sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Mesmo com recordes no mercado de trabalho, inflação mostra recuo

Lauro Veiga Filhopor em
Mesmo com recordes no mercado de trabalho, inflação mostra recuo
Foto: Agência Brasília

Os dados do mercado de trabalho continuam a mostrar vigor, com recordes para o total de ocupados em toda a economia e para a massa de rendimentos reais dos trabalhadores, com alguma desaceleração no ritmo de aumento do rendimento médio real, como apontaram os dados da edição mais recente da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC), divulgada nesta semana pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O total de trabalhadores ocupados no trimestre finalizado em agosto deste ano alcançou a marca de 103,477 milhões, o que reduziu o número de desempregados para 5,784 milhões, correspondendo a uma taxa de desemprego de 5,3%, muito próxima dos níveis históricos mais baixos desde que a versão atual da pesquisa foi iniciada, em 2012.

Desde igual trimestre de 2021, quando a economia se recuperava de choques sequenciais produzidos pela pandemia, que levou a uma estagnação da atividade nos meses seguintes a fevereiro do ano anterior, desestruturando as cadeias globais de suprimento e provocando mais de 700 mil mortes durante um governo inepto e negacionista, registraram-se fortes avanços para o emprego, a renda e a massa salarial real. Aqueles movimentos vieram acompanhados, no entanto, de baixa nas taxas anuais de inflação.

Um conjunto de fatores contribuiu para elevar a inflação no Brasil em 2021, com a desorganização nas cadeias de abastecimento gerando pressões altistas preços essenciais, com destaque para o petróleo. A crise energética doméstica, gerada pela estiagem prolongada, que derrubou os níveis dos reservatórios e obrigou o acionamento de usinas termelétricas poluentes e mais caras, levou ao aumento da conta de luz para as famílias, recrudescendo as pressões inflacionárias. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), na taxa acumulada em 12 meses, havia alcançado 9,68% em agosto daquele ano.

Evidentemente, fatores conjunturais e climáticos, além de desajustes em todo o mercado internacional, estiveram por trás da alta da inflação à época. A despeito das incertezas no período e de uma política econômica errática, seria mesmo de se esperar que pressões daquela sorte fossem absorvidas pela economia, reduzindo seu poder de puxar os índices inflacionários para cima. A se dar crédito aos teóricos da ortodoxia econômica, a queda da inflação nos meses e anos seguintes tenderia a ser dificultada pelo aquecimento do mercado de trabalho, mas principalmente pela alta dos salários, o que deveria retroalimentar o avanço dos preços. Não parece ter sido o que de fato ocorreu.

 

Balanço

O IPCA acumulado em 12 meses despencou para 4,22% em agosto deste ano, numa baixa de 5,46 pontos percentuais em relação à taxa anual registrada no mesmo mês de 2021 (ou ainda 7,91 pontos inferior ao índice acumulado entre maio de 2021 e abril de 2022). Em agosto de 2021, a PNADC registrava 90,033 milhões de ocupados, recebendo em média R$ 3.238, o que produziu uma massa de rendimentos reais próxima de R$ 284,887 bilhões.

Nos cinco anos seguintes, o número de trabalhadores ocupados cresceu 14,9% com a abertura de 13,444 milhões de vagas na economia, o que elevou o número de ocupações para o recorde de 103,477 milhões. O rendimento médio, em termos reais, quer dizer, já descontada a inflação, aumentou praticamente 16,7%, fechando o trimestre junho a agosto deste ano em R$ 3.777.

A combinação daqueles resultados produziu um salto real de 35,3% para a massa total de rendimentos, que atingiu R$ 385,566 bilhões, maior valor da série histórica. Houve um ganho aqui de R$ 100,679 bilhões. A se considerar os livros textos da teoria ortodoxa, as pressões sobre a demanda, originadas pelo ganho de renda das famílias, em geral tenderiam a produzir mais inflação. Os dados oficiais indicam outra perspectiva, já que as taxas inflacionárias baixaram no período.

Num período de tempo mais curto, os dados da PNADC mostram a criação de mais 774,0 mil ocupações na saída do trimestre terminado em maio para os três meses imediatamente seguintes, numa variação de 0,8%. Houve alguma perda de ímpeto, já que o avanço nos dois trimestres anteriores havia superado a marca de 1,0 milhão de ocupações.

O desempenho foi melhor, no entanto, na comparação com o trimestre junho a agosto do ano passado, com abertura de 1,060 milhão de vagas, o que se compara com a criação de 742,0 mil e 899,0 mil ocupações nos trimestres encerrados, respectivamente, em junho e julho.

A informalidade assumiu certo protagonismo na comparação entre os trimestres de março a maio e os três meses seguintes, respondendo por 68,2% das novas ocupações geradas em todo mercado do trabalho. Entre os dois períodos, o número de ocupados informais, sem carteira e sem direitos trabalhistas, passou de 38,269 milhões para 38,825 milhões, quase 528,0 mil a mais. Mas a comparação com o trimestre junho a agosto do ano passado mostrou ligeiro recuo de 0,1% (com encerramento de 53,0 mil ocupações informais).

O setor “formal”, com exclusão de funcionários públicos sem carteira, numa estimativa da coluna, gerou 61,131 milhões de ocupações, número muito próximo do 60,690 milhões de empregos registrados entre março e maio, algo como 0,3% a mais ou 171,0 mil vagas acrescentadas ao total de trabalhadores com carteira ou registro no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas (CNPJ).

Nos últimos 12 meses, no entanto, predominaram as ocupações formais, que somavam 60,227 milhões no trimestre junho a agosto e cresceram 1,50% desde então, com abertura de 904,0 mil colocações novas – o que representou 85,3% do aumento total registrado para o pessoal ocupado.

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