Coluna

Mercado esforça-se para animar a retomada e fala em queda de “só” 5%

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 22 de agosto de 2020

Lauro Veiga Filho

Consultorias
e equipes econômicas de grandes bancos correram às pranchetas nas últimas
semanas para refazer suas estimativas em relação ao desempenho da economia
neste ano, melhorando os prognósticos. Mas apenas relativamente. Ainda assim,
passaram a mostrar os novos números extraídos de seus modelos macrométricos
como a confirmação final e absoluta de que a atividade econômica deve supostamente confirmar as alucinações do superministro da Economia,
que continua a mencionar uma retomada em “V” (quer dizer, uma forte queda
seguida de uma recuperação vigorosa, recompondo rapidamente toda a perda
causada pela crise).

Mas,
afinal, que melhoria “tão grande” foi essa? Ao invés de um retrocesso entre
6,0% e 7,0%, um tombo que poderá variar de 4,5%, nas previsões mais
“otimistas”, a 6,0% nos 12 meses deste ano frente a 2019, com a maior parte das
estimativas rodando em torno de 5,0%. Antecipa-se, ainda, uma variação ao redor
de 3,5% para o próximo ano, o que parece ser ainda pura adivinhação, a se
considerar as incertezas ainda presentes e os riscos não afastados de todo de
uma recaída nos casos de contaminação pelo Sars-CoV-2, o que poderia exigir a
reintrodução de medidas mais duras de afastamento e isolamento social.

Na
verdade, mesmo com muita boa vontade, as apostas do mercado, por enquanto, não
sancionam o otimismo oficial. Sugerem, no máximo, que a economia conseguirá
repor em 2021 parte importante das perdas já contratadas para este ano, na
média. Se a vacina de fato desembarcar por aqui a tempo de ser distribuída e
permitir a imunização da maior parte da população por volta de meados do
próximo ano, tarefa que exigirá esforços e coordenação não demonstrados durante
a pandemia, pode-se imaginar um crescimento de maior fôlego lá pela segunda
metade do ano que vem, talvez um pouco mais além, já no trimestre final de
2021. Por enquanto, não só o lado real da economia, mas a própria política
econômica e a persistente campanha em favor da adoção de medidas de ajuste
fiscal em plena crise podem comprometer as perspectivas de uma retomada
persistente e de duração mais prolongada.

Retomada
ilusória

A
melhora nos números trabalhados nas planilhas de bancos, consultores e
economistas, levou em conta os dados já disponíveis para os setores de
serviços, comércio e indústria, entre outras variáveis. De acordo com o
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE),na passagem de maio para
junho, os serviços avançaram 5,0%, com altas de 8,0% e 12,6% para o volume de
vendas no varejo restrito e ampliado, respectivamente, e avanço de 8,9% para a
produção industrial. Não é preciso lembrar que essa aparente melhoria veio na
sequência de retração das atividades naqueles setores em março e abril. Mas
vale ressaltar, adicionalmente, que os números continuam abaixo dos níveis
observados em idênticos períodos de 2019. No setor de serviços, a queda em
relação a junho do ano passado chegou a 12,1%, com perda acumulada no primeiro
semestre deste ano de 8,3%. O setor encontrava-se, em junho, quase 24,0% abaixo
de seu nível mais elevado, registrado em novembro de 2014, antes da recessão, e
precisaria crescer nada menos do que 17,0% apenas para retornar aos níveis
observado em fevereiro deste ano.

Balanço

·  
Na
economia, obviamente, nem todos os setores enfrentam os mesmos problemas e,
eventualmente, alguns conseguem apresentar números melhores do que outros. Por
exemplo, mesmo no setor de serviços, o mais castigado pela pandemia, o segmento
de tecnologia de informação e comunicação precisaria avançar mais 0,7% para
compensar as perdas registradas desde fevereiro.

·  
Mas
os serviços prestados às famílias, com destaque para hotéis, pousadas, bares e
restaurantes, teriam que crescer ainda 105,2% apenas para voltar à situação
registrada em fevereiro. Para as atividades de alojamento e alimentação, o
crescimento exigido supera ligeiramente 113%.

·  
No
varejo, o chamado comércio restrito havia crescido 0,5% em junho, comparado ao
mesmo mês de 2019, com elevação discreta de 0,9% para o varejo ampliado (que
inclui concessionárias de veículos e motos, lojas de autopeças e de materiais
de construção, além do varejo tradicional). Mas no acumulado do semestre, os
dois segmentos apresentavam baixas, pela ordem, de 3,1% e de 7,4%.

·  
Foi
o pior desempenho do setor para o período desde o primeiro semestre de 2016,
ainda na recessão mais recente. Considerando seu melhor momento, observado em
outubro de 2014, o varejo restrito apresentava baixa de 4,8%. No varejo
ampliado, que atingiu sua melhor fase em agosto de 2012, a diferença para menos
girava ao redor de 12,0% (em função da queda abissal nas vendas de veículos,
pincipalmente).

·  
A
indústria não surge muito melhor na fita. Ainda que a produção tenha apresentado
crescimento de 8,9% em junho, na comparação com maio, para a indústria como um
todo, registrou-se queda de 9,0% frente a junho de 2019, com o semestre
apontando perdas de 10,9%. Se comparado a abril de 2018, antes da greve dos
caminhoneiros que paralisou a economia em maio daquele ano, a produção apontava
ainda um tombo de 15,4%.

·  
A
indústria de transformação, mais relevante nesta área, chegou a apresentar um
salto de 9,9% de maio para junho, mas enfrentou perdas de 10,1% em relação ao
sexto mês do ano passado, encerrando a primeira metade de 2020 com retração de
11,9%. A queda frente a abril de 2018 chegou a 15,5%.

·  
Sem
o mercado doméstico, a indústria enfrenta ainda dificuldades para exportar sua
produção, já que a crise afetou igualmente a demanda externa (que já vinha
fraquejando desde o ano passado, a bem da verdade).

·  
Medida
em volume, as vendas externas de bens manufaturados desabaram 26,1% no segundo
trimestre deste ano, frente ao mesmo período de 2019. Foi o quarto trimestre em
queda, o que dá uma dimensão das dificuldades que a indústria brasileira tem
enfrentado. As exportações recuaram 1,6% no terceiro trimestre de 2019,
baixaram 13,8% no quarto trimestre e concluíram o primeiro trimestre deste ano
com redução de 11,7%.

 

Compartilhe: