Inflação oficial segue em escalada e dólar desaba em meio a turbulências

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 24 de fevereiro de 2022

Num mundo mais uma vez em turbulência, fomentada especialmente pela retórica beligerante e nitidamente fora do tom de um governo já enfraquecido no início de seu segundo ano de mandato, nos Estados Unidos, o dólar entrou em baixa neste mês aqui dentro e a inflação manteve sua escalada, indicando que os juros continuarão subindo. Ainda que essa alta venha a trazer muito mais complicações do que soluções num período já tenso e de dificuldades de sobra na área econômica.

Começando pela inflação, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) de fevereiro, medido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) entre os dias 14 de janeiro e 11 de fevereiro deste ano (e comparado às quatro semanas imediatamente anteriores), atingiu 0,99% – a maior taxa desde fevereiro de 2016, quando o índice havia alcançado 1,42%. O resultado superou as apostas dos mercados, que trabalhavam com uma inflação entre 0,77% e 0,96% para o período, e ficou acima do IPCA de janeiro (0,54%), batendo também o IPCA-15 daquele mês (0,58%). A desaceleração antecipada em janeiro ganhou o formato de uma forte aceleração agora nas duas primeiras semanas de fevereiro.

Nem mesmo a queda das tarifas de energia elétrica e a estabilidade virtual nos preços dos combustíveis, cumprindo o que já antecipavam os índices inflacionários entre o final de 2021 e o começo deste ano, foram suficientes para frear a alta. Vale lembrar, aqui, que as passagens aéreas passaram a cair em pleno verão, sinalizando que os negócios não devem estar assim tão aquecidos no setor. Praticamente 77,7% do IPCA-15 deste mês podem ser explicados por 15 grupos e itens, incluindo legumes, hortaliças e frutas (influenciados pelas chuvas torrenciais das últimas semanas), carnes, cursos regulares, automóveis novos e usados, motocicletas, eletrodomésticos, mobiliário, aluguel, condomínio, café moído, energia e passagens aéreas.

Pressões

Desagregando um pouco mais aqueles grupos e itens, o aumento nas matrículas e mensalidades nos cursos regulares respondeu por 28,4% do IPCA-15 de fevereiro, com alta de 6,69% em quatro semanas. A alta nos preços de automóveis (novos e usados) e motos, por sua vez, teve participação de 13,7%. Apenas esse conjunto de itens contribuiu, tudo somado, com 42,1% da inflação do período. Carnes, frutas, legumes e hortaliças, considerados em conjunto, entraram com 15,2%. Energia e passagens aéreas puxaram o índice para baixo, com quedas de 0,82% e de 5,05% respectivamente. A influência desses dos itens sobre o índice geral foi de -0,07% (quer dizer, se os preços da energia e das passagens tivessem se mantido neste mês, o IPCA-15 teria batido em 1,06%).

Balanço

  • A perspectiva de alguma acomodação ou mesmo recuo do IPCA nas próximas semanas ainda não pode ser descartada, especialmente quando se considera o comportamento recente do Índice de Preços ao Consumidor Semanal (IPC-S) da Fundação Getúlio Vargas (FGV). A metodologia e os períodos de coleta de preços diferem daqueles adotados pelo IBGE, assim como os resultados. Mas o IPC-S sinaliza alguma redução desde a primeira semana deste mês (lembrando que as taxas aferidas cobrem quatro semanas comparadas com igual período imediatamente anterior).
  • O índice da FGV saiu de 0,49% nas quatro semanas terminadas no dia 7 de fevereiro para 0,40% nos 30 dias finalizados no dia 15, recuando para 0,33% na medição mais recente (finalizada em 22 de fevereiro).
  • Enquanto a inflação continuava em escalada, a cotação do dólar aqui dentro (e também em outros mercados emergentes) sofria baixas. Ontem, na média apurada pelo Banco Central (BC), o dólar fechou em R$ 5,01 o que significou uma queda de 6,4% em relação ao último dia de janeiro e um tombo de 10,14% frente a 31 de dezembro (quando havia anotado R$ 5,58).
  • A valorização das commodities agrícolas e minerais (minério de ferro, principalmente) ajuda a valorizar o real, mas isso não parece explica tudo – até porque, as commodities já vinham em alta desde o segundo semestre de 2020 e o dólar continuava subindo aceleradamente, num momento em que não havia ainda a ameaça de um conflito entre Rússia e Ucrânia, açulado pela atitude assumida por Joe Biden desde o começo.
  • Outra parte da explicação está nas jogadas especulativas envolvendo capitais estrangeiros e as taxas de juros no Brasil, que subiram fortemente e tendem a continuar em alta, depois de alcançar 10,75% até o momento. Como os juros lá fora continuam pouco acima de zero nas principais economias desenvolvidas, as taxas cobradas aqui dentro oferecem oportunidades de “negócios” e, claro lucros generosos para os chamados “dólares andorinha” – movimentados por especuladores globais em busca de ganhos fáceis ao redor do planeta.
  • O mercado e seus operadores desenvolveram agora uma nova “explicação”. Nesta visão, o dólar estaria em queda em função de uma “rotação de carteiras”. Em grandes linhas, investidores estariam migrando suas aplicações de ações que parecem prometer crescimento constante do retorno esperado para ações “de valor”, que oferecem potencial para aumentar os ganhos dos investidores, mas estariam hoje “subavaliadas”. Em bom português, esses investidores estão vendendo ações que subiram muito e, portanto, estariam “caras” e agora tenderiam a perder valor, e comprando ações baratas e que teriam potencial para subir ainda. O bom e velho “venda na alta e compre na baixa”, que sempre atinge os mais incautos, deixando esse tipo de investidor com o mico.
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