Inflação em alta. Seis itens responderam por quase 72% do aumento em setembro
A alta da inflação em setembro pode ser explicada principalmente pelo aumento nos preços de seis itens entre os 377 periodicamente acompanhados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para aferir o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Vale dizer, uma fração equivalente a 1,6% dos produtos e serviços pesquisados foi responsável por 72,3% do IPCA observado no mês passado, que atingiu 0,82% e superou ligeiramente as estimativas que alimentavam as principais apostas do mercado financeiro. Mais precisamente, essa diferença ficou em 0,06 pontos percentuais, já que a mediana das previsões do setor sugeria uma variação de 0,76% – a taxa que fica exatamente a meio do caminho entre as projeções mais altas e aquelas mais baixas.
Os aumentos naquele grupo restrito composto pelos seis itens considerados aqui refletiram impactos sobre a produção causados por condições climáticas adversas, pressões altistas geradas pela guerra no Oriente Médio, com consequente aumento nos preços internacionais do petróleo e ainda, no caso da energia elétrica residencial, pela manutenção da bandeira tarifária amarela, que impõe um custo adicional de R$ 1,885 na conta de luz a cada 100 quilowatts consumidos. Conforme o IBGE, a taxa nesta área incorporou ainda reajustes tarifários de 6,63% em Belém (PA), em vigor deste 18 de setembro, de 5,42% em São Luís (MA) desde 28 de agosto e de 6,89% em Vitória (ES), a partir de 7 de agosto. Essas altas foram parcialmente contrabalançadas por reduções de 5,20% em Rio Branco (AC) e de 6,65% em Fortaleza (CE), cortes que passaram a vigorar em 26 de agosto.
Como se observa, os impactos tanto das altas quanto das quedas tendem a perder fôlego nas próximas semanas, já que as alterações ocorreram ao longo de agosto e considerando-se ainda a metodologia de cálculo do IPCA, que leva em conta a comparação entre médias de preços. Obviamente, a intensidade da desaceleração dependerá da ocorrência ou não de novos ajustes adiante e do peso das regiões em que a energia tenderá a sofrer novas correções. Como diriam os economistas, “tudo mais constante”, a perspectiva é de menor pressão inflacionária no setor ao longo de outubro.
Quase 40%
No mês passado, o aumento médio de 7,98% nas tarifas da energia elétrica nas residências respondeu por uma contribuição de quase 0,32 pontos na composição do IPCA, algo como 38,7% do índice mensal “cheio”. A disparada de 37,76% nos preços do tomate, que teve sua oferta reduzida sob impacto do clima desfavorável, com altas ainda de 9,66% nas passagens aéreas, de 24,07% para a batata inglesa (por conta de chuvas excessivas nas principais regiões produtoras) e de 10,14% nos preços da cebola (igualmente por questões climáticas), além da elevação de 1,21% nos preços da gasolina, trouxeram mais 0,27 pontos para a inflação de setembro, algo como pouco mais de um terço da taxa mensal. No conjunto desses seis itens, a contribuição ficou em praticamente 72,3% conforme já anotado acima.
Balanço
- Numa alternativa destinada a aferir como o restante dos preços tem se comportado, a exclusão daqueles itens traria o IPCA para 0,23% entre os dias 1º e 29 de setembro, o que se compara com um índice de 0,26% nas quatro semanas encerradas no dia 15 do mês passado. Vale dizer, observa-se certa moderação para todos os demais 371 preços de produtos e serviços pesquisados, o que não deixa de ser uma boa notícia.
- Conforme se pode notar a partir das pressões geradas pelos seis itens que mais puxaram o IPCA em setembro, as razões para aquelas altas não parecem nem de longe relacionadas a alguma tendência de aquecimento da demanda, mas estão largamente determinadas por questões climáticas e geopolíticas. Adicionalmente, com a exclusão daqueles itens, o que parece claro é que os aumentos concentrados naquele meia dúzia de itens não parecem estar se propagando pelo restante da economia.
- Assim, parece igualmente claro que a política monetária – quer dizer, os juros – seria inócua para fazer frente àquelas altas. Dito de outra forma, um arrocho ainda maior no lado dos juros, com novos aumentos da taxa básica, ajudaria a deprimir a atividade econômica, causando queda no emprego, demissões e alta do desemprego, mas com efeitos muito limitados e talvez nulos sobre aqueles focos inflacionários.
- As oscilações extremas no mercado internacional de petróleo certamente geram incertezas e levaram o Ministério da Fazenda a anunciar novos subsídios para tentar amortizar o impacto das altas nas cotações externas do barril do petróleo sobre os preços dos combustíveis, sobretudo da gasolina, do diesel e no botijão de gás (que havia recuado 0,23% nos 30 dias terminados em 15 de setembro e terminou o mês com elevação de 0,57% em média).
- O histórico recente mostra que o barril do petróleo tipo Brent, tipo de óleo mais leve, explorado no Mar do Norte e referência para dois terços do mercado global, chegou a experimentar um salto de 67,28% entre 26 de fevereiro, quando encontrava-se estacionado em US$ 70,75, e 3 de março, batendo em US$ 118,35 – nível, de resto, não repetido nas semanas seguintes. No primeiro dia de julho, a cotação havia despencado para US$ 71,57, num tombo de 39,53%.
- O pico seguinte foi registrado em 15 de setembro, com um recrudescimento do conflito Estados Unidos-Israel e Irã, fazendo o barril atingir US$ 108,75, num salto de 51,95% em relação à cotação registrada em 1º de julho. Seguiu-se nova fase de acomodação, o que derrubou o preço para US$ 97,09 por barril em 29 de setembro, em baixa de 10,72% em relação a meados daquele mês. Ontem, ao atingir US$ 104,42, registrou-se elevação de 7,55% em 10 dias.
- Neste cenário, a equipe econômica anunciou ontem, dia 9, a redução para zero nas alíquotas do PIS/Pasep, Cofins e Cide-Combustíveis para a gasolina, a vigorar ao longo dos próximos 30 dias. O subsídio para produtores de etanol foi elevado em 72% (de R$ 0,25 para R$ 0,43), com ampliação ainda da subvenção ao diesel importado de R$ 2,12 para R$ 3,52 por litro (mais 66%), também com duração de 30 dias. A equipe estima um custo de R$ 5,20 bilhões no período.
- Ao mesmo tempo, o governo decidiu abrir crédito extraordinário de R$ 7,52 bilhões para o Ministério de Minas e Energia, por meio da Medida Provisória 1.395, publicada também na sexta no Diário Oficial da União, segundo a Agência Brasil, para subvenção à produção e importação de combustíveis. Daquele total, em torno de R$ 6,17 bilhões irão para o diesel consumido por caminhões e R$ 1,37 bilhão vão financiar “ações relacionadas a outros derivados de petróleo”, cobrindo os subsídios planejados para os próximos 30 dias.
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