Instituto internacional alerta para risco elevado de recessão global

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 13 de maio de 2022

Desde que o Instituto de Finanças Internacionais (IIF, na sigla em inglês) alterou suas projeções para a economia da Zona do Euro há aproximadamente dois meses, passando a antecipar o risco de uma recessão na região, o cenário global tornou-se mais desafiador, na visão do próprio instituto, acompanhando uma piora nas perspectivas em função de uma deterioração mais severa dos fundamentos econômicos. As expectativas, até ali, já sugeriam que a guerra entre Rússia e Ucrânia desempenharia papel central no aumento das incertezas, com impactos mais evidentes para as empresas e suas decisões de investimento, assim como sobre os gastos do consumidor, o que já contribuiria para emperrar as possibilidades de crescimento econômico.

O que mudou no cenário global desde então? Na visão do IIF, alguns fatores mais recentes têm contribuído de forma combinada para o agravamento do cenário econômico, a começar pelo novo salto no número de casos de covid-19 na China, causada pela variedade ômicron do Sars-CoV-2. A chamada “onda ômicron”, diz o instituto, “mostrou-se mais disruptiva do que havíamos antecipado e – na nossa estimativa – terá um impacto substancial no crescimento”.

De outro lado, as condições financeiras nos Estados Unidos têm se tornado mais “apertadas”, embora de forma desordenada, ainda na avaliação do IIF, com alta das taxas de juros de longo prazo, comparáveis aos níveis registrados em 2013, o que afeta especialmente o custo do investimento, desestimulando decisões nesta área. A elevação dos juros no mercado norte-americano e a severidade da nova onda de Convid-19 na China somam-se aos efeitos já antecipados e em franca confirmação do conflito no leste da Europa.

A combinação daqueles fatores torna mais próximo o risco de recessão, o que levou o instituto a rebaixar significativamente suas previsões para a economia, considerando uma tendência de “achatamento” dataxa de variação antecipada para o Produto Interno Bruto (PIB) global. “Isso deixa pouco espaço para evitar uma contração do PIB. O risco de recessão é elevado”. A se confirmarem as projeções mais recentes do IIF, as dificuldades para uma retomada do crescimento no Brasil tendem igualmente a minguarem, reforçando a tendência de baixo investimento, desemprego elevado, perda de renda e crescimento apenas modesto.

Queda no segundo semestre

Como consequência, o IIF de fato revisou drasticamente sua projeção para a economia na Zona do Euro, saindo de um crescimento de 3,0% ao longo de 2022 para uma variação de 1,0%. Por um efeito meramente estatístico, caso a economia global não avance um milímetro neste ano, o PIB já tenderia a registrar variação muito próxima a 1,9%, empurrado pelo aumento registrado especialmente no trimestre final de 2021. A taxa de crescimento antecipada agora pelo instituto, ao redor de 1,0%, significaria, portanto, algum nível de redução da atividade ao longo dos 12 meses deste ano. Conforme o instituto, essa previsão “antecipa uma queda do PIB na segunda metade deste ano”.

Balanço

  • A queda acentuada das expectativas, conforme levantamentos recentes, parece “infelizmente” sugerir uma deterioração da economia na Zona do Euro, “em linha com nossa visão”, reforça o instituto. Na China, de novo na visão do IIF, há sinais de uma contração do PIB no segundo trimestre como consequência das medidas mais severas de isolamento social.
  • As previsões do IIF têm se mostrado mais pessimistas do que as de outras instituições multilaterais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI). O instituto antecipa uma variação de 2,2% para o PIB global neste ano, saindo de uma alta de 6,0% no ano passado. Na média, as demais previsões indicam um crescimento próximo a 3,6%. Segundo a previsão do Instituto de Finanças Internacionais, praticamente não haveria crescimento neste ano, já que o avanço do PIB em 2021 deixou uma “sobra estatística” (ou carry-over, como dizem os economistas) de 2,3% para 2022. Traduzindo: a economia mundial tenderia a avançar em torno daqueles mesmos 2,3% ainda que não se registrasse qualquer variação neste ano.
  • As previsões do IIF para a Rússia indicam um tombo de 15,0%, mais severo do que a redução entre 8,5% e 10,3% esperada por outros organismos internacionais, que apostam ainda em incremento ao redor de 4,4% a 4,9% para a China. Neste caso, o instituto trabalha com uma projeção de 3,5%. No caso brasileiro, a previsão do IIF gira em torno de 1,3%, um tanto mais otimista do que a expectativa do mercado financeiro aqui dentro, que aposta num avanço de apenas 0,7%.
  • De toda forma, a projeção do IIF para o PIB brasileiro, caso confirmada, significaria um crescimento abaixo da média esperada para a América Latina, próxima de 2,1% – lembrando que a região apresentou crescimento de 6,0% no ano passado, mais uma vez acima do desempenho brasileiro (4,6%).
  • Ontem também, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) liberou os dados da mais recente pesquisa sobre serviços, mostrando variação de 1,7% na passagem de fevereiro para março deste ano em todo o País e elevação de 3,2% em Goiás na mesma comparação. Frente a março do ano passado, os serviços apresentaram alta de 11,4% na média brasileira e crescimento de 9,3% em Goiás. Nos dois casos, a normalização da circulação de pessoas, com o avanço da campanha de vacinação, estimulou o salto nos serviços prestados às famílias, que aumentaram 62,2% em todo o País e 67,2% no Estado, frente a março do ano passado.
  • Depois de enfrentar meses de muita fragilidade, os resultados de março, na visão do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), sugerem “um ganho de tração do setor”. Alguns segmentos cresceram impulsionados pela baixa base de comparação e “ainda têm muito o que avançar para compensar as perdas durante a pandemia”, aponta o Iedi.
  • Na média do setor em todo o País, no entanto, o nível de atividade superou em 7,2% o resultado de fevereiro de 2020, antes da pandemia. Em Goiás, o crescimento chegou a 14,4%. Tomando o melhor momento capturado para os serviços pelo IBGE, persistia ainda recuo de 4,0% no País como um todo (frente a novembro de 2014) e um tombo de 13,8% em Goiás (diante de fevereiro de 2014).
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