Mesmo sem o “efeito Itaipu”, taxa de inflação continua negativa em agosto
As edições digitais dos jornalões, incluindo aqueles especializados em economia e negócios, destacaram a queda da inflação no que chamam de “prévia” do índice inflacionário, desta vez referente ao mês em curso. Mas atribuíram o comportamento baixista quase exclusivamente ao bônus distribuído pela Usina Hidrelétrica de Itaipu, que ajudou a derrubar o custo das tarifas de energia elétrica no período. A queda de fato ajudou a puxar o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) de agosto para baixo, mas não foi o único fator.
Num exercício feito pela coluna com base em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), considerando o peso dos principais itens no cálculo do índice, mesmo com a exclusão da energia elétrica do cálculo, o IPCA-15 de agosto ainda apresentaria uma taxa negativa (ou deflação) de 0,14%, ligeiramente mais intensa do que o recuo de 0,06% observado nos 30 dias de julho, seguindo o mesmo critério. O IPCA-15 deste mês, referente ao acompanhamento de preços feito pelo instituto entre 16 de julho e 14 de agosto, ficou negativo em 0,40%, numa redução mais intensa do que a esperada pelos mercados, que vinha direcionando suas previsões para uma deflação de 0,33% em média. Mas não apenas – foi ainda a taxa mais baixa desde o IPCA-15 de agosto de 2022, quando o IBGE havia anotado deflação de 0,73%. Para comparação, o indicador havia registrado variação de 0,07% em julho, saindo de 0,58% em maio.
Neste mês, a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) aprovou a distribuição de R$ 872,1 milhões relativos ao saldo positivo na conta de comercialização de energia elétrica de Itaipu, resultando na cobrança de tarifas relativamente mais baixas do consumidor em todo o País, numa queda de 6,25% na comparação entre os valores médios aferidos nas duas semanas finais de julho e a primeira quinzena de agosto e as quatro semanas imediatamente anteriores, contribuindo em mais de dois terços para a queda do IPCA-15. Como a redução veio abaixo do esperado pelo mercado ao longo do período, conforme o departamento econômico do Bradesco, pode-se esperar “algum alívio referente ao bônus” também na taxa de setembro.
Mas os juros…
Na prática, a tendência de preços mais bem-comportados tem prevalecido desde o final do primeiro semestre, sem que isso tenha “sensibilizado” a turma dos juros altos, que se reúne periodicamente no Comitê de Política Monetária (Copom), composto exclusivamente pela alta direção do Banco Central (BC). Os juros básicos continuam em níveis escorchantes e vinham passando por uma redução enervantemente lenta desde meados de março deste ano, quando estava ainda em 15,0% ao ano, passando a frequentar faixa mais próxima de 14,0% desde o final da primeira semana de agosto, um corte modestíssimo de um ponto percentual, mesmo com o IPCA chegando a 4,24% no acumulado em 12 meses até o dia 14 passado, abaixo do teto da meta inflacionária, definido em 4,50%. Se antes da mudança os juros reais encontravam-se em quase 9,50% ao ano, considerando as expectativas do mercado para o IPCA deste ano, na faixa de 5,02%, neste momento a taxa real estaria ao redor de 8,60% – níveis ainda exorbitantes.
Balanço
A despeito dos ataques iracundos perpetrados pela líder laranja, os dados sobre a inflação aqui dentro parecem sugerir que a economia já estaria “digerindo” pressões inflacionárias eventualmente relacionadas às incertezas causadas pelos conflitos geopolíticos em cena, incluindo a ofensiva continuada do governo dos Estados Unidos na área comercial contra seus principais parceiros e todo o restante do globo e a guerra movida pelo mesmo governo, em associação com Israel, contra o Irã.
Na aferição da equipe de macroeconomia do Bradesco, os preços monitorados – quer dizer, de alguma forma controlados ou influenciados por decisões do poder público – saíram de uma elevação de 5,3% para alta de 4,8% no acumulado do ano, em parte, claro, por conta da redução das tarifas da energia residencial. De toda forma, ponderam os economistas do banco, o choque inflacionário causado pela alta do petróleo a partir do final de fevereiro para já estar em dissipação.
Os preços dos combustíveis, de fato, têm frequentado terreno negativo desde a primeira quinzena de maio, quando haviam recuado 1,47% (considerando as quatro semanas finalizadas em 15 de maio). Na medições mais recentes, o ritmo de queda oscilou entre 0,90% até as duas primeiras semanas de julho e 1,43% no IPCA-15 de agosto. Nos 30 dias encerrados em 14 de agosto, os preços da gasolina do etanol e do óleo diesel anotaram baixas, respectivamente, de 1,2%, 3,63% e de 0,71%.
Ainda na área de energia, o IBGE relembra que, neste mês, ainda continuava em vigor a bandeira tarifária amarela, que acrescenta R$ 1,885 na conta de luz a cada 100 quilowatts consumidos pelas famílias. O “efeito Itaipu” compensou a cobrança, assim como amortizou os reajustes tarifários de 19,55% em Curitiba, em vigor desde 24 de junho (e portanto já perdendo impacto no cálculo da inflação); de 14,89% a partir de 19 de junho em Porto Alegre; e 8,85% para São Paulo, mas com vigência desde 4 de julho. Vale dizer, alguns daqueles aumentos deixarão de influir na “inflação da energia” em setembro, mas menor impacto ainda em agosto.
Além da energia e dos combustíveis, o IPCA-15 deste mês registrou o impacto da queda de 13,30% nos preços das passagens aéreas, que haviam experimentado alta de 11,67% em julho. Considerando a metodologia adotada para cálculo do IPCA e o curto período para a reversão de sinais nesta área, pode-se antecipar a manutenção da tendência baixista para as próximas semanas igualmente.
Os preços dos alimentos mantiveram comportamento baixista no IPCA 15 de agosto, num recuo de 0,57%, ligeiramente menos intenso do que a redução de 0,67% observada em julho. Mantido o ritmo até o final de agosto, será o terceiro mês de queda nos preços dos alimentos. Na visão do Bradesco, o custo de alimentação tenderá a trazer “ligeiro alívio” para o bolso dos consumidores principalmente por conta da queda dos preços dos produtos in natura.
“Por outro lado, o El Niño deverá exercer pressão de alta sobre o grupo no fim deste ano e no início do próximo. Em decorrência do evento climático, incorporamos 2% à projeção de alimentos para 2027”, adianta o banco, que no entanto mantém sua previsão para o IPCA neste ano em 5,0%.
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