domingo, 27 de setembro de 2026

Inflação cai em agosto e esvazia manobras do presidente do BC

Lauro Veiga Filhopor em
Inflação cai em agosto e esvazia manobras do presidente do BC
Foto: Marcello Casal Jr./ABr

O cenário inflacionário antecipado pelos mercados para agosto não se concretizou, o que poderá esvaziar as manobras articuladas desde o gabinete de Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central (BC), para pressionar sua diretoria a retomar a política de aumento da taxa básica de juros. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), aferido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), fechou o mês passado em leve baixa de 0,02%, saindo de altas de 0,38% em julho e de 0,19% nas quatro semanas encerradas em 14 de agosto. O resultado final do mês mostra uma desaceleração importante no ritmo de variação dos preços em geral, refletindo principalmente as quedas nas tarifas da energia residencial e nos preços das passagens aéreas, que saíram de forte alta em julho.

Na mediana das previsões do mercado financeiro, conforme apurado pelo relatório Focus, havia a expectativa de uma elevação de 0,02% para o IPCA de agosto, com algumas casas financeiras antecipando um índice mais próximo de 0,03%. Parece mesmo uma discussão estéril, já que envolve alguma coisa ali na segunda casa depois da vírgula. Mas o fato é que a inflação que os mercados tentaram antecipar chegava a ser duas ou mais vezes mais elevada do que o índice de fato capturado pelas pesquisas do IBGE. O comportamento dos preços das passagens aéreas, que se caracteriza por sua extrema volatilidade, de fato influenciou na queda observada para a taxa inflacionária em agosto, ainda que o item tenha peso inferior a 0,65% no cálculo do IPCA.

A influência das passagens

Em julho, quando o índice “cheio” da inflação oficial havia alcançado 0,38%, as passagens aéreas tinham disparado, saltando 19,39% e respondendo por quase 28% na composição do IPCA. Para quem não comprou passagens naquele período, mas consumiu um pouco de cada item da cesta de produtos que formam o IPCA, a inflação ficou limitada a 0,27%. Na quadrissemana terminada em 14 de agosto, com o IPCA recuando para 0,19%, o custo da passagem aérea passou a indicar queda de 4,63% e encerraria o período entre 30 de julho a 29 de agosto em baixa de 4,93%. Com a exclusão da passagem do cálculo, o IPCA teria saído de 0,27% em julho para 0,16% na primeira quinzena de agosto, encerrando as quatro semanas daquele mês com variação de apenas 0,01%. Em resumo, o cenário inflacionário tem se mantido benigno, com o IPCA acumulado em 12 meses saindo de 4,61% em agosto do ano passado para 4,24% no mesmo mês deste ano, mesmo diante de pressões vindas da alta do dólar, que subiu 13,24% entre agosto do ano passado e o mesmo mês deste ano, na média de cada período.

Balanço

  • A redução nos preços da energia elétrica vinha igualmente contribuindo para manter a tendência de desaceleração do IPCA. Os custos médios nesta área haviam subido 1,93% ao final de julho e passaram a recuar 0,42% nas quatro semanas encerradas ao final da primeira quinzena de agosto, para despencar 2,77% no encerramento do mesmo mês.
  • A depender de como as pressões altistas geradas pela decisão anunciada no dia 4 de setembro pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), na média, os preços da energia tendem ainda a trazer para os primeiros dias de setembro um “carregamento negativo” para o IPCA do período, diante da redução mais expressiva registrada naquela área ao longo das duas últimas semanas de agosto.
  • Esse efeito estatístico, de toda forma, tende a ter fôlego curto, já que, desde então, passou a vigorar o primeiro nível da bandeira vermelha no setor elétrico, o que significará um acréscimo de R$ 4,463 na conta de luz a cada 100 quilowatt-hora consumidos pelas residências. Estimativas sugerem que a aplicação da bandeira vermelha 1 causaria um impacto entre 0,24 a 0,28 pontos percentuais sobre o IPCA caso seja mantida até dezembro, o que não parece suficiente para alterar substancialmente a tendência de bom-comportamento do índice inflacionário, que tem sido reforçado pela redução observada para os preços dos alimentos.
  • O Índice de Preços ao Consumidor Semanal (IPC-S), do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), parece já ter sofrido os primeiros efeitos da medida definida pela Aneel para segurar o consumo de energia e preservar os níveis dos reservatórios das usinas, afetados pela longa estiagem e pelo calor excessivo, num cenário agravado por incêndios em série. O indicador havia fechado o mês de agosto com recuo de 0,16% (depois de alcançar 0,54% nas quatro semanas finalizadas no dia 7 do mesmo mês) e iniciou setembro com variação de 0,05%.
  • O grupo alimentação manteve-se em terreno negativo, mas a queda foi menor do que nas quatro semanas de agosto, quando haviam anotado redução de 1,03%. Na primeira quadrissemana de setembro, houve recuo de 0,45%. O mesmo ocorreu com o grupo habitação, que passou de deflação de 0,40% para uma leve baixa de 0,02%. Neste último caso, sob influência principalmente dos preços da energia, que haviam baixado 2,09% em agosto e passaram a anotar queda de 0,14% nas quatro semanas encerradas em 7 de setembro.
  • A edição mais recente do relatório Focus do Banco Central (BC) projeta inflação de 0,36% para setembro, com base no IPCA. O que pode não significar muito, diante da margem de erro que tem predominado nas apostas do setor financeiro, distorcidas pelo viés quase sempre mais altista que predomina nas projeções do mercado.
  • Um dos focos centrais nas preocupações do Comitê de Política Monetária (Copom), a inflação dos serviços baixou de 0,75% em julho para 0,29% na quadrissemana terminada em 14 de agosto, fechando o mês passado em 0,24% – o que corresponde a uma taxa anualizada de 2,92% (o que exigiria a repetição da mesma taxa mensal ao longo dos próximos 12 meses, algo não muito provável, mas que reforça uma perspectiva mais favorável para a inflação do que aquela que alimenta os modelos de previsão adotados pelo Copom).

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