sábado, 21 de março de 2026

Juros altos e inadimplência causam deterioração do mercado de crédito

Lauro Veiga Filhopor Lauro Veiga Filho em 21 de março de 2026

As condições de financiamento do setor privado no País sofreram deterioração relevante no ano passado, “na esteira da elevação da taxa básica de juros”, aponta o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) no texto “Juros altos e restrições ao financiamento corporativo em 2025”, divulgado na sexta-feira, 13. Como se recorda, os juros básicos haviam saltado de 10,50% para 15,0% entre 18 de setembro de 2024 e 18 de junho do ano seguinte, mantendo-se neste mesmo nível até quarta-feira passada, dia 18, quando registrou leve redução para 14,75%.

Conforme o estudo, os empréstimos novos contratados ano passado, ou seja, as concessões de crédito realizadas pelo sistema financeiro nacional indicaram desaceleração relativamente acentuada na passagem de 2024 para 2025, saindo de uma alta de 15,4% para um incremento de 9,2% em termos reais, quer dizer, já descontada a inflação. Na visão do instituto, o desaquecimento esteve condicionado “por aquela fração denominada ‘operações livres’ pelo Banco Central (BC), que reagem mais diretamente às mudanças na condução da política monetária” – vale dizer, a movimentos de queda ou de alta dos juros básicos, o que acaba determinando o custo do crédito para empresas e para as famílias no mercado financeiro.

Num acréscimo aos fatores que levaram àquele desaquecimento, o Iedi ainda considera “a piora das expectativas associada ao aumento de tarifas comerciais pelo governo Trump; a inadimplência em elevação, sobretudo das famílias e de empresas de menor porte; e o endividamento das famílias em patamar historicamente alto”. Para completar o quadro, ainda de acordo com o instituto, a atividade econômica mais debilitada igualmente influiu para arrefecer a demanda por crédito na economia.

Maior impacto

Sempre de acordo com o Iedi, as maiores restrições atingiram o financiamento corporativo, não apenas por conta da desaceleração nas concessões de crédito bancário, mas ainda porque a captação de recursos por meio de emissões de títulos pelas empresas “chegaram a apresentar sinal negativo em 2025”. A tendência de baixo crescimento foi suavizada pelo desempenho do chamado crédito direcionado, “mas só parcialmente dado que representou somente 8% do financiamento novo total”, quando incluídas as emissões de títulos na conta. Tomando exclusivamente as operações realizadas no âmbito do sistema bancário, o crédito direcionado anotou participação de 9,92% sobre o total dos novos empréstimos.

Balanço

O mercado de títulos tem ganhado maior relevância na estratégia de captação de recursos das empresas diante dos custos muito mais salgados no segmento de empréstimos e financiamentos bancários. No segmento de crédito livre, por exemplo, os juros cobrados das empresas avançaram de 21,7% ao ano no final de 2024 para 25,2% em janeiro deste ano. O encarecimento do crédito, portanto, tem levado um número crescente de empresas, em geral de maior porte, a buscar o mercado de capitais como opção de financiamento comparativamente mais barata.

O estoque de títulos privados emitidos no mercado brasileiro diretamente pelas empresas ou securitizados (a exemplo de certificados de recebíveis), lembra o Iedi, “saltou de 22,5% para 100,3% entre 2015 e 2025, como proporção do crédito bancário corporativo”, segundo dados do BC.

No ano passado, na comparação com 2024, no entanto, o cenário mais desafiador para esse tipo de operação levou a um recuo de 0,75% no total de emissões de novos títulos pelas empresas. “A queda veio das emissões de títulos de dívida direta após a exuberância de 2024, enquanto os instrumentos securitizados ainda apresentaram crescimento positivo, com destaque para os certificados de recebíveis (CR), cuja emissão mais do que triplicou”, anota ainda o trabalho assinado pelo Iedi.

Como resultado, na soma de concessões de crédito bancário e emissões de títulos, “o financiamento novo às empresas em 2025 totalizou R$ 4,3 trilhões em termos reais, com crescimento de 7,0% frente ao ano anterior”. Para comparação, em 2024, aquelas operações haviam anotado um salto de 25% frente ao ano imediatamente anterior, seguido de uma desaceleração importante ao longo do ano passado.

Levando em conta apenas o crédito bancário, prossegue o Iedi, se o ritmo de crescimento das concessões totais acumuladas no ano passado experimentou redução de 6,2 pontos percentuais, saindo de 15,4% em 2024 para 9,2%, conforme anotado mais acima, as concessões para as empresas refluíram 8,1 pontos percentuais. Neste caso, a expansão de 17,6% observada em 2024 cedeu espaço para uma variação de 9,5% no ano passado. A perda de ritmo mostrou-se ainda mais intensa quando se considera o desempenho bem mais modesto no quarto trimestre de 2025, numa variação de 5,5% frente ao mesmo período do ano anterior.

“Na origem desta desaceleração está o crédito livre, cujas concessões representam 90% do crédito bancário total às empresas”, anota o instituto. No ano passado, o crédito livre destinado às empresas avançou 7,3% diante de uma alta de 18,1% em 2024. A desaceleração tornou-se “mais impressionante”, na expressão escolhida pelo instituto, no trimestre final do ano passado, quando houve uma variação de apenas 1,0% em relação aos três meses finais de 2024.

As concessões de novos empréstimos com recursos das linhas oficiais, também denominados de crédito direcionado, na série de dados do BC, cresceram 9,4% em 2025 e 9,0% um ano antes, “com notável aceleração nas operações junto a empresas”. O crédito direcionado contratado pelo setor corporativo mais do que dobrou entre 2024 e 2025, saltando de 12,7% para 34,1%. Ao contrário do observado no segmento livre, os juros do crédito direcionado subiram em menor intensidade, saindo de 7,0% para 7,6% ao ano – de todo modo, níveis quase dois terços inferiores aos juros cobrados nas operações de crédito livre.

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