Segunda-feira, 22 de julho de 2024

Massa de rendimentos volta a crescer no mesmo ritmo de 2023

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 30 de maio de 2024

No trimestre finalizado em abril deste ano, a massa de rendimentos reais dos trabalhadores e o número de pessoas ocupadas em toda a economia voltaram a registrar crescimento ligeiramente mais acelerado, retomando o ritmo que havia sido observado em igual período do ano passado e alcançando os níveis mais elevados desde o início da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC), em 2012. Ao que sugerem as estatísticas apuradas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), responsável pela pesquisa, o mercado de trabalho parece registrar, neste começo de ano, uma mudança na tendência que havia prevalecido nos trimestres anteriores, quando o ritmo de crescimento do emprego e da massa real de rendimentos chegou a perder intensidade na comparação com período idêntico do ano anterior, o que parecia antecipar alguma acomodação mais à frente.

O número de pessoas de 14 anos ou mais de idade com algum tipo ocupação atingiu perto de 100,804 milhões no trimestre iniciado em fevereiro e encerrado em abril deste ano, melhor marca desde que a PNADC começou a ser apurada no formato atual. Na verdade, houve variação apenas marginal, em torno de 0,2% na comparação com os três meses imediatamente anteriores, quando a pesquisa havia registrado 100,593 milhões de ocupados. Foram criados, nessa comparação, em torno de 211,0 mil empregos, quase integralmente ocupados por trabalhadores formais – certamente um dado positivo, apesar do avanço apenas modesto no período.

Olhando para um horizonte mais alongado no tempo, o número de ocupados avançou em torno de 2,8% diante das 98,031 milhões de colocações ocupadas no mesmo trimestre de 2023, correspondendo à geração de 2,773 milhões de cargos. O incremento foi o mais relevante desde o trimestre encerrado em abril do ano passado, quando o mercado havia contratado 2,888 milhões de trabalhadores a mais do que em igual trimestre de 2022, num aumento de 3,0%.

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Renda adicional

A soma de todos os rendimentos habitualmente recebidos pelos trabalhadores, a valores de abril deste ano, cresceu 1,1% na saída do trimestre entre novembro de 2023 e janeiro deste ano para os três meses finalizados em abril último, saindo de R$ 309,841 bilhões para R$ 313,137 bilhões e agregando mais R$ 3,296 bilhões à renda das famílias de trabalhadores. Embora o emprego tenha praticamente “andado de lado” nesse intervalo, no jargão dos analistas econômicos, o rendimento médio real variou 0,8% e ajudou a injetar maior ânimo na massa salarial. A comparação com o trimestre terminado em abril do ano passado, no entanto, mostra que a massa de rendimentos veio turbinada pela alta de 2,8% no emprego e pelo ganho real de 4,7% anotado pelo rendimento médio. Como resultado, a massa salarial cresceu 7,9% em um ano, saindo de R$ 290,091 bilhões no trimestre fevereiro a abril de 2023. O ganho real, neste caso, somou R$ 23,046 bilhões. Na média, a massa registrou ganhos de praticamente R$ 1,920 bilhão por mês desde lá – um desempenho favorecido ainda pela desaceleração da taxa de inflação ao longo dos últimos meses.

Balanço

  • A massa de rendimentos reais no trimestre fevereiro a abril deste ano experimentou o melhor desempenho desde o mesmo intervalo do ano passado, quando havia crescido 9,6% na comparação com os mesmos três meses de 2022, num incremento de R$ 25,371 bilhões.
  • A despeito da virada de sinais, pode-se ponderar que o mercado não parece refletir um cenário de aquecimento excessivo da demanda, a ponto de justificar a manutenção de juros extorsivos. Muito menos fundamenta a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de impor um freio nos cortes da taxa básica como se observou em sua mais recente reunião.
  • Entre outros motivos, porque os indicadores de subutilização, incluindo o desemprego e a subocupação, que contempla por sua vez ocupados que trabalham por um número de horas insuficiente para suprir suas necessidades e pessoas fora do mercado, mas disponíveis para trabalhar, mantêm-se relativamente elevados.
  • A taxa composta de subutilização de fato baixou de 18,4% para 17,4% entre abril do ano passado e igual mês deste ano (considerando os trimestres encerrados em cada um daqueles meses). Mas mantinha-se em níveis razoavelmente elevados quando se considera, por exemplo, em a subutilização encontrava-se ao redor de 14,8% no trimestre setembro a novembro de 2014, afetando 15,376 milhões de trabalhadores.
  • Aquele número saltou 30,9% desde então, passando a atingir 20,129 milhões de trabalhadores, ou seja, 4,756 milhões a mais. No mesmo período, a força de trabalho ampliada (soma do número de trabalhadores ocupados e desocupados com o total de pessoas fora do mercado, mas disponíveis para trabalhar) cresceu 11,7% ao avançar de 103,587 milhões para 115,720 milhões de trabalhadores. Ao final de 2014, pouco menos de dez entre cada 100 pessoas em idade ativa (14 anos ou mais de idade) eram subutilizados pelo mercado, situação que passou a afetar mais de 11 a cada 100 no trimestre fevereiro a abril deste ano.
  • A taxa de desocupação, que inclui a maior parcela da subutilização, baixou de 8,5% no trimestre fevereiro a abril de 2023 para 7,5% no mesmo período deste ano, o que levou a uma redução de 9,7% no número de desempregados, que eram 9,095 milhões e passaram a 8,213 milhões, ou seja, 882,0 mil desocupados a menos – embora a economia tenha gerado 2,773 milhões de ocupações a mais. A aparente discrepância explica-se pelo crescimento da população ativa e, principalmente, porque a melhora no mercado atraiu aqueles que haviam se retirado da força de trabalho e desistido de procurar uma colocação.
  • Em outro indicador que vem para contrapor a argumentação armada pelo Copom para justificar a injustificável política de juros altos, o nível de ocupação (total de pessoas ocupadas em relação à população em idade ativa) tem se mantido ao redor de 57,3% neste ano, ligeiramente acima da taxa de 56,2% registrada no trimestre fevereiro-abril do ano passado.
  • No terceiro trimestre de 2012, no entanto, em seu melhor momento na série, aquele indicador estava em 58,4%. Considerando aquele nível, a economia teria que encontrar espaço para mais 1,886 milhão de trabalhadores entre fevereiro e abril deste ano, praticamente 1,9% a mais do que o total de fato observado, o que significaria elevar o total de ocupados para 102,690 milhões – dado que ajuda a colocar sob outra perspectiva o recorde de ocupações registrado atualmente em dados absolutos. O desemprego, na mesma hipótese, tenderia a baixar para 5,8%, com redução para 6,328 milhões no total de desocupados – um número 23% mais baixo do que aquele apresentado pela edição mais recente da PNADC.