Coluna

Livro: a emocionante história da brasileira Maha Mamo e sua luta pelo direito de existir

Publicado por: Marcelo Mariano | Postado em: 05 de abril de 2021

Marcelo Mariano*

De todas as coisas injustas do mundo, a apatridia talvez
seja a maior delas. Um apátrida é uma pessoa que não tem nacionalidade. Logo,
não tem documentos nem acesso a serviços básicos, como saúde, educação e
trabalho formal.

Quando saímos de casa e esquecemos um documento, às vezes
nos sentimentos um pouco perdidos. Agora imagine viver a vida toda assim.

A brasileira Maha Mamo sabe bem o que é isso. E a trajetória
para poder chamá-la oficialmente de brasileira não foi fácil. Recém-lançado, o
livro “Maha Mamo: a luta de uma apátrida pelo direito de existir” conta os
detalhes.

Para os interessados em relações internacionais, é uma
oportunidade de conhecer, por meio de um relato em primeira mão, como algumas
questões humanitárias se desenvolvem na prática.

Mas preparem-se: eu não consegui passar dez minutos sem
encher os olhos de lágrimas. E saber que o Brasil foi o único país que aceitou
acolher Maha e seus irmãos me faz ter um pouco de otimismo em meio a esses
tempos loucos que estamos vivendo.

Maha nasceu no Líbano, mas nascer lá não garante a
nacionalidade – é preciso ter relações sanguíneas com o país pelo lado paterno.
Seus pais são sírios. Por questões religiosas, o casamento deles não é
reconhecido na Síria e, por isso, os filhos “não existem”.

Sem documentos, como ela fazia para ser atendida em um hospital
ou frequentar a escola? Maha e sua mãe davam um jeitinho – nesse sentido, já
era brasileira desde criança.

Porém, não era possível dar um jeitinho em tudo. Mesmo
diante das dificuldades, Maha não se acomodou. Afinal, ela queria existir.
Enviou e-mails para todas as embaixadas no Líbano. Só a do Brasil resolveu
ajudar – ou melhor, deu um jeitinho.

Com um laissez-passer, um documento que, em tese,
permite só uma viagem de ida ao país que o expediu, Maha e seus irmãos
desembarcaram em Belo Horizonte.

No Brasil, registraram-se como refugiados e, graças a uma
flexibilização na lei de migração, de 2017, o sonho da nacionalidade se tornou
real.

Não quero dar spoiler, mas o que aconteceu com seu irmão,
Eddy, antes de conseguirem a nacionalidade, é de cortar o coração.

Poliglota, Maha virou ativista da causa apátrida – há pelo
menos 10 milhões em todo o mundo – e discursou em eventos do Alto Comissariado
das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) em diversos países. Sempre com uma
bandeira do Brasil nas costas.

Como um profissional de Relações Internacionais, muito me
orgulhou em saber que tantos colegas de profissão a ajudaram em sua trajetória em
terras brasileiras. Mais do que isso, Maha, muito me orgulha em dizer que sou
seu compatriota.

*Assessor internacional da Prefeitura de Goiânia e
vice-presidente do Instituto Goiano de Relações Internacionais (Gori). Escreve
sobre política internacional às segundas-feiras.

 

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