Segunda-feira, 22 de julho de 2024

Coluna

Mais um ano perdido para a indústria, depois de quatro trimestres no vermelho

Publicado por: Sheyla Sousa | Postado em: 02 de novembro de 2019

A
três meses do final de 2019, levando-se em conta a edição de setembro da
pesquisa mensal do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre
a produção industrial, parece já pouco provável que a indústria consiga algum
alívio significativo até lá. Os números de setembro trouxeram pouco alento e,
adicionalmente, vieram abaixo do que esperavam os mercados, conforme anota a
equipe de macroeconomia do Itaú BBA e reforça o Instituto de Estudos para o
Desenvolvimento Industrial (Iedi).

O
fato é que a produção industrial tem sido fustigada em duas frentes
simultaneamente, sem perspectivas de mudanças mais relevantes daqui até
dezembro e, muito provavelmente, também ao longo das primeiras semanas do
próximo ano. Se a demanda doméstica não tem respondido à altura, no front
externo, as exportações de manufaturas vêm encolhendo (e continuaram em baixa
também em outubro, o que já não prenuncia notícias muito animadoras para o
setor naquele mês). No terceiro trimestre deste ano, comparado a igual período
do ano passado, as exportações de bens manufaturados caíram 12,2% – comportamento
influenciado especialmente pelo tombo na atividade econômica na Argentina, o
que tem reduzido substancialmente as compras de produtos brasileiros, com
destaque para automóveis, suas peças e acessórios. Em outubro, as vendas
externas de manufaturados despencaram 26,5%.

No
mercado interno, há muito pouco a celebrar, embora exista um tipo de
comentarista econômico, em geral a serviço de sistemas globais de comunicação,
sempre disposto a destacar o lado mais róseo dos dados (ainda que reste muito
pouco rosa a ser destacado, para desgosto de algumas autoridades do governo
atual). O fato concreto é que a produção industrial já acumula quatro
trimestres consecutivos de resultados negativos, ainda que os números mensais
possam oscilar entre o azul e o vermelho a cada medição.

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Além de
Brumadinho

A
recuperação esboçada nos trimestres finais de 2017 foi abortada na segunda
metade do ano seguinte e a indústria não demonstrou forças para voltar a
crescer até aqui, mesmo depois de esgotados os efeitos negativos gerados pela
paralisação dos caminhoneiros em maio de 2018. Uma parcela desse baixo
crescimento e da queda efetiva na produção, como aponta o Iedi, deve ser
atribuída ao tranco sofrido pela indústria de extração mineral, sobretudo em
função da tragédia de Brumadinho (MG). Mas, acrescenta o instituto, “muitos dos
segmentos industriais que seguem crescendo perderammuito de seu dinamismo ao
longo do ano. É nesse sentido que 2019 contribui pouco ou nada para a
recuperação industrial”.

Balanço

·  
A
pesquisa do IBGE deixa pouca margem para duvidar de como os últimos meses desde
o final de 2018 têm sido pouco animadores para o setor. A produção industrial
fechou o quarto trimestre de 2017 com alta de 5,0% na comparação com os três
meses finais do ano anterior, prenunciando talvez, quem sabe, o início da recuperação
aguardada desde o encerramento de 2016.

·  
Mas
o ritmo veio murchando ainda antes do “choque” produzido pela movimentação dos
caminhoneiros. No primeiro e no segundo trimestres de 2018, a produção avançou
2,8% e 1,6% pela ordem (neste último período, já sob efeito da greve).

·  
O
terceiro trimestre do ano passado foi também o último com crescimento, embora a
variação tenha se limitado a 1,0%. Já no quarto trimestre, a produção recuou
1,3%. Nos três primeiros trimestres deste ano, ou seja, desde a troca de
governo e posse do ministro que prometeu zerar o déficit primário em um ano e
retomar o crescimento, a produção sofreu quedas de 2,1%, de 0,8% e de 1,2%.

·  
Como
se percebe, houve algum arrefecimento na tendência de baixa no segundo
trimestre, não referendada pelos dados do trimestre seguinte, que apontaram um
mergulho ligeiramente mais intenso. Em setembro, observa o Iedi, “a produção
industrial praticamente não avançou, registrando apenas
(variação de) 0,3% frente a agosto, já descontados os efeitos sazonais. Este
têm sido o padrão de 2019: quando não há queda, a taxa de crescimento é baixa”.

·  
Na
leitura dos economistas do Itaú BBA, o resultado de setembro veio abaixo as
expectativas do mercado, que esperava, na média, uma variação de 0,9% em
relação a agosto, já descontados fatores sazonais que poderiam distorcer a
comparação. O próprio banco esperava uma variação bem mais fornida, na faixa de
1,2%.

O dado levou a instituição a revisar levemente
para baixo sua projeção para a variação do Produto Interno Bruto (PIB) do
terceiro trimestre, saindo de 0,5% para 0,4% na comparação com o trimestre
imediatamente anterior. A revisão em si significa muito pouco. O mais relevante
é que o crescimento da economia tende a se manter apático, com a atividade
derrapando e quase parando.