domingo, 27 de setembro de 2026

Juros podem afetar tendência de crescimento nos Estados

Lauro Veiga Filhopor em
Juros podem afetar tendência de crescimento nos Estados
Foto: Arquivo/ABr

Na visão nem sempre isenta do setor financeiro, a ata da reunião deste mês do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada ontem pelo Banco Central (BC), sugere mais uma alta dos juros básicos na reunião programada para os dias 5 e 6 de novembro. Possivelmente, com a taxa saindo de 10,75% para 11,25% – o que corresponderia a uma taxa real de juros, descontada a inflação esperada para 12 meses, acima de 7,0% ao ano. A se confirmar, o movimento de alta dos juros deverá contribuir para desaquecer a atividade econômica, com efeitos negativos sobretudo sobre as decisões de investimento no setor privado.

Ao longo deste ano, de toda forma, a perda de ritmo na agropecuária, afetada pela quebra da safra, vinha sendo compensada pela tendência de aquecimento no mercado de trabalho, com avanço constante do emprego, trazendo a desocupação para baixo – tendência acompanhada de ganhos reais de renda para os trabalhadores em todas as regiões do País. O resultado tem sido, até o momento, um crescimento expressivo da massa de renda total das famílias, turbinada ainda pelo pagamento de precatórios no começo de 2024, numa injeção próxima de R$ 93,0 bilhões, pelas transferências de renda do setor público e pela política de valorização do salário mínimo.

A combinação daqueles fatores, numa visão praticamente unânime entre os economistas Thais Zara, da LCA Consultores, Camila Saito, da Tendências Consultoria Integrada, Gabriel Couto, do Santander, e Pedro Duarte de Souza Andrade, do Itaú Unibanco, havia trazido surpresas favoráveis para a economia, obrigando consultores e analistas a revisarem suas projeções. O Santander decidiu elevar a previsão para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano de 2,0% para 2,3%, segundo Couto, enquanto a Tendências alterou sua estimativa de 1,8% para 2,3%, adianta Camila. Enquanto o Itaú projeta avanço de 2,5%, com forte contribuição do consumo das famílias, que tem seu crescimento estimado em 4,0% para este ano, registra Andrade, a LCA passou a trabalhar com uma estimativa de 2,6% frente a 2,0% na previsão anterior, na avaliação de Thais.

Em linhas gerais, considera Andrade, as economias regionais surgem com crescimento relativamente sólido neste ano, considerando o indicador de atividade do BC. Nos 12 meses encerrados em junho deste ano, registra o economista do Itaú Unibanco, o índice de atividade cresceu 3,4% no Sudeste e no Centro-Oeste, 3,2% no Norte, 2,6% no Nordeste e 2,0% no Sul, já contabilizados, ao menos em parte, os estragos gerados pelas enchentes de maio. Daqui em diante, não se pode destacar a possibilidade de mudança naquelas tendências, dado o impacto dos juros sobre a economia.

Revisões

No cenário nacional, as revisões tornaram-se mais disseminadas a partir da primeira semana de julho, como mostram as edições mais recentes do relatório Focus, produzido pelo Banco Central (BC). Desde lá, as estimativas para o crescimento da economia neste ano foram elevadas de 2,09% para 2,39% na penúltima semana de agosto, ao mesmo tempo em que reduzia as apostas para 2025 de 1,90% para 1,84%, mexendo sempre na dezena após a vírgula. Neste caso, a piora relativa nas perspectivas, observam os quatro economistas, está relacionada a uma política monetária mais apertada do que aquela esperada no começo deste ano, à perda de fôlego do impulso fiscal, com menor impacto de precatórios e das transferências de renda, e ainda a uma expectativa de menor crescimento da economia mundial, na visão compartilhada por Thais e Camila.

Balanço

  • A próxima rodada de cortes da taxa Selic, anteriormente aguardada para os primeiros meses do próximo ano pelo Santander, deve ser postergada mais para o final de 2025, acredita Couto, o que tende a forçar uma desaceleração da atividade ao longo do período. O banco espera que a taxa de crescimento alcance 1,5% no ano que vem, o que contrasta com a previsão de alta de 1,8% antecipada pela LCA e Itaú Unibanco, enquanto a Tendências espera uma variação ao redor de 1,7%. O aperto monetário, acrescenta Andrade, deverá arrefecer também o ímpeto no mercado de crédito, desestimulando as concessões, que tendem a perder impulso já a partir do segundo semestre deste ano.
  • Com a provável exceção do Sul, a tendência majoritariamente antecipada para as economias regionais é de desaceleração na passagem deste para o ano seguinte. Na sequência das enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul, em maio, a economia local passou a apresentar recuperação mais intensa do que a esperada, avaliam Camila e Couto. Como exemplo, a economista da Tendências observa que a produção industrial no Estado, nos dados dessazonalizados, havia desabado 26% entre abril e maio e saltou 34% em junho, recuando 0,5% em relação ao mesmo mês do ano passado. “O crescimento observado em junho devolveu praticamente toda a queda registrada em maio, o que pode ter relação com um movimento de reposição de perdas, de um lado, e também com a estocagem de bens essenciais pelas famílias”, sugere Andrade.
  • Essa retomada da produção industrial tende a se alongar no tempo, assim como os investimentos na reconstrução, deixando impactos positivos para 2025, acredita Thais. Pela ordem, Santander, Tendências e LCA projetam elevação de 2,4%, 1,8% e 1,9% para o PIB da região Sul em 2025, acima das taxas de 0,5%, 0,3% e 1,0% esperadas para este ano. Com participação de 51,3% no PIB brasileiro, o Sudeste deve sair de um crescimento entre 2,2% e 2,9% neste ano para um avanço em torno de 1,6% a 1,7%.
  • A recuperação esperada para a produção agrícola deverá trazer o PIB do Centro-Oeste para cima no ano que vem, saindo de uma variação de 0,2% para 2,4% na estimativa de Thais, avanço próximo aos 2,5% esperados pelo Santander e acima dos 2,0% estimados pela Tendências. A consultoria mantém-se mais otimista em relação ao Nordeste, estimando alta de 2,7% para o PIB regional em 2025, ligeiramente abaixo do incremento de 3,2% previsto para este ano.
  • Essencial para criar as condições para um crescimento mais sustentável no tempo, o investimento total na economia brasileira deve avançar 3,4% neste ano e 2,8% em 2025, de acordo com Andrade, saindo de uma redução de 3,0% em 2023. Apenas os 54 principais projetos apurados pela Tendências e distribuídos entre todas as regiões do país, aponta Camila, deverão representar um investimento próximo de R$ 320,43 bilhões até 2033, dos quais R$ 112,0 bilhões no Sudeste, R$ 81,2 bilhões no Centro-Oeste, perto de R$ 77,65 bilhões no Sul, R$ 44,2 bilhões destinados ao Nordeste e outros R$ 5,38 bilhões para o Norte.

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