domingo, 27 de setembro de 2026

Mercado erra longe (de novo). Agora, na previsão do IPCA-15 de setembro

Lauro Veiga Filhopor em
Mercado erra longe (de novo). Agora, na previsão do IPCA-15 de setembro
Foto: Rafa Neddermeyer/ABr

Reconhecidamente, uma das principais variáveis adotadas pelo Banco Central (BC) e por seu Comitê de Política Monetária (Copom) para decidir os rumos da política monetária sempre foi a expetativa dos mercados em relação ao comportamento da inflação. E o que acontece quando o termômetro não consegue aferir a temperatura corretamente, já abusando da retórica médica? Bem, no caso do BC, nada. Ainda que as medições realizadas pela autoridade monetária por meio do relatório Focus induzam o Copom a tomar decisões equivocadas, desconectadas da realidade.

A inflação, como já se antecipava desde a mudança na chamada bandeira tarifária da energia elétrica no começo de setembro, voltou ao terreno positivo nas quatro semanas encerradas em 13 de setembro, avançando de 0,02% negativos no final de agosto para 0,13% nas duas semanas seguintes, conforme o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Mas veio muito abaixo do que esperava o setor financeiro, detentor exclusivo das “expectativas inflacionárias” (já que o setor real da economia não tem voz nem vez no Focus). Na mediana das apostas dos mercados, as apostas giravam ao redor de uma taxa de 0,28% para o período, com algumas instituições, a exemplo do Itaú Unibanco, antecipando uma variação de 0,30%.

Se confirmadas, as projeções do mercado teriam resultado numa inflação muito próxima de 4,30% para os 12 meses terminados na sexta-feira, 13 de setembro. Mas o IPCA-15 acumulou variação de 4,12% ao longo daquele período, um pouco mais distante do teto da meta inflacionária fixada para este ano, na faixa de 4,50% (considerando 1,5 ponto percentual de tolerância em relação ao centro da meta, definido em 3,0%). Mais uma vez, a decisão de aumentar a taxa básica de juros, tomada na semana passada pelo Copom, trafega na contramão da tendência muito bem-comportada apresentada pelos preços em geral, reafirmada pelo dado parcial de setembro. Para comparar, o índice havia alcançado 4,50% em 12 meses até o final de julho deste ano, o que reforça uma tendência de recuo nessa medição.

Focos de pressão

Uma comparação lastreada nos dados do IBGE mostra, por exemplo, que a maioria acachapante dos preços teve um comportamento muito positivo entre 15 de agosto e 13 de setembro. Entre os principais focos altistas, cinco produtos contribuíram com 0,13 ponto percentual na formação do IPCA-15 deste mês. Quer dizer, praticamente toda a inflação do período teve como origem a variação de preços daquele grupo de produtos, que incluiu energia elétrica, com variação de 0,84%, mamão (mais 30,02%), passagem aérea (elevação de 4,54%), plano de saúde (avanço de 0,58%) e gastos com hospedagem (mais 2,61%). Todos os demais itens e produtos, tomados em conjunto, tiveram influência virtualmente nula sobre o IPCA-15 de setembro, principalmente em função da queda nos preços da gasolina, do etanol, da cebola, da batata-inglesa e do tomate.

Balanço

  • A exclusão de itens mais voláteis ou subordinados a decisões do setor público, incluindo estatais como a Petrobrás, ajuda a antever quais tendências têm prevalecido. E esse comportamento, como já apontado neste espaço, não parece referendar os diagnósticos de uma atividade econômica “superaquecida” que têm fornecido base para a tomada de decisões do Copom.
  • Num exercício realizado pela coluna, gasolina e etanol, em queda respectivamente de 0,66% e de 1,22% na quadrissemana terminada em 13 de setembro, tiveram influência positiva de 0,043 pontos, ajudando a conter a inflação. Em contrapartida, os aumentos nos custos dos planos de saúde (0,58%), energia elétrica (0,84%) e passagem aérea (4,51%) ajudaram a puxar o índice em 0,066 pontos. No balanço final, os cinco itens relacionados acima tiveram influência de 0,023 pontos.
  • Com a exclusão daqueles itens do cálculo do IPCA, a variação dos demais produtos ficou limitada a 0,11%. Nas quatro semanas de agosto, considerado o mesmo grupo de produtos, a variação havia sido de 0,16%. Houve nítida desaceleração na velocidade de alta daqueles preços, com consequente esvaziamento de focos eventuais de pressão inflacionária.
  • Segundo a equipe de macroeconomistas do Itaú Unibanco, o IPCA-15 de setembro “veio significativamente abaixo” da expectativa do banco, com os dados desagregados mostrando comportamento “bem melhor” do que o esperado, “especialmente em função da surpresa baixista em serviços subjacentes” (que exclui os grupos comunicação, cursos regulares e passagens aéreas).
  • Ainda de acordo com o banco, parte dessa “surpresa baixista” naquela área “pode ser atribuída à volatilidade de itens específicos, como cinema e seguro de veículos”. Ao mesmo tempo, “serviços subjacentes ligados a mão de obra e alimentação fora do domicílio seguem comportados, a despeito do mercado de trabalho apertado”. Vale dizer, aqueles setores não vêm repassando ou não têm conseguido repassar integralmente aumentos de salários aos preços finais de seus serviços, o que mais uma vez não parece refletir um mercado sobreaquecido.
  • A variação média dos preços dos serviços “subjacentes” já havia recuado de 0,39% na quadrissemana terminada na primeira quinzena de agosto para 0,28% nas quatro semanas do mesmo mês. E passaram a registrar variação nula nas quatro semanas finalizadas em 13 de setembro, diante de uma expectativa de alta de 0,34%. O grupo serviços, considerado em toda sua extensão, saiu de uma elevação de 0,24% em agosto para 0,17% nas duas primeiras semanas de setembro (frente a uma projeção de aumento de 0,50%).
  • Ainda de acordo com o Itaú Unibanco, tomando a média móvel trimestral, “com dados dessazonalizados e anualizados”, o índice de variação dos preços dos serviços subjacentes desacelerou de 4,70% para 4,0%, ao mesmo tempo em que a taxa de variação dos itens incluídos no núcleo dos preços industriais subjacentes saiu de 2,6% para 2,4%, com a média dos núcleos de preços saindo de 4,2% para 4,0%.
  • Ainda de acordo com a média dos núcleos, agora na taxa acumulada em 12 meses, a inflação saiu de 3,76% em julho para 3,70% em agosto e para 3,61% em setembro, sempre considerando o IPCA-15 de cada período. Para relembrar, a média dos núcleos havia experimentado alta de 5,11% em setembro do ano passado, ainda na variação em 12 meses.

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