O Hoje, O Melhor Conteúdo Online e Impresso, Notícias, Goiânia, Goiás Brasil e do Mundo - Skip to main content

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Juros para pessoas físicas explodem e inadimplência dispara em janeiro

Lauro Veiga Filhopor Lauro Veiga Filho em 26 de fevereiro de 2026

A taxa média de juros cobrada das pessoas físicas pelos bancos, incluindo o crédito livre e direcionado, atingiu 38,0% em janeiro deste ano, subindo quatro pontos percentuais em relação ao primeiro mês do ano passado e registrando ainda o seu nível mais elevado desde março de 2017, quando havia rondado a casa dos 40,6% ao ano. O encarecimento do crédito veio acompanhado pelo salto da taxa de inadimplência de 3,8% em janeiro do ano passado para 5,2% no mês inicial de 2026, a segunda maior taxa para um mês de janeiro na série estatística mais recente do Banco Central (BC), iniciada em março de 2011.

O indicador de inadimplência considera o valor dos créditos em atraso a mais de 90 dias em relação ao saldo total das operações e corresponde a uma média. No segmento de crédito livre, os juros escalaram para 61% ao ano em janeiro passado, saindo de 54,3% no mesmo mês de 2025, num acréscimo de 6,7 pontos. A taxa de inadimplência nesta área manteve em janeiro os mesmos 6,9% alcançados em dezembro do ano passado, acima dos 5,6% registrados em janeiro de 2025.

Quando se trata de estatística, as médias desvelam apenas parte da realidade. Nas operações de financiamento com uso de cheque especial ou da modalidade rotativa dos cartões de crédito, por exemplo, as taxas de juros atingiram, em janeiro deste ano, respectivamente, 138,7% e 424,5% ao ano, níveis claramente escandalosos. A inadimplência, como ocorre historicamente naqueles dois segmentos, registra taxas muito acima daquela apontada pela “média”, com os índices batendo em 16,5% no cheque especial e inacreditáveis 63,5% no cartão de crédito rotativo, pela ordem, a mais elevada da série e a segunda mais alta desde 2011.

Distorções

Os porta-vozes do setor financeiro certamente argumentarão que os juros subiram porque os riscos de não receber os empréstimos concedidos igualmente aumentaram, como sugerem as taxas de inadimplências em plena ascensão desde o ano passado. Mas nem sempre é possível estabelecer uma correlação direta entre aqueles indicadores e nem sempre há uma correlação imediata. Em maio de 2017, quando os juros para pessoas físicas haviam sido alçadas a 40,6% ao ano, algo como 36,5% em termos reais, já que a inflação rondava a casa dos 3,0% ao ano, a inadimplência era mais baixa do que hoje, mais próxima de 4,0%. Mas os spreads bancários, quer dizer, a diferença entre as taxas pagas pelos bancos para tomar recursos de investidores e os juros cobrados ao emprestar aqueles recursos, estavam elevadíssimos, em 32,6%.

Balanço

 Em janeiro deste ano, com os juros nas alturas dos 38,0% ao ano no crédito para pessoas físicas e a inadimplência naqueles 5,2% na média, os spreads encontravam-se em 27,6% ou praticamente cinco pontos inferior aos níveis de maio de 2017.

 Um segundo dado poderia ter contribuído para moderar a elevação dos juros, explicado pela redução da taxa de captação no mercado de crédito para pessoas físicas, que saiu de 11,0% em janeiro do ano passado para 10,4% no mesmo mês deste ano, algo como 0,6 pontos percentuais a menos. O dinheiro ficou mais barato para os bancos, mas o crédito tornou-se ainda mais caro para as famílias.

 A queda nos custos de captação pode estar relacionada, de alguma forma, à perspectiva de riscos mais elevados no mercado de crédito, tornando os bancos mais cautelosos nas duas pontas, ao buscar investidores no mercado e ao emprestar os recursos captados. De toda forma, a correlação entre riscos e custos não parece ser muito evidente no setor financeiro, com as oscilações respondendo também a estratégias das instituições do mercado.

 Ainda em janeiro deste ano, o crédito ampliado contratado pelas famílias alcançaram seu nível mais elevado na série estatística do BC, quando comparada ao Produto Interno Bruto (PIB), alcançando qualquer coisa ao redor de 37,7%. A valores nominais, quer dizer, sem descontar a variação da inflação, o saldo daqueles créditos, que incluem operações realizadas fora do sistema financeiro tradicional, apresentou variação de 11,67%.

 Para comparar, o crédito ampliado destinado às famílias em geral avançou de R$ 4,317 trilhões em janeiro do ano passado, quando chegou a representar 36,4% do PIB, para R$ 4,821 trilhões no primeiro mês deste ano, numa variação equivalente a R$ 503,930 bilhões.

 Os indicadores de endividamento do BC, divulgados ontem, referem-se ainda a dezembro do ano passado, mas mostram que voltaram a alcançar valores historicamente muito elevados. Ao final de 2025, a dívida contratada apenas no sistema financeiro nacional, sem considerar outras formas de operação de crédito, representava quase metade da renda familiar.

 De acordo com as planilhas do BC, o endividamento das pessoas físicas repetiu em dezembro o índice de 49,7% registrado em novembro, o que por sua vez reedita o percentual observado em outubro de 2022, o mais elevado de toda a série histórica. O endividamento mais elevado, num cenário de juros nas estrelas, pode significar um constrangimento importante para as decisões de consumo e de investimento das famílias, que que os compromissos financeiros passam a consumir fatias maiores da renda familiar, drenando recursos no lado real da economia, o que poderá afetar o comportamento imediato da demanda, levando a um esfriamento mais intenso da atividade econômica nos meses seguintes.

 Uma redução dos juros básicos neste momento contribuiria para amenizar aqueles impactos, aliviando o custo dos empréstimos para as famílias e favorecendo o recuo das taxas de inadimplência, com benefícios ainda para os investimentos produtivos, o que ajudaria a criar maior capacidade de produção na economia, ampliando a oferta de produtos e desativando pressões sobre os preços ao consumidor.

Você tem WhatsApp ou Telegram? É só entrar em um dos canais de comunicação do O Hoje para receber, em primeira mão, nossas principais notícias e reportagens. Basta clicar aqui e escolher.