Juros drenaram um terço de todas as riquezas geradas pelo País em 2025
Apenas no ano passado, as despesas com pagamento de juros em toda a economia teriam drenado algo como 33,59% do Produto Interno Bruto (PIB).
O rentismo que passou a imperar no Brasil a partir dos anos 1980 continua gerando danos até aqui insanáveis à economia, diante da teimosia e falta de visão estratégica de governos que têm se submetido, década após década, aos ditames do setor financeiro nacional. A predominância da agenda neoliberal, que escolheu uma agenda de políticas construídas especialmente para favorecer os donos do dinheiro no País, a começar pela política destrutiva de juros superelevados, tem drenado recursos do lado real da economia, direcionando-os para a parcela mais rica da população, o que ajuda a explicar porque a fatia de 1,0% entre os mais ricos concentraram 37,3% da renda total e recebem rendimentos anuais 40 vezes mais elevados do que a renda média dos 40% mais pobres.
Apenas no ano passado, as despesas com pagamento de juros em toda a economia teriam drenado algo como 33,59% do Produto Interno Bruto (PIB), ao alcançar qualquer coisa muito próxima de R$ 4,278 trilhões, numa estimativa elaborada pela coluna com base em dados do Banco Central (BC).
A enorme iniquidade é agravada pela baixa tributação dos rendimentos dos muito ricos, já que uma parcela relevante daqueles ganhos é isenta de impostos, o que faz a alíquota efetiva do Imposto de Renda limitar-se a 4,67% para aquela fatia da população posicionada entre o 0,01% de maior renda, algo como R$ 2,57 milhões por mês, enquanto trabalhadores com ganhos de R$ 7,35 mil mensais estarão sujeitos neste ano a uma alíquota próxima de 11,55%. Embora aqueles muito ricos ganhem 350 vezes mais, pagam 60% menos IR, proporcionalmente.
É evidente que a concentração excessiva da renda cria dificuldades para que a economia cresça de forma equilibrada, mais justa e autônoma, com investimentos mais relevantes em todos os níveis. Mas as políticas tributária e monetária (que determina o tamanho dos juros no País) não podem ser vistas como uma “distorção”, no sentido de que, na verdade, correspondem a um projeto executado pelo governo, mas engendrado nas entranhas do sistema rentista em vigor.
Endividamento recorde
Ao longo do ano passado, a manutenção persistente da taxa básica de juros em 15% ano manteve os custos financeiros impostos às famílias e empresas e ainda ao setor público em geral em níveis históricos, drenando recursos do lado real da economia, inibindo investimentos e causando um novo ciclo de endividamento, especialmente para as famílias. As estatísticas mais recentes do BC mostram que o crédito ampliado contratado pelas famílias atingiu no ano passado seu nível mais elevado na série iniciada em 2013, passando a corresponder a 37,52% do PIB, diante de 36,24% em 2024.
Balanço
No setor corporativo, o crédito ampliado recuou levemente de 56,95% para 55,11%, mantendo-se ainda em níveis historicamente elevados. O setor público como um todo gastou o equivalente a 8,37% do PIB apenas para fazer frente aos juros sobre suas dívidas, saindo de 7,91% em 2024 e alcançando a maior relação desde 2015, quando as despesas com juros haviam representado 8,37% do total de riquezas.
Em valores correntes, as dívidas das famílias, incluindo operações de crédito contratadas ao setor financeiro nacional e outras formas de empréstimo, títulos de dívida e crédito tomado no exterior, saíram de R$ 3,789 trilhões para quase R$ 4,270 trilhões entre 2024 e 2025, crescendo 11,90%. O crédito amplo para as famílias tem avançado a taxas de dois dígitos desde 2019, acumulando alta de 140,10% em relação a 2018, quando havia somado alguma coisa abaixo de R$ 1,990 trilhão, aproximando-se de 28,41% do PIB.
As empresas levantaram no mercado, considerando praticamente o mesmo conceito, créditos ao redor de R$ 7,018 trilhões no ano passado, numa variação de 4,61% frente a R$ 6,708 trilhões em 2024. Na comparação com R$ 3,221 trilhões contratados em 2018, registrou-se um salto nominal de 117,86%. Naquele ano, o crédito amplo destinado ao setor corporativo correspondeu a 45,99% do PIB.
Com base naqueles dados e considerando a taxa de juros anual média paga pelas empresas e pessoas físicas ao sistema financeiro como uma aproximação do custo financeiro o crédito ampliado, seria possível estimar o tamanho do constrangimento imposto àqueles dois setores pelos juros extorsivos cobrados no Brasil. Para completar a conta, as estatísticas fiscais do BC informam o tamanho dos gastos com juros realizados pelo setor público como um todo, incluindo as contas dos governos estaduais, municipais e federal, além de suas estatais.
No caso das famílias, as despesas estimadas com juros teriam avançado de R$ 569,12 bilhões em 2018, perto de 8,12% do PIB, para R$ 1,796 trilhão no ano passado, correspondendo a 14,11% do produto estimado para aquele ano pelo BC. Nessa comparação, registrou-se um salto de 215,65%, com elevação ainda de 27,12% frente a 2024, saindo de R$ 1,413 trilhão. Os juros consumiram R$ 1,474 trilhão no ano passado, aproximadamente 11,57% do PIB e em torno de 15,63% mais do que a despesa de R$ 1,275 trilhão realizada e 2024 (qualquer coisa ao redor de 10,82% do produto). Desde 2018, quando haviam somado R$ 479,983 bilhões (6,85% do PIB), os juros pagos pelas empresas subiram 207,05%.
No setor público, os gastos com juros cresceram 6,01%, saindo de R$ 950,423 bilhões para R$ 1,008 trilhão, mas recuando de 8,07% para 7,91% do PIB. Comparado aos R$ 379,184 bilhões gastos em 2018, perto de 5,41% do produto, esse tipo de despesa aumentou 165,70%.
Na soma dos três setores, os juros saíram de R$ 1,428 trilhão em 2018 para R$ 4,278 trilhões, saltando de 20,39% para 33,59% do PIB, o que correspondeu a um incremento nominal de 199,50% (em torno de R$ 2,849 trilhões a mais). Em relação aos gastos de R$ 1,275 trilhão registrados em 2024 (equivalentes a 10,82% do PIB), houve um avanço de 17,58%.
Numa comparação adicional, o valor nominal do PIB experimentou elevação de 81,80% entre 2018 e 2025, passando de R$ 7,004 trilhões para R$ 12,734 trilhões. No período, a economia gerou uma riqueza adicional de R$ 5,729 trilhões. O aumento nos gastos com juros em toda a economia, portanto, correspondeu a 49,73% do ganho acumulado pelo PIB. As despesas com juros consideradas aqui correspondem aos valores brutos desembolsados, sem descontar receitas financeiras originadas por aplicações em títulos públicos e privados e outros rendimentos de caráter igualmente financeiro, no caso de empresas e das famílias. (Especial para O HOJE)