Investimentos em biomassa oscilam, o que traz dificuldade para toda cadeia

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 31 de maio de 2024

O investimento na expansão da geração de energia a partir de biomassa tem oscilado ano a ano, demonstrando uma descontinuidade que afeta toda a cadeia industrial. O setor não conseguiu mais repetir o recorde de 2010, quando aportou 1.750 MW novos ao sistema, respondendo por 28,6% do avanço da capacidade total de geração de eletricidade no período. O acréscimo de capacidade bateu no fundo do poço em 2018, com aumento de apenas 141 MW ou menos de 2,0% do crescimento geral. Há dois anos, a geração de energia da biomassa incorporou 905 MW adicionais, volume reduzido para 223 MW em 2023. Para 2025, registra Zilmar José de Souza, gerente de bioeletricidade da União da Indústria de Cana de Açúcar e Bioenergia (Unica), a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) estima a entrada em operação de apenas 240 MW, perto de 2,20% do aumento total de capacidade esperado para o próximo ano, em torno de 10.928 MW, considerando todo o setor elétrico. A se confirmar a previsão, o investimento em capacidade nova despencaria para R$ 1,44 bilhão, perto de um quinto do valor projetado para este ano, em torno de R$ 7,0 bilhões.

“O ideal seria que houvesse uma continuidade, com investimentos mais regulares em geração, o que seria benéfico para toda a cadeia de bens de capital associada ao setor de biomassa, favorecendo centros de excelência industrial nas regiões de Jundiaí, Piracicaba e Sertãozinho”, defende Souza. Num ambiente ainda de predominância da sobrecontratação de energia pelas distribuidoras, observa Newton Duarte, presidente executivo da Associação da Indústria de Cogeração de Energia (Cogen), “não há a expectativa de novos leilões no mercado regulado que possam proporcionar a instalação de novos projetos de biomassa”.

Sem “porta de saída”

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Neste ano, até o momento, está prevista a realização de apenas um leilão de reserva de capacidade, inicialmente em agosto, mas que não contempla a biomassa e foi desenhado especificamente para contratação de térmicas convencionais, movidas a combustíveis fósseis, e hidroelétricas. A proposta, na visão de Souza, é mitigar os riscos de fontes intermitentes, a exemplo da eólica e solar fotovoltaica. “A porta de saída para a biomassa eram os leilões de energia nova, com contratos de longo prazo e correção com base no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA)”, observa Souza. Ele defende a formatação de leilões específicos para o setor, que levem em conta a sustentabilidade e a oferta de energia firme asseguradas pela biomassa, e sua proximidade dos centros de carga, o que reduz perdas e posterga investimentos em transmissão.

Balanço

  • Na avaliação de Duarte, a perspectiva de novos produtos, a exemplo de projetos nas áreas de biogás e biometano, do etanol de segunda geração, do combustível sustentável de aviação (SAF) e do hidrogênio verde, “deverá fortalecer a indústria de cogeração na medida da necessidade de uma maior autoprodução, diante do incremento do consumo próprio de energia”. Adicionalmente, num fator mais conjuntural, as “excelentes perspectivas” no mercado global de açúcar igualmente tendem a estimular projetos de modernização de destilarias, reforçando a cogeração.
  • Duarte antecipa ainda possibilidades promissoras para a indústria de papel e celulose, considerando “não só a contínua ampliação dos fabricantes brasileiros, como o fato de o país vir atraindo players estrangeiros”. Com 3,4 gigawatts de potência instalada no setor, acrescenta Duarte, “há a perspectiva de contínuo crescimento desta indústria com vários projetos em implantação atualmente, todos fazendo uso de turbo-geradores acima de 100 MW cada”.
  • Os avanços recentes da geração de energia da biomassa, anota Yuri Schmitke, presidente da Associação Brasileira de Recuperação Energética de Resíduos (Abren), vieram impulsionados “pela maior eficiência das tecnologias de conversão e pelo interesse crescente em alternativas renováveis e sustentáveis”, mas regista uma “grande área ainda inexplorada”, referindo-se ao biogás e ao biometano.
  • “O Brasil tem um potencial teórico para atender 40% da demanda elétrica nacional ou 70% do consumo de diesel do país. No entanto, a produção brasileira de no país estava abaixo de 2,3 bilhões m3 em 2021, cerca de 3% daquele potencial”, comenta Schmitke. O relatório mais recente da International Energy Agency (IEA), de 2023, prossegue ele, “prevê que o Brasil irá quadruplicar a produção do biometano até 2027, chegando em uma média de 2 milhões de m3 por dia e se tornando o maior produtor do mundo”.
  • Há de fato uma grande movimentação no setor de biomassa num momento em a transição energética passa a ocupar maior espaço na agenda nacional, pontua Paulo Dantas, sócio do escritório Castro Barros Advogados, e mais especificamente diante da perspectiva de aprovação do marco legal do hidrogênio verde, que demandará energia em volumes crescentes para alimentar os processos de hidrólise. “O que tem barrado um pouco os projetos de biomassa é a capacidade de o sistema absorver essa energia excedente, o que exigirá investimentos em infraestrutura de transmissão e distribuição”, pondera Dantas.
  • A venda de energia para o sistema integrado nacional pelo setor de biomassa experimentou crescimento de 10,1% entre 2022 e 2023, avançando de 25.553 para 28.137 gigawatts/hora, representando 4,6% da eletricidade consumida no país. As usinas de cana responderam pela oferta de 74,5% daquela energia, somando 20.973 GWh, em alta de 14,0% frente a 2022. Em grande medida, considerando que o crescimento em capacidade nova foi muito reduzido, o incremento da cogeração da cana veio na esteira de um salto de 19,3% na moagem registrada pela Unica na região Centro-Sul, que saiu de 548,63 milhões para 654,43 milhões de toneladas entre as safras 2022/23 e 2023/24, alcançando novo recorde no setor.
  • Apenas a cogeração a partir do bagaço e da palha de cana, estima a entidade, evitou emissões de CO2 próximas a 4,3 milhões de toneladas, equivalente ao cultivo de 30,0 milhões de árvores nativas ao longo de duas décadas.