Marcela Bonfim exalta negritude amazônica em obra semifinalista do Prêmio Jabuti
O território que emerge das páginas de Amazônia Negra: as imagens da cor do (in)visível, livro de estreia de Marcela Bonfim, vai além das paisagens que costumam povoar o imaginário sobre a região. Publicada pela editora Igrá Kniga, a obra, semifinalista do Prêmio Jabuti 2026, reúne fotografias e reflexões sobre a presença negra na floresta, propondo outras formas de compreender as relações entre território, pessoas e pertencimento.
A narrativa começa em 2010, quando a autora chegou a Rondônia em busca de trabalho. Formada em Economia pela PUC-SP, tentou construir a carreira em São Paulo, mas sentiu o impacto de ser uma mulher negra no mercado. A mudança para a Amazônia, inicialmente motivada pela necessidade, acabou abrindo um caminho inesperado e, ao longo de 16 anos no estado, ela viveu uma transformação que atravessou tanto sua trajetória profissional quanto a maneira de enxergar a própria identidade.
Foi com uma câmera nas mãos que Marcela começou a conhecer histórias que também falavam sobre ela. Em visitas a quilombos, terreiros, comunidades ribeirinhas, periferias e outros espaços de convivência, encontrou diferentes expressões da negritude amazônica. Entre suas principais referências estão os barbadianos, migrantes de Barbados e de outras ilhas do Caribe britânico que chegaram à região, especialmente no início do século XX, atraídos por oportunidades de trabalho. Sua presença marcou a formação social e cultural de Porto Velho, revelando um legado que nem sempre recebe o devido reconhecimento.
Esses encontros ajudaram Marcela a se aproximar de uma ancestralidade que, durante muito tempo, teve dificuldade de reconhecer em si mesma. Ao fotografar homens, mulheres, crianças e idosos negros, a artista também revisitou a própria trajetória. A câmera, que inicialmente serviu como ponte para conhecer outras pessoas e realidades, tornou-se instrumento de reconhecimento pessoal e de valorização de uma beleza que ela própria demorou a enxergar. A artista encontrou nas imagens uma nova forma de investigar o mundo: tornou-se, assim, uma economista das imagens.
Em Amazônia Negra, prosa, poemas e aforismos acompanham um caderno de fotografias, ampliando o diálogo entre imagem e palavra. A obra questiona os mecanismos que contribuíram para a invisibilidade das populações negras e propõe um olhar sobre as pessoas, as memórias e os territórios que ajudaram a construir a região. Marcela convida o leitor a rever as narrativas que aprendeu a contar e a perceber quem ficou de fora delas.
A autora
Marcela Bonfim vive em Porto Velho (RO). Artista visual, fotógrafa, pesquisadora, cineasta e compositora, idealizou o projeto (Re)conhecendo a Amazônia Negra: povos, costumes e influências na floresta. Venceu o Prêmio Itaú Cultural de Literatura, em 2020, e o Prêmio PIPA, em 2021.
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