Indústria volta a derrapar, mas importações continuam em alta
A produção industrial parece seguir rumos contrários àqueles sugeridos pelos dados do mercado de trabalho, que têm apresentado recordes para o emprego e a massa de renda das famílias de trabalhadores. Na mesma linha, a renda nacional bruta disponível das famílias acumulada em 12 meses, critério mais amplo para aferição dos ganhos familiares desenvolvido pelo Banco Central (BC), avançou de 68,01% do Produto Interno Bruto (PIB), em dezembro de 2022, para 72,48% em julho deste ano, dado mais recente liberado pela autoridade monetária.
Ainda assim, a produção da indústria como um todo recuou 0,6% na passagem de julho para agosto, na série sazonalmente ajustada, que exclui fatores e eventos que sempre se repetem nas mesmas épocas todos os anos. Na verdade, no mesmo tipo de comparação, a indústria tem derrapado desde maio, quando sofreu baixa de 1,0% em relação a abril, caindo mais 1,6% em junho para apresentar algum “respiro” em julho, mas numa oscilação de apenas 0,1%.
Na comparação entre agosto e abril deste ano, ainda na série dessazonalizada, a produção sofreu baixa de 3,1%. No mesmo intervalo, a indústria de transformação registrou baixa de 2,4%, depois de recuar 0,7% em agosto frente a julho. As indústrias extrativas, que vêm em baixa desde maio, atingiram o quarto resultado negativo em agosto, acumulando baixa de 4,7% neste intervalo, com recuo também de 0,7% entre julho e agosto.
A baixa na produção e, presumivelmente, no consumo de bens industriais pode estar relacionada, parcialmente ao menos, aos níveis históricos de comprometimento da renda, em seu conceito mais amplo, com o pagamento de juros e de prestações da dívida bancária contratada pelas famílias. No dado de julho, mais recente divulgado pelo BC, pouco mais de 28,7% da renda havia sido drenada por juros e amortizações, consumindo qualquer coisa em torno de R$ 236,87 bilhões. Considerando os dados do segundo trimestre, quando as famílias haviam utilizado R$ 219,60 bilhões de sua renda para fazer frente ao serviço daquela dívida, o desvio correspondeu a quase 10,4% do consumo total das famílias ou ainda perto de 6,4% do total de riquezas geradas pela economia no período.
Ciranda financeira
No lado corporativo, as taxas de juros proibitivas têm contribuído para adiar projetos e reduzir investimentos, com impactos sobre a produção industrial. Outra parcela da explicação pode estar relacionada ao crescimento das importações de bens e insumos industriais, especialmente de produtos duráveis, levando a um desvio de receitas industriais e à transferência de parcela da renda nacional para outros países e para suas empresas e trabalhadores.
Esse processo pode estar sendo acompanhado, internamente, por algum processo de concentração da renda entre as faixas de renda mais alta, mais favorecidas pela política de juros altos e com maior capacidade para consumir automóveis e outros duráveis de maior valor. Outra distorção causada principalmente pela política monetária em vigor, que desvia recursos que deveriam alimentar programas sociais para o cassino financeiro instalado no Brasil, favorecendo os muito ricos.
Balanço
Os dados da Pesquisa Industrial Mensal, divulgados em 2 de outubro pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), registram perdas em agosto para 16 dos 25 ramos industriais investigados pelo instituto, na comparação ajustada sazonalmente. Isso significa que 64% de todo o setor enfrentou taxas negativas na passagem de julho para agosto, com baixas mais acentuadas para as indústrias de fumo, produtos farmacêuticos, equipamentos de informática, confecções e outros equipamentos de transporte. Pela ordem, as baixas chegaram a 23,4%, 5,5%, 4,0%, 3,3% e 2,9%.
No lado mais positivo, anotaram avanços os segmentos de produtos industriais diversos, com alta de 8,4%, alimentos, com 1,0%, e produtos químicos, com elevação de 0,9%. O dado dessazonalizado mostra, ainda, que a produção realizada em agosto deste ano esteve apenas 1,3% acima dos volumes produzidos em fevereiro de 2020, antes da pandemia.
Todos os grandes setores da indústria anotaram perdas na comparação de agosto com julho, com recuos de 0,6% para a produção de bens de capital, que inclui máquinas, equipamentos, caminhões e ônibus, e de 0,2% para bens intermediários, na quarta baixa consecutiva. Também foram registradas reduções de 1,0% e de 1,7% para bens duráveis e semiduráveis e não duráveis, respectivamente.
Quatorze entre 25 ramos industriais, ou 56% do total, ainda não haviam retomado os níveis de fevereiro de 2020. Em janeiro de 2021, por exemplo, a produção havia superado os resultados anteriores à pandemia em 3,6%, o que reafirma o desaquecimento em curso em um período mais recente.
Ainda conforme a pesquisa, a indústria em geral experimentou seu segundo mês de queda na comparação com igual período do ano anterior, até mesmo com alguma aceleração na velocidade de queda. A produção do setor sofreu baixas de 0,5% e de 1,2% em julho e agosto, frente aos mesmos meses de 2025, passando a acumular variação de apenas 0,8% em oito meses e ainda menor, na faixa de 0,6%, no acumulado em 12 meses até agosto deste ano.
A indústria de transformação, que já havia anotado perda de 1,0% em julho, caiu mais 1,8% em agosto, acumulando em oito meses baixa de 0,1%, com a produção praticamente estagnada. A indústria extrativa, com maior peso da extração de petróleo e de minério de ferro, avançou 2,4% em agosto, depois de ter crescido 2,5% em julho e 5,8% em junho, com ganho acumulado no ano de 6,1%.
Na comparação com agosto do ano passado, os setores mais voltados para bens de consumo popular — alimentos, produtos têxteis, confecções, calçados, medicamentos e móveis — responderam por 93,3% da queda de 1,20% anotada pelo conjunto da indústria. No acumulado entre janeiro e agosto, a contribuição daqueles segmentos ficou negativa em 0,21%, o que significa dizer que o restante dos setores industriais participou de forma positiva na composição do resultado do período, algo próximo a 1,0%.
As importações da indústria de transformação, considerando o período entre janeiro e agosto, cresceram 7,15% neste ano frente aos mesmos oito meses de 2025, saindo de US$ 184,249 bilhões para US$ 195,538 bilhões, um aumento de US$ 12,161 bilhões. Desse total, quase 39,3% estiveram relacionados ao aumento nas compras de veículos, partes, peças e acessórios importados.
As importações de veículos cresceram de US$ 15,096 bilhões para US$ 19,872 bilhões, praticamente US$ 4,777 bilhões a mais. As compras externas de produtos farmacêuticos, incluindo insumos nesta mesma área, aumentaram em US$ 1,674 bilhão, num avanço de 17,83%, passando de US$ 9,500 bilhões para US$ 11,194 bilhões. Somados, aqueles dois setores foram responsáveis por 56,79% do incremento registrado para o total das importações brasileiras.
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