Lucro líquido de empresas não financeiras salta 235% em 2021

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 07 de abril de 2022

O lucro combinado das empresas de capital aberto atingiu níveis históricos no ano passado, segundo levantamento realizado pela consultoria Economática com base nas demonstrações financeiras de 291 empresas não financeiras com ações negociadas em Bolsa. Os resultados aparentemente transitam na contramão dos principais indicadores econômicos, que mostram uma economia ainda abaixo dos níveis registrados há sete anos, atingida em cheio pela recessão de 2014/16, pelo baixo crescimento anotado nos anos seguintes e, na sequência, pela pandemia a partir de 2020 e, agora, pelas turbulências e incertezas geradas pela guerra entre Rússia e Ucrânia em um ano de eleições no País.

Os números apurados pela consultoria mostram um salto de 235,43% no lucro líquido daquelas empresas, que não incluem os dados de balanço da Petrobrás e da Vale por conta do tamanho de ambas companhias (o que poderia distorcer as comparações de alguma forma). Em valores nominais, o lucro somado de todas as empresas não financeiras consideradas pela Economática subiu de R$ 68,173 bilhões em 2020 para nada menos do que R$ 228,675 bilhões no ano passado. O salto repôs com sobras a queda de 35,5% observada na saída de 2019 para 2020, o que correspondeu a uma redução de R$ 37,543 bilhões (considerando o lucro de R$ 105,716 bilhões registrado em 2019). Entre 2020 e 2021, o resultado líquido subiu o equivalente a R$ 160,503 bilhões.

Os ganhos acumulados no ano passado corresponderam a um retorno igualmente histórico quando comparado ao patrimônio líquido, que corresponde ao volume de recursos disponíveis para as empresas e acionistas, já descontados todos os compromissos e dívidas. Nessa comparação, o retorno saiu de 7,02% em 2020 para 20,49% no ano seguinte, o que se compara com 12,08% antes da pandemia, em 2019. Quer dizer, as maiores empresas do País conseguiram não só recompor com folga sua lucratividade como o fizeram num cenário econômico ainda desafiador.

Salários versus lucros

A renda dos trabalhadores nem de longe teve fôlego para acompanhar o salto nos lucros das empresas. Na verdade, sua variação sequer conseguiu acompanhar a escalada dos preços, resultando em perdas reais para as famílias. A massa de rendimentos do trabalho, que soma toda a remuneração recebida pelos trabalhadores em todos os tipos de ocupação, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apresentou queda real de 1,8% (já descontada a inflação) entre o trimestre final de 2021 e igual período do ano anterior, recuando de R$ 233,570 bilhões para R$ 229,394 bilhões (uma perda de R$ 4,176 bilhões). O Banco Central (BC) estima regulamente a chamada massa salarial ampliada disponível, que soma aos salários as aposentadorias e pensões da Previdência e benefícios sociais (Bolsa Família, Auxílio Brasil e benefícios específicos a idosos e a pessoas com alguma deficiência) e deduz os recolhimentos ao Imposto de Renda e contribuições pagas à mesma Previdência. Em valores nominais acumulados em 12 meses até dezembro de cada ano, a massa ampliada registrou elevação de apenas 7,93% ao passar de R$ 3,297 trilhões para R$ 3,559 trilhões entre 2020 e 2021. Descontada a inflação, registrou-se perda próxima a 1,9%.

Balanço

  • Os resultados refletem um aumento mais significativo das receitas operacionais líquidas quando comparadas aos custos dos produtos vendidos e mais uma série de ajustes nas despesas operacionais, que avançaram num ritmo inferior ao da inflação, demonstrando queda em termos reais. As receitas somadas daquelas empresas avançaram de R$ 1,976 trilhão para R$ 2,613 trilhões, em alta de 32,2%.
  • Os custos dos produtos vendidos, que inclui despesas com matérias primas e insumos, fornecedores, fretes e pessoal, entre outros gastos, apresentaram variação menos intensa, subindo 30,6% entre aqueles dois exercícios ao avançarem de R$ 1,447 trilhão para R$ 1,890 trilhão. As despesas operacionais pontaram variação de apenas 6,3% no período, avançando de R$ 298,260 bilhões para R$ 316,989 bilhões.
  • A inflação acumulada nos 12 meses do ano passado, apenas como lembrete, atingiu 10,06%, o que pressupõe uma queda real em torno de 3,4% para aquelas despesas, o que deve ter exigido certa “ginástica” das empresas num momento de forte alta de custos especialmente na indústria.
  • As empresas de capital aberto foram favorecidas por uma redução de 17,9% nas despesas financeiras líquidas (ou seja, descontadas as receitas financeiras). A conta baixou de R$ 128,117 bilhões para R$ 103,514 bilhões. A redução nesse tipo de despesa ocorreu a despeito de aumentos de 21,5% no saldo da dívida bruta das empresas e de 28,7% na dívida líquida, descontados os recursos acumulados no caixa das empresas. A dívida bruta passou de R$ 1,124 trilhão em 2020 para R$ 1,366 trilhão no ano passado, enquanto a dívida líquida avançou de R$ 640,824 bilhões para R$ 824,456 bilhões.
  • No mesmo período, o caixa líquido das empresas abertas experimentou avanço mais modesto, na faixa de 12,1%, saindo de R$ 483,249 bilhões para R$ 541,759 bilhões.
  • Incluindo empresas financeiras, Petrobrás e Vale, somando 328 empresas no total, o lucro líquido atingiu R$ 562,930 bilhões no ano passado, saltando 204,99% diante de R$ 184,575 bilhões em 2020. Vale e Petrobrás alcançaram lucros recordes no ano passado, favorecidas pela alta nos preços do minério de ferro, no primeiro caso, e nas cotações do petróleo e seus derivados, no segundo. O lucro da Vale aumentou 4,5 vezes, subindo de R$ 26,713 bilhões para R$ 121,228 bilhões.
  • No caso da Petrobrás, o resultado líquido disparou, num salto de nada menos do que 1.400,7% entre um exercício fiscal e o seguinte. Em valores nominais, o lucro engordou de R$ 7,108 bilhões para R$ 106,668 bilhões. Somadas, Vale e Petrobrás responderam por 40,48% do lucro de todas as 328 empresas acompanhadas pela consultoria, mas tiveram contribuição de 51,29% para o crescimento dos resultados líquidos somados de todas aquelas companhias.
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