Mercado retira da “mesa de apostas” previsão de deflação para maio

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 28 de abril de 2022

Os resultados mais recentes das pesquisas de preços levaram os mercados a retirarem da “mesa de apostas” as estimativas de uma deflação (queda de preços) para maio. Esse tipo de previsão, que chegou a frequentar até mesmo o relatório Focus do Banco Central (BC), destinado a aferir as “expectativas” do mercado em relação aos preços e à atividade econômica em geral, tomava como base a decisão do governo de antecipar para 16 de abril passado a entrada em vigor da “bandeira verde” para as tarifas de energia, numa tentativa de produzir índices inflacionários mais baixos. Mas as tendências em cena para os demais preços produziram a revisão para cima nas projeções para a taxa de inflacionária em maio.

A queda nos preços da tarifa residencial de energia começou a ser capturada por alguns índices, a exceção ainda do indicador de preços do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O Índice de Preços ao Consumidor Semanal (IPC-S), do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), registrou baixa de 2,08% para a tarifa de energia nos 30 dias terminados em 22 de abril, saindo de uma elevação ainda de 2,30% no período de quatro semanas encerrado em 15 de abril, uma semana antes.

A redução na conta de energia das famílias veio acompanhada de desaceleração no ritmo de alta dos custos dos alimentos, saindo de alta de 2,10% na primeira semana de abril para 1,82% duas semanas depois, do vestuário (de 1,35% para 1,11%) e dos transportes, que haviam registrado salto de 3,60% nas quatro semanas finalizadas no dia 15 deste mês e passaram a subir 2,86% até a terceira semana de abril. Neste caso específico, o índice do setor respondeu à menor variação apresentada pela gasolina, passando de uma elevação de 7,80% até a segunda semana de abril para uma variação de 5,45%. Em consequência, o IPC-S desacelerou de 18,4% para 1,47% entre a segunda e a terceira quadrissemana deste mês, na medição do Ibre.

Agora, sem queda

No relatório do BC, os mercados chegaram a flertar com uma inflação negativa de 0,21% para maio há pouco mais de quatro semanas, índice revisado para uma elevação média de 0,05% na medição de 15 de abril e novamente revisto em 22 de abril, quando o setor financeiro passou a apostar numa inflação de 0,20% para o próximo mês. Até o começo de abril, a equipe de macroeconomia do Itaú BBA ainda trabalhava com uma projeção de -0,02% igualmente para maio, o que já correspondia a uma revisão diante da queda de 0,26% projetada em março (sempre considerando o mês de maio). Ontem, o banco operou nova revisão e passou a estimar inflação positivo de 0,29%, antecipando ainda uma taxa de 0,46% para junho (ligeiramente acima das expectativas do mercado financeiro em geral, que antecipa algo em torno de 0,40% para o mesmo mês).

Balanço

  • O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) de abril, aferido pelo IBGE, manteve-se em aceleração nos 30 dias concluídos em 13 de abril, batendo em 1,73% diante de 1,62% nas quatro semanas de março. O IPCA-15 de março, apenas para comparação, havia alcançado 0,95%. Aquela foi a maior variação mensal desde fevereiro de 2003, quando o índice havia alcançado 2,19%. O índice não subia tanto assim em um mês de abril desde 1995, há 27 anos.
  • O custo da energia para as famílias havia anotado variação de apenas 0,15% em fevereiro deste ano, mas elevou-se para 0,37% nas quatro semanas fechadas na primeira quinzena de março, fechando o mesmo mês com variação de 1,08%. No IPCA-15 de abril, a energia aumentou 1,92% e respondeu por 5,4% da inflação acumulada em 30 dias. Um terço do IPCA-15 deste mês pode ser explicado pelo aumento nos preços dos combustíveis, numa alta de 7,54% (diante de 6,70% em março).
  • Em conjunto, energia, combustíveis, gás de cozinha e ônibus urbano responderam por alguma coisa próxima de 45,6% do IPCA-15, subindo em conjunto em torno de 0,80% (diante de 0,67% em março). Os demais preços não sofreram maiores alterações, variando em torno de 0,94% na medição mais recente, o que se compara com um índice de 0,95% nos 30 dias de março.
  • Os chamados “núcleos” da inflação, indicadores que excluem ou reduzem a influência de alguns preços, como alimentos no domicílio, produtos e serviços de alguma forma administrados pelo setor público, preços mais voláteis, além de desconsiderar ou amenizar os impactos de altas e quedas mais expressivas, haviam recuado de 0,98% para 0,84% entre fevereiro e março. Mas subiram 0,90% na primeira metade de abril (considerando a quadrissemana encerrada no período), demonstrando pressões altistas de certa forma ainda persistentes.
  • Ao longo das quatro semanas finalizadas em 13 de abril, o índice de dispersão, que registra o percentual de produtos e serviços em alta durante o período, atingiu o percentual mais elevado em 12 meses, alcançando 78,7%, o que se compara com 61,0% em abril do ano passado. A tendência sugere que os aumentos estiveram distribuídos entre um número de itens mais expressivo do que nos meses anteriores, mas deve-se ponderar que o índice de dispersão não registra a intensidade de alta daqueles itens, embora seja sugestivo de um processo inflacionário que vai além de combustíveis e energia.
  • Em outra ponderação, excluídos energia, combustíveis, gás de cozinha (em botijão e encanado) e as tarifas do transporte coletivo urbano (influenciadas pelo encarecimento do óleo diesel), a participação dos demais preços no índice geral de inflação recuou de 58,6% nos 30 dias de março para 54,4% no IPCA-15 deste mês. A entrada em vigor da bandeira verde para a energia residencial, na antecipação do Itaú BBA, tende a reduzir o IPCA de abril para 1,01%, diante de uma expectativa de 0,90% apurada pelo Focus.
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