quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Marcela Bonfim exalta negritude amazônica em obra semifinalista do Prêmio Jabuti

Luana Avelarpor em
Marcela Bonfim exalta negritude amazônica em obra semifinalista do Prêmio Jabuti
Em "Amazônia Negra: as imagens da cor do (in)visível", a artista parte de sua trajetória em Rondônia para investigar as presenças afro-amazônicas, incluindo a influência da comunidade barbadiana na formação cultural da região

O território que emerge das páginas de Amazônia Negra: as imagens da cor do (in)visível, livro de estreia de Marcela Bonfim, vai além das paisagens que costumam povoar o imaginário sobre a região. Publicada pela editora Igrá Kniga, a obra, semifinalista do Prêmio Jabuti 2026, reúne fotografias e reflexões sobre a presença negra na floresta, propondo outras formas de compreender as relações entre território, pessoas e pertencimento.

A narrativa começa em 2010, quando a autora chegou a Rondônia em busca de trabalho. Formada em Economia pela PUC-SP, tentou construir a carreira em São Paulo, mas sentiu o impacto de ser uma mulher negra no mercado. A mudança para a Amazônia, inicialmente motivada pela necessidade, acabou abrindo um caminho inesperado e, ao longo de 16 anos no estado, ela viveu uma transformação que atravessou tanto sua trajetória profissional quanto a maneira de enxergar a própria identidade.

Foi com uma câmera nas mãos que Marcela começou a conhecer histórias que também falavam sobre ela. Em visitas a quilombos, terreiros, comunidades ribeirinhas, periferias e outros espaços de convivência, encontrou diferentes expressões da negritude amazônica. Entre suas principais referências estão os barbadianos, migrantes de Barbados e de outras ilhas do Caribe britânico que chegaram à região, especialmente no início do século XX, atraídos por oportunidades de trabalho. Sua presença marcou a formação social e cultural de Porto Velho, revelando um legado que nem sempre recebe o devido reconhecimento.

Esses encontros ajudaram Marcela a se aproximar de uma ancestralidade que, durante muito tempo, teve dificuldade de reconhecer em si mesma. Ao fotografar homens, mulheres, crianças e idosos negros, a artista também revisitou a própria trajetória. A câmera, que inicialmente serviu como ponte para conhecer outras pessoas e realidades, tornou-se instrumento de reconhecimento pessoal e de valorização de uma beleza que ela própria demorou a enxergar. A artista encontrou nas imagens uma nova forma de investigar o mundo: tornou-se, assim, uma economista das imagens.

Em Amazônia Negra, prosa, poemas e aforismos acompanham um caderno de fotografias, ampliando o diálogo entre imagem e palavra. A obra questiona os mecanismos que contribuíram para a invisibilidade das populações negras e propõe um olhar sobre as pessoas, as memórias e os territórios que ajudaram a construir a região. Marcela convida o leitor a rever as narrativas que aprendeu a contar e a perceber quem ficou de fora delas.

A autora

Marcela Bonfim vive em Porto Velho (RO). Artista visual, fotógrafa, pesquisadora, cineasta e compositora, idealizou o projeto (Re)conhecendo a Amazônia Negra: povos, costumes e influências na floresta. Venceu o Prêmio Itaú Cultural de Literatura, em 2020, e o Prêmio PIPA, em 2021.

Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.