Inflação inicia ano com tendência de queda e fica abaixo do previsto
Às vésperas da primeira reunião do ano do Comitê de Política Monetária (Copom), iniciada ontem e com encerramento previsto para hoje, dia 28, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou a primeira leitura da inflação de janeiro. A medição considera o período entre 13 de dezembro do ano passado e 14 de janeiro deste ano. A variação média dos preços ao longo dessas quatro semanas trouxe surpresa positiva, já que as projeções mais recorrentes dos chamados agentes de mercado apontavam uma inflação levemente superior, entre 0,22% e 0,24% no intervalo analisado. Ainda assim, confirmou-se a expectativa de desaceleração, com o índice oficialmente divulgado ontem registrando alta de 0,20%, conforme o Índice de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) de janeiro.
De forma predominante, os mercados trabalham com a expectativa de que o Copom mantenha a taxa básica de juros em 15% ao ano, decisão que será anunciada ao fim do dia pelo comitê. No entanto, há correntes minoritárias que levantam a possibilidade de um primeiro corte nos juros desde o fim de março de 2024, quando a taxa básica foi reduzida de 11,25% para 10,75%. Posteriormente, o Copom promoveu mais um ajuste, levando os juros para 10,50% na primeira semana de maio, patamar mantido até a primeira quinzena de setembro. A partir desse período, o ciclo de alta foi retomado, culminando com a elevação da taxa para 15,0% na reunião encerrada em 18 de junho do ano passado.
Entre a primeira quinzena de fevereiro de 2024 e o fim de março, sempre considerando períodos quadrissemanais, a inflação recuou de 0,76% para 0,16%. Na sequência, houve uma elevação pontual, com o IPCA alcançando 0,46% em maio. Nos meses seguintes, o índice voltou a desacelerar, atingindo o menor nível do ano em agosto, quando chegou a registrar variação negativa de 0,02%. As altas observadas posteriormente foram impulsionadas principalmente pelos preços dos alimentos e pela energia mais cara, elevando a inflação para 0,62% nas quatro semanas encerradas em 14 de novembro, período em que os juros básicos já operavam na faixa de 11,25% ao ano.
O “inamovível”
O IPCA acumulado em 12 meses passou de 4,62% em 2023 para 4,83% no ano seguinte, superando o teto da meta inflacionária. Esse movimento reforçou as pressões para que o Copom promovesse um aperto monetário adicional, o que resultou na elevação da taxa básica para os 15% vigentes desde 18 de junho, conforme já mencionado. A inflação anual atingiu o pico naquele mês, chegando a 5,35%, mas voltou a recuar posteriormente, encerrando o ano em 4,26%. Mesmo diante desse cenário e de uma taxa de juros real próxima de 10,6% — considerando projeções de inflação em torno de 4,0% para este ano — o Copom optou por não flexibilizar a política monetária.
Balanço
Entre o encerramento de dezembro e as duas primeiras semanas de janeiro, a taxa mensal do IPCA caiu de 0,33% para 0,20%, influenciada sobretudo pelas despesas com transportes. O principal fator foi a queda de 8,92% nos preços das passagens aéreas, que haviam registrado alta de 12,61% em dezembro.
As pressões baixistas prevaleceram em cinco dos nove grupos de despesas que compõem o IPCA. O custo da habitação permaneceu em terreno negativo, embora com desaceleração no ritmo de queda, que passou de 0,33% em dezembro para 0,26% nas quatro semanas encerradas em 14 de janeiro, ainda refletindo a redução de 2,91% nas tarifas de energia residencial.
No grupo transportes, os preços haviam avançado 0,74% nas quatro semanas de dezembro e passaram a registrar recuo de 0,13% em janeiro. Desconsiderando o impacto das passagens aéreas, os demais itens do grupo apresentaram leve queda de 0,06%, após alta de 0,66% em dezembro. Os artigos para residência, que haviam subido 0,64% em dezembro, avançaram 0,43% em janeiro. Já o vestuário teve desaceleração, com a variação caindo de 0,45% para 0,28%. As despesas pessoais, que chegaram a registrar aumento de 0,36%, tiveram a taxa reduzida para 0,28%.
Segundo o IBGE, quatro itens responderam por pouco mais de 70% do IPCA-15 de janeiro: gasolina, taxa de água e esgoto, tomate e aluguel residencial. Em conjunto, esses produtos e serviços contribuíram com 0,14 ponto percentual da taxa geral de 0,20%. Excluídos esses itens, os demais preços apresentaram desaceleração, com a variação média recuando de 0,30% em dezembro para 0,06% na quadrissemana encerrada em 14 de janeiro.
Em uma possível leitura, os dados indicam que as pressões inflacionárias estiveram mais concentradas em itens específicos durante o período analisado, enquanto o restante dos preços mostrou comportamento mais favorável ao consumidor, aspecto que pode ser considerado pelo Copom no momento de definir os próximos passos da política monetária.
Isoladamente, a gasolina respondeu por cerca de um quarto da inflação do período, com alta de 1,01% até o fim da primeira quinzena do mês, acima da variação de 0,18% observada em dezembro. Os combustíveis, de modo geral, apresentaram aceleração na passagem de dezembro para janeiro, com a taxa mensal subindo de 0,45% para 1,25%, passando a representar 37,5% do IPCA-15.
Mesmo os custos dos serviços, que haviam avançado 0,72% em dezembro, registraram aumento de apenas 0,15% em janeiro. Para efeito de comparação, segundo dados trabalhados pela assessoria econômica do Itaú BBA, nas quatro semanas encerradas na primeira quinzena de janeiro do ano passado, a inflação desse segmento havia alcançado 0,85%.
Em outro exercício, utilizando a base de dados do IBGE, ao excluir do cálculo do IPCA os grupos de alimentos e bebidas, combustíveis, energia elétrica e passagens aéreas, os preços dos demais produtos apresentaram variação semelhante à observada em dezembro, em torno de 0,26%, com leve recuo para 0,25% em janeiro. Desse total, aproximadamente 24% podem ser atribuídos aos aluguéis e à taxa de água e esgoto.