sábado, 29 de agosto de 2026

Juros e amortizações consomem quase 97% da renda adicional das famílias

Lauro Veiga Filhopor em
Juros e amortizações consomem quase 97% da renda adicional das famílias
Foto: Marcello Casal Jr./ABr

A parcela da renda das famílias comprometida com o pagamento de juros e amortizações alcançou em junho deste ano seu percentual mais elevado na série histórica do Banco Central (BC), iniciada em 2011, passando a responder por 28,9% do ganho familiar total. No mesmo mês do ano passado, aquela fatia havia atingido 27,2% depois de ter registrado 19,8% em agosto de 2020 em plena pandemia, período em que vigorou uma espécie de “moratória branca” adotada pelos credores. Ainda assim, nos meses subsequentes, a pandemia acabou gerando distorções em toda as áreas da vida econômica no Brasil e no mundo, afetando também o mercado de crédito. O avanço das contratações de novos empréstimos pelas famílias e ainda a escalada das taxas de juros, com efeitos retardatários sobre a inadimplência, contribuíram igualmente para o agravamento do quadro.

A Renda Nacional Disponível Bruta das Famílias (RNDBF), ajustada sazonalmente (quer dizer, com exclusão de eventos e fatores que ocorrem anualmente nos mesmos períodos) e atualizada com base na inflação, apresentou variação modesta entre junho do ano passado e o mesmo mês deste ano, avançando 2,50% em termos reais, no dado mais recente divulgado pelo BC. A valores de junho deste ano, a renda disponível saiu de R$ 799,793 bilhões para alcançar R$ 819,770 bilhões, correspondendo a um ganha adicional de R$ 19,977 bilhões para o conjunto das famílias brasileiras.

Ao aplicar o percentual do comprometimento identificado pelo BC sobre o valor da renda – 36,8% em junho do ano passado e 39,4% em idêntico mês deste ano –, pode-se estimar quais os valores aproximadamente pagos pelas famílias para fazer frente ao serviço de sua dívida – quer dizer, para pagamento de juros e das prestações devidas. Nesta estimativa, os valores desembolsados pelas famílias teria registrado elevação de 8,90% depois de descontada a inflação, com os gastos nesta área subindo de R$ 217,544 bilhões para R$ 236,914 bilhões.

 

Sobra (muito) reduzida

Neste exercício, aqueles despesas teriam experimentado uma variação absoluta de R$ 19,370 bilhões. Neste caso, a se confirmarem os cálculos, quase 97% do ganho de renda das famílias teriam sido drenados pelo pagamento de juros e amortizações, sobrando muito pouco para incrementar o consumo familiar, algo como R$ 607,0 milhões ou em torno de 0,07% da renda nacional bruta disponível recebida pelas famílias na média do trimestre encerrado em junho deste ano. Esse seria um dos caminhos pelos quais a política de juros escorchantes tem atuado para esfriar a economia, além do impacto evidente sobre decisões de investimento pelas famílias e pelas empresas, diante da elevação exponencial dos custos do dinheiro.

 

Balanço

Para relembrar, o conceito de renda nacional bruta disponível das famílias desenvolvido pelo BC oferece uma visão ampliada do indicador. Além de incluir os salários recebidos pelos trabalhadores, rendas geradas pelo aluguel de imóveis, juros e rendimentos líquidos de aplicações financeiras e outras formas de investimento, dividendos e lucros distribuídos pelas empresas, a RNBDF soma aposentadorias, pensões, abono e seguro desemprego, benefícios de prestação continuada, Bolsa Família e outros benefícios de assistência social.

Na sequência, aqueles valores são descontados de impostos que incidem sobre a renda e o patrimônio das famílias (a exemplo do IPTU), contribuições pagas à Previdência e ao Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e outras transferências de renda das famílias para outras instituições e para o exterior.

Embora os níveis de comprometimento da renda com o pagamento do serviço da dívida pelas famílias tenham anotado índices historicamente elevados mais recentemente, o crescimento mais expressivo ocorreu ao longo dos meses finais da pandemia, coincidindo com a intensificação da vacinação e a gradual retomada ou “normalização” das atividades econômicas. Entre agosto de 2020 e dezembro de 2022, quando aquele percentual havia alcançado 27,6%, registrou-se um incremento de 7,8 pontos percentuais. Dali até junho, observou-se uma elevação de 1,3 pontos, para 28,9%.

Abrindo um parêntese, o percentual da renda comprometida pelo serviço da dívida familiar havia sido de 42,3% em outubro de 2016, chegando a 40,6% em outubro do ano seguinte. Vale dizer, os percentuais anotados agora continuam muito elevados e seguem em tendência de elevação, mas ainda abaixo dos níveis observados há praticamente duas décadas. A diferença central é que a inadimplência agora tem se mostrado mais elevada.

Na mesma linha, as taxas de juros pagas pelas pessoas físicas, incluindo os segmentos de crédito livre e direcionado, experimentaram elevação mais intensa entre agosto de 2020 e dezembro de 2022, passando de 23,5% para 34,9% ao ano, algo como 11,4 pontos percentuais a mais. Em junho deste ano, os juros médios bancados pelas pessoas físicas chegaram a alcançar 39,4%, subindo mais 4,5 pontos percentuais (recuando para 37,4% em julho, no dado mais recente do BC). O recorde nesta área, em termos nominais pelo menos, havia sido registrado em outubro de 2016, com os juros batendo em 42,3%.

A inadimplência entre pessoas físicas seguiu tendência de razoável estabilização entre agosto de 2020 e dezembro de 2022, variando entre 3,3% e 3,9%. Esses dados registraram piora entre o ano passado e este ano, com os dados de junho deste ano apontando uma taxa de 5,4% (e subindo para 5,8% em julho, a mais elevada da série histórica).

Aparentemente, a evolução da inadimplência sugere um misto entre algum efeito retardatário do aumento do crédito em geral, que já vinha crescendo com vigor, e de nova aceleração neste ano, como sugere o ritmo mais recente das concessões, ou seja, das contratações de novos empréstimos e financiamentos.

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