Livro investiga violências incorporadas aos costumes
O que acontece quando uma violência é repetida por tantas gerações que deixa de ser reconhecida como tal? Em A Casa de Todos os Santos, a escritora goiana Lita Maria procura respostas nas relações familiares, nos costumes e nas expectativas que determinam o lugar reservado às mulheres. O romance apresenta um sertão onde o casamento, a maternidade e a honra familiar ultrapassam a esfera das escolhas individuais e se transformam em exigências sociais, muitas vezes sustentadas por gerações sem serem questionadas.
Terceiro romance do Ciclo de Vozes do Sertão, o livro acompanha Maria Angelita de Todos os Santos, a Cota. Filha da lavadeira Isteobalda, ela cresce entre a pobreza e a religiosidade, ao lado da irmã Benigna e da prima Efigênia. Sobre Efigênia recai o peso da honra familiar, e suas escolhas são vigiadas.
Em entrevista ao O Hoje, Lita Maria afirma que o livro trata da naturalização de práticas violentas incorporadas aos costumes. “E, muitas vezes, por se tratar de costumes, não há marcas físicas evidentes. São cicatrizes costuradas em silêncios”, diz.
Essas imposições atravessam as classes sociais. Enquanto Isteobalda cria os filhos sozinha, Dona Gemma, de família abastada, vive sob a cobrança de dar à luz um herdeiro homem. Para a autora, “a classe social não anula a opressão patriarcal, mas veste-a com outras roupagens”.
Um dos gestos centrais da história parte de Isteobalda. Mãe de três filhos de pais desconhecidos, ela cria o sobrenome “de Todos os Santos”. Para Lita Maria, o nome confere proteção divina à casa e “finca e desfralda uma bandeira de pertencimento e autonomia”.
A mesma personagem que desafia a convenção deseja que as filhas encontrem bons casamentos. “O meu compromisso no processo de criação foi construir uma arquitetura narrativa, onde as contradições humanas se sobrepusessem a discursos panfletários”, explica a escritora. Ao leitor, ela deixa um convite: “Entre, a casa é sua”.
A autora
Natural de Turvânia (GO), Lita Maria vive entre Goiânia e Palmas. É mestra e doutoranda em Letras pela Universidade Federal do Tocantins (UFT), onde pesquisa representações do sertão. Do mesmo ciclo, publicou O Canto da Carpideira, premiado pela Editora da UFT e adaptado para o teatro, e Sobre Dora e Dores, em adaptação para o cinema.
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