Inflação contraria previsões e abre maio em desaceleração
Parafraseando o grande escritor mineiro Otto Lara Rezende, pai do economista André Lara Rezende, um dos “pais do Plano Real”, a inflação está onde sempre esteve. Embora seja apenas uma frase de efeito bolada pelo escritor para falar de seu Estado, os dados aferidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o tal “dragão da inflação” mantém-se calmo e controlado – mais relevante, vem mesmo perdendo fôlego nas medições mais recentes, com desaceleração até mesmo para os preços dos serviços, que sempre demonstraram maior resistência, e agora gradualmente vêm cedendo.
Na medição realizada pelo instituto entre os dias 15 de abril e 15 de maio, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) apresentou recuo para 0,36% diante de variações de 0,43% ao longo de abril e de 1,31% em fevereiro – sempre é bom incluir uma visão um pouco mais alongada no tempo, ainda que nem tanto, para refrescar memórias e apresentar o cenário mais recente para os preços. A inflação acumulada em
12 meses atingiu 5,40%, acima do teto da meta inflacionária, fixada em 4,50%, mas levemente abaixo dos 5,53% registrados nos 12 meses terminados em abril. O recuo deu-se com a “saída” do índice de 0,44% anotado entre as duas semanas finais de abril e a primeira quinzena de maio do ano passado e a “entrada” do IPCA-15 de maio deste ano, mais baixo, no cálculo da inflação acumulada em 12 meses.
A queda no IPCA-15 mensal deu-se por conta principalmente da moderação no ritmo de alta dos alimentos, que chegaram a subir 1,17% em março, recuando ligeiramente para 1,14% na segunda quadrissemana de abril, encerrando as quatro semanas daquele mesmo mês em 0,82%. O ritmo baixou mais fortemente para 0,39% nos 30 dias encerrados em 15 de maio, ou seja, apenas duas semanas depois. Como o IBGE calcula o índice inflacionário tomando preços médios dos produtos e serviços que compõem a cesta de consumo das famílias, o dado sugere que, na ponta (quer dizer, precisamente na segunda semana deste mês), o custo da alimentação poderia estar numa desaceleração ainda mais acentuada.
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Moderação
A moderação dos preços dos alimentos recebeu maiores influências da perda acelerada no ritmo de alta de tubérculos e legumes, que haviam disparado 10,39% nos 30 dias de abril e passaram a subir apenas 1,85% entre o início da segunda quinzena de abril e o final da primeira quinzena de maio. Com alta de 14,32% para o tomate, o grupo havia respondido por 17,69% do IPCA “cheio”. O preço do legume despencou 7,28% nas primeiras duas semanas deste mês, respondendo por parte da desaceleração, o que reduziu a contribuição do grupo tubérculos e legumes na formação do IPCA-15 de maio para apenas 3,92%. Os preços do leite longa vida saíram de altas de 2,44% na segunda quadrissemana de abril e de 1,71% nos 30 dias do mês passado para 0,66%.
Balanço
- Um dos “vilões” da inflação nas últimas semanas, os preços dos ovos de galinha já haviam recuado 1,29% em abril e encerram as quatro semanas finalizadas no dia 15 passado em baixa de 2,23%.
- O ritmo de redução nos preços das passagens aéreas, um item extremante volátil por alternar altas e quedas em geral intensas em curtos períodos de tempo, tem perdido força, com a baixa saindo de 14,38% no começo de abril para 11,18% no início de maio. Os preços dos combustíveis, ao contrário, vinham em queda e passaram a subir neste começo de maio, numa variação modesta de 0,11% (depois de queda de 0,45% nos 30 dias de abril). A comparação sugere que o grupo tenderá a pressionar um pouco mais a inflação no restante de maio.
- Os preços dos serviços, que em geral são pressionados pelo aumento dos salários, respondendo por 36% da taxa geral, igualmente entraram em desaceleração desde abril, saindo de alta próxima de 0,62% em março. No encerramento do mês passado, a variação já havia cedido para 0,20% no fechamento de abril e passou a apresentar elevação de 0,15%.
- A inflação dos serviços, quando medida em 12 meses, manteve-se mais elevada em relação ao restante dos preços, com alta de 5,53% até 15 de maio – pouca coisa inferior à taxa de 5,72% nos 12 meses finalizados em 30 de abril. Os serviços responderam, num cálculo estimado, por 38% da inflação total acumulada no período.
- A exclusão de itens mais sensíveis e voláteis, a exemplo passagens aéreas, energia e combustíveis, reafirma a tendência baixista. Os demais produtos e serviços apresentaram variação de 0,36% – coincidindo com o índice geral, pois se combustíveis e energia elétrica residencial chegaram a subir – 0,11% e 1,68% respectivamente –, as passagens caíram, como visto.
- O “desconto” daquelas variáveis, portanto, manteve o índice geral inalterado. Mas em abril, na mesma conta, a inflação dos produtos e serviços restantes havia alcançado 0,55%.
- Parte da perda de velocidade no ritmo de alta nos preços dos serviços pode ser explicada pela redução no custo das passagens aéreas. Mesmo assim, quando desconsiderado esse item, a inflação mensal no setor saiu de 0,58% em março para 0,29% em abril, indicando variação de 0,22% entre 15 de abril e 15 de maio.
- Dois outros focos de pressão igualmente perderam força nas duas primeiras semanas de maio, a saber, os grupos higiene pessoal, anteriormente pressionado pela alta dos perfumes (entre outros pontos), e produtos farmacêuticos. No primeiro setor, a variação de 1,51% no começo de abril cedeu para 0,49% na segunda quadrissemana de maio, com os preços dos perfumes saindo de uma elevação de 2,49% para 0,26%.
- Os produtos farmacêuticos, que haviam subido 1,04% na segunda quadrissemana de abril, passaram a subir 2,32% no fechamento daquele mês. Já na segunda quadrissemana de maio, a variação ficou limitada a 1,93%, o que correspondeu a uma contribuição de 18,27% na composição do IPCA-15 deste mês.
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