Mercados revisam previsão para PIB, mas “esquecem” risco de crise energética

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 15 de setembro de 2021

Na visão dos mercados, os riscos para a economia nos próximos meses concentram-se quase exclusivamente em torno de dois pontos, a saber, a perspectiva de alta da inflação nos meses restantes deste ano e também em 2022 e os cenários antecipados pelos agentes financeiros para as contas do governo central no próximo ano. O temor, claro, pode ser resumido, no caso do tal “risco fiscal”, à possibilidade bastante concreta de que o governo tenha, mais uma vez, que driblar a regra do teto de gastos para acomodar despesas com emendas parlamentares, o tenebroso “orçamento secreto”, que tem sustentado a base política bolsonariana no Congresso, e o pagamento de precatórios – referentes a despesas não pagas lá atrás e que a Justiça obrigou o governo a honrar.

Uma avaliação estreita e enviesada dos riscos adiante. A carta de arreglo apresentada ao País após semanas, meses de ameaças constantes à ordem estabelecida, ao estado de direito e às instituições, serviu para acalmar os mercados temporariamente e até injetar algum ânimo, já revertido. A realidade tem se imposto às projeções do setor financeiro e de consultorias badaladas, que agora correm de volta às planilhas para refazer contas. As previsões para o Produto Interno Bruto (PIB) neste ano recuaram de qualquer coisa ao redor de 5,3% a 5,7% para algo em torno de 5,0%.

A revisão mais severa atingiu as expectativas em relação ao próximo ano. Nada a ver com as ameaças de desabastecimento e racionamento de energia, diante do risco bastante concreto de esgotamento dos reservatórios das principais usinas do País, o que limitaria grandemente a capacidade de geração elétrica. As projeções para o PIB, que agora desabam para índices abaixo de 1,0% em 2022, foram largamente influenciadas pelo risco de taxas de inflação mais elevadas do que o esperado para o próximo ano e, como não poderia deixar de ser, pelo tal “risco fiscal” (que se resume, não custa reforçar, à expectativa de descumprimento do teto de gastos).

Pressões

O risco de faltar energia diante de condições hidrológicas excepcionalmente ruins, com todos os impactos que esse cenário teria sobre a economia brasileira como um todo, não merece referências diretas. Para alguns departamentos econômicos de grandes bancos, a questão poderia ser resumida especificamente nos impactos que o aumento das tarifas de energia vem gerando e tende a produzir neste restante de ano e ainda em 2022 sobre a inflação – e, portanto, sobre as decisões do Comitê de Política Monetária (Copom), que não precisa exatamente de estímulos para aumentar a taxa básica de juros. Nas previsões mais citadas pelo mercado, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) tenderia a fechar o ano em 8,0% (depois de atingir, em agosto, 9,68% na taxa acumulada em 12 meses). De toda forma, a previsão anterior colocava o IPCA ao redor de 7,0% neste ano. Para o Itaú Unibanco, que esperava 7,7% para o IPCA deste ano, a inflação deverá ficar mais próxima de 8,4%.

Balanço

  • A projeção mais atual do banco leva em conta o aumento de 49,6% decretado recentemente pela Câmara de Regras Excepcionais para Gestão Hidroenergética (CREG) e da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), resultado da criação da chamada “bandeira tarifária de escassez hídrica”, numa bandeira adicional ao nível vermelho 2 que vigorou até agosto. A tarifa exta, a ser cobrada a cada 100 quilowatts-hora consumido, passu de R$ 9,492 para R$ 14,20 (contrariando estudos técnicos que sugeriam a necessidade de adotar uma bandeira tarifária mais próxima de R$ 15).
  • Tudo mantido como está e contando com a colaboração de São Pedro, que terá algum trabalho adiante para normalizar os níveis de chuva durante o verão brasileiro, pelo menos em intensidade suficiente para recompor os reservatórios do Centro-Oeste e Sudeste, a bandeira da escassez hídrica vigoraria até abril de 2022 e a tarifa da energia poderia voltar ao “normal”, trazendo a inflação mais para baixo no próximo ano.
  • Diante da perspectiva do fenômeno La Niña, que tenderia a manter temperaturas médias mais altas no Centro-Oeste e um clima mais seco do que o normal, contar com a possibilidade de que a crise hídrica literalmente se desafaça com a voltas das chuvas parece ser uma aposta arriscada, a esta altura.
  • O dado mais recente do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), referente a ontem, indicava que os reservatórios do Sudeste e Centro-Oeste, que respondem por praticamente 71,0% da energia armazenada pelo conjunto das usinas hidroelétricas do País, estavam com 18,58% de sua capacidade, o nível mais baixo para o período em pelo menos duas décadas. Em setembro de 2001, ano do apagão, apenas para comparar, os reservatórios da região ocupavam 20,69% de sua capacidade útil.
  • Ainda de acordo com o ONS, o Brasil terá que arranjar 5,5 gigawatts médios de setembro a novembro para evitar o risco de colapso na geração hidroelétrica. Isso corresponderia a 12,0 mil GWh, praticamente toda a energia gerada por Itaipu. Parece ser um risco grande o suficiente para ser varrido para debaixo do tapete.
  • A revisão do cenário aguardado para a economia em 2022, sustenta o Itaú Unibanco, “decorreu principalmente da nossa expectativa de taxa de juros mais elevadas”, por conta da previsão de inflação mais alta. “Além disso, acreditamos que a política fiscal será contracionista, mesmo levando em conta o novo programa de transferência de renda, pois o gasto público primário total deve recuar para nível próximo ao observado em 2019 em termos reais”, continua.
  • O banco antecipa ainda desaceleração para “o setor industrial global e queda de preços de commodities ano que vem. Por último, a atividade econômica não se beneficiará mais do impulso advindo da reabertura do setor de serviços, algo que, na nossa visão, ficará restrito ao segundo semestre deste ano”, complementa. Faltou dizer que a ameaça energética pode complicar todo o quadro.
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