Inflação volta a sinalizar alta e deve “surpreender” em junho

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 21 de junho de 2022

A redução das tarifas de energia desde o fim da bandeira tarifária de escassez hídrica, em 16 de abril, trouxe impactos limitados e passageiros sobre as taxas de inflação. A “deflação” (queda nos preços médios pagos em geral pelo consumidor) inicialmente esperada não se verificou e, desde o começo de junho, os índices inflacionários acompanhados pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV) retomaram a tendência de alta. Ainda que alguns fatores isolados tenham influenciado a elevação agora observada, a exemplo das tarifas das passagens aéreas, as pressões inflacionárias não cederam como se esperava.

A tendência antecipada pelo Índice de Preços ao Consumidor Semanal (IPC-S), do Ibre/FGV, sugere que a inflação tenderá a surpreender negativamente ao longo de junho, frustrando as expectativas dos mercados mais uma vez. As previsões mais recentes vinham girando ao redor de uma taxa de 0,70% para junho, considerando a variação esperada para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O IPC-S, no entanto, veio numa faixa bem mais elevada a se considerar a medição feita entre os dias 16 de maio e 15 de junho, apontando variação de 0,91%. Nas quatro semanas encerradas no dia 7 deste mês, o IPC-S havia registrado variação de 0,79%, saindo de 0,50% nos 30 dias de maio. Ou seja, no curto espaço de duas semanas, o índice registrou elevação correspondente a 0,41 pontos.

Para comparação, o IPC-S havia anotado variação de 0,41% nas quatro semanas encerradas no dia 15 de maio, ou seja, um mês depois de revisada a bandeira tarifária. Os efeitos do menor custo de energia sobre o indicador ainda puderam ser percebidos na primeira quadrissemana de junho, quando a tarifa havia sofrido baixa de 4,99%. Na medição da semana seguinte, cobrindo, na verdade, um intervalo também de 30 dias, a redução ficou limitada a 0,15% e, daqui em diante, a energia tenderá a exercer alguma pressão de alta sobre o índice, considerando os reajustes regulares da tarifa de energia sancionados pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) em favor das distribuidoras.

Fim do efeito tarifário

O leve recuo das tarifas da energia residencial na primeira quinzena de junho (sempre considerando períodos quadrissemanais) não foi suficiente para evitar um avanço mais vigoroso das despesas com habitação naquele período. Para comparar, os preços médios do grupo habitação haviam baixado 2,98% nas quatro semanas encerradas em 15 de maio, mas fecharam o mês passado com redução média de 1,37% e avançaram 0,79% nos 30 dias terminados em 15 de junho. A antecipação da mudança da bandeira tarifária de 30 de abril para o dia 16 do mesmo mês não surtiu os efeitos esperados pela equipe econômica e pelo desgoverno de Brasília, vale dizer, as pressões altistas continuam a estimular os índices de desaprovação do governo.

Balanço

  • Além da habitação, as despesas com vestuário subiram 1,94% até 15 de junho, entrando igualmente em aceleração depois do avanço de 1,21% registrado em maio. Os preços dos alimentos, embora tenham experimentado modesto recuo, passando de uma variação de 0,73% até a quadrissemana terminada em 7 de junho para 0,70% no dia 15, mantêm-se acima dos níveis observados no final de maio (0,45%).
  • As pressões observadas naqueles setores contribuíram para virtualmente anular o efeito baixista proporcionado pela variação menos intensa nos preços do grupo transportes, que saíram de 1,02% em maio para 0,30% nos 30 dias finalizados em 15 de junho, especialmente por conta do etano, que acumulou redução de 4,87% naquele último período. Os novos aumentos do diesel e da gasolina, além de influírem nos preços do etanol, principal “concorrente” do seu equivalente fóssil, deverão ajudar a reverter aquela tendência nas próximas semanas.
  • Sob efeito da alta de 15,90% nos preços das passagens aéreas, o grupo educação e recreação apresentou elevação de 3,44% em quatro semanas até 15 de junho, ligeiramente acima dos 3,12% observados nos 30 dias de maio. O item tem apresentado volatilidade relativa nos últimos meses, principalmente por conta das oscilações nos preços das passagens. Até 15 de maio, por exemplo, a alta nas despesas nesta área havia sido de 3,75%. A redução apontada para as semanas anteriores foi revertida desde o começo deste mês. E pode registrar nova reviravolta diante de promoções eventuais realizadas pelas companhias aéreas.
  • Os modelos frequentemente adotados pelo mercado financeiro em suas projeções macroeconômicas sugerem que a alta da taxa de juros tende a afetar a atividade econômica com uma defasagem em torno de 12 meses. Quer dizer, o custo mais salgado do crédito, deliberado pelo Banco Central (BC), passaria a pressionar os negócios para baixo um ano após a elevação dos juros básicos, fazendo a inflação, teoricamente, desacelerar. O movimento de alta dos juros foi retomado pelo BC no começo da segunda quinzena de março do ano passado e, desde então, a taxa saltou de 2,0% para 13,25% ao ano, num salto de 11,25 pontos de porcentagem.
  • Praticamente dois terços desse aumento ocorreram entre outubro do ano passado e junho deste ano, com elevação de sete pontos nos juros básicos – o que significa dizer, dando crédito aos modelos econométricos do mercado, que o impacto maior sobre o Produto Interno Bruto (PIB) tenderia a ser registrado a partir de algum momento na segunda metade deste ano. Isso explicaria porque os mercados estariam bem menos otimistas com o que deverá ocorrer com a economia no próximo semestre, com o setor antecipando números muito mais modestos para o terceiro e o quarto trimestres deste ano.
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