• As influências mais negativas para o setor de transformação, considerando o desempenho de janeiro, vieram das indústrias de máquinas e equipamentos, num tombo de 15,4%, de veículos automotores, em baixa de 7,7%, e da menor fabricação de produtos químicos, que caiu 2,9%, com redução de 5,8% na produção de adubos e fertilizantes e retração de 11,4% na fabricação de produtos intermediários para o segmento de fertilizantes.

• Em outro destaque negativo, chegando já à sua 10ª queda mensal em sequência, a produção de coque, derivados de petróleo e biocombustíveis, em conjunto, recuou 1,2% em janeiro, acumulando queda de 5,3% em 12 meses.

• Olhando o curto prazo, a produção de biocombustíveis experimentou reação em dezembro e em janeiro, saltando, respectivamente, 15,7% e 27,6% frente aos mesmos meses de 2024 e de 2025.

• A produção de derivados de petróleo, na contramão do aumento da extração de óleo bruto, baixou 3,1% em janeiro (depois de ter caído 6,9% em dezembro).

• Depois de perdas de 0,2% e de 2,7% em novembro e dezembro, frente aos meses imediatamente anteriores, a produção de bens de capital apresentou elevação de 2,0% na saída de dezembro do ano passado para janeiro deste ano, mas despencou 11,8% frente ao primeiro mês do ano passado, numa sequência de oito meses de perdas.

• O tombo em janeiro foi acirrado por quedas de 17,9% na produção de bens de capital (basicamente máquinas e equipamentos) para a agricultura, de 13,0% para o setor da construção, de 10,2% para transporte e de 9,9% nos bens de capital destinados à indústria.

• Os dados parecem ratificar a tendência de queda para o investimento em geral na economia.

Você tem WhatsApp ou Telegram? É só entrar em um dos canais de comunicação do O Hoje para receber, em primeira mão, nossas principais notícias e reportagens. Basta clicar aqui e escolher.