Indústria volta a crescer em fevereiro e acumula alta de 3%
Pela primeira vez desde o início de 2020, antes ainda da pandemia, portanto, a indústria conseguiu engatar dois meses consecutivos de crescimento na comparação dessazonalizada, quer dizer, excluídos fatores e eventos que se repetem ano após ano em períodos idênticos. Como ressalva, a taxa de crescimento demonstrou certa perda de intensidade na saída de janeiro para fevereiro deste ano, com a variação saindo de 2,1% para 0,9% naqueles dois meses, sempre em relação aos 30 dias imediatamente anteriores. O desempenho no bimestre inicial deste ano levou a produção a acumular um avanço de 3,02% em relação a dezembro de 2024, maior taxa de variação para o mesmo período desde 2009, quando a indústria havia anotado elevação de 4,47% entre dezembro do ano anterior e fevereiro.
A desaceleração relativa observada na saída de janeiro para fevereiro deste ano, como observa o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), fez a produção industrial “novamente resvalar para terreno negativo se comparada à situação do ano passado”, num recuo de 0,7% em relação a fevereiro de 2025. O primeiro mês deste ano, como se recorda, havia indicado variação muito próxima da estabilidade geral, mas ainda em terreno positivo, com modesto incremento de 0,2% na comparação com janeiro do ano passado, como mostra a pesquisa mensal da produção industrial realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Derrapando
Na série com ajuste sazonal, que mostra o cenário para o setor industrial no curtíssimo prazo, detalha o IBGE, as taxas positivas foram mais disseminadas entre os diversos setores acompanhados pela pesquisa, com avanços para 16 ou 64% dentre 25 ramos de atividade, com baixas para nove deles (36%). Ainda na série dessazonalizada, os volumes produzidos pelo setor industrial brasileiro superaram em fevereiro deste ano os níveis registrados em igual mês de 2020, demonstrando uma variação relativamente modesta de 3,2% – mas 15 setores não conseguiram bater os resultados observados há seis anos, representando 60% dos segmentos pesquisados, com uma dezena deles demonstrando avanço nessa comparação (algo como 40% dos ramos escrutinados pelo IBGE). Na média geral, a produção ainda se encontrava quase 14,1% abaixo dos volumes observados em maio de 2011, vale dizer, há quase uma década e meia. Isso demonstra o atraso na evolução da indústria, que tem enfrentado um ambiente severamente hostil há décadas, definido por juros sempre muito elevados e um câmbio sobrevalorizado, o que tem contribuído para penalizar a produção local na concorrência com bens industriais importados.
Balanço
Ainda na passagem de janeiro para fevereiro deste ano, anota o IBGE, as principais influências positivas vieram da fabricação de veículos automotores, reboques e carrocerias, em alta de 6,6% e avanço de 14,1% desde dezembro, “eliminando o recuo de 9,5%” acumulado nos dois meses finais de 2025; e da indústria de coque, derivados do petróleo e biocombustíveis, com ganho mensal de 2,5%. Foi o terceiro resultado positivo observado para o setor, significando uma elevação acumulada de 9,9% a partir de dezembro do ano passado.
Entre outras contribuições positivas, o IBGE aponta ganhos de 6,8% para máquinas e equipamentos, de 1,1% para a indústria extrativa, modestos 0,8% na indústria de produtos alimentícios e altas ainda de 3,4% de 7,2% e de 3,1% respectivamente para a produção de bebidas, móveis e equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos. A indústria de transformação, que havia apresentado elevação de 2,3% em janeiro, teve seu ganho reduzido para 1,0%.
O desempenho médio, ainda na passagem de janeiro para fevereiro, foi afetado mais negativamente pelo tombo de 5,5% na indústria farmoquímica e farmacêutica, mas com perdas ainda de 1,3% para produtos químicos e de 1,7% na metalurgia.
O recuo de 0,7% registrado pelo conjunto da indústria na comparação com fevereiro do ano passado zerou o avanço já tímido de 0,2% anotado em janeiro, agora em relação a idênticos meses do ano passado, levando o setor como um todo a acumular um recuo de 0,2% no primeiro bimestre. O resultado de janeiro havia interrompido uma série de três meses de perdas consecutivas na produção industrial.
Segmento mais afetado pela política de juros altos, a indústria de bens de capital teve sua produção reduzida em 13,5% em fevereiro (depois de já despencado 11,3% em janeiro, 7,9% em dezembro e 5,7% em novembro). São nove meses de resultados negativos em sequência, o que antecipa um cenário não muito animador para o investimento.
Ainda no primeiro bimestre de 2026, comparação aos mesmos dois meses do ano passado, a produção de bens de capital para a indústria encolheu 10,8% (saindo de perdas de 0,4% e de 1,1% no terceiro e quarto trimestres do ano passado), indicando baixa disposição do setor para ampliar a capacidade instalada de produção. A produção de bens de capital destinados ao setor agrícola, a exemplo de tratores, colheitadeiras e outros equipamentos, que vinha crescendo fortemente ao longo dos quatro trimestres de 2025 (com altas de 12,3%, de 9,8%, 12,8% e 6,8% em cada um deles), desabou 14,9% nos primeiros dois meses deste ano.
Também no primeiro bimestre e ainda no setor de bens de capital, houver perdas de 10,0% para bens de capital para o setor de transportes (caminhões, ônibus e outros), de 12,6% na fabricação de bens de capital demandados pelo setor de construção e um tombo de 20,3% para bens de capital de uso misto, com recuo de 3,0% para máquinas e equipamentos destinados ao setor de energia.
A produção de bens duráveis vem em queda desde o terceiro trimestre do ano passado e acumulou redução de 6,8% no primeiro bimestre deste ano, com perdas mais intensas para eletrodomésticos (queda de 12,6%) e ainda redução de 2,0% para a produção de automóveis. Bens intermediários, com avanço de 1,1%, e semi e não duráveis, que apresentaram elevação de 0,4%, surgem como exceções. Ainda assim, alguns ramos dentro daquele último segmento, não conseguiram fôlego para crescer.
“Este foi o caso de têxteis, com queda de 11,8% (…), isto é, um recuo duas vezes mais intenso que no final de 2025” (comparado à redução de 5,9% no último trimestre do ano passado), segundo o Iedi. “Foram também os casos de calçados (baixa de 11,1% ante o primeiro bimestre de 2025) e vestuários (queda de 11,2%)”, acrescenta o instituto. Na visão de seus economistas, “dado o perfil destes bens, esta evolução reflete a desaceleração do consumo das famílias, premido pelos elevados índices de endividamento em uma conjuntura de taxas altas de juros”.