Mesquinharia, crueldade e dissimulação por trás da guerra provocada pelos EUA

Lauro Veiga Filhopor Lauro Veiga Filho em 3 de março de 2026

As justificativas fabricadas pela Casa Branca para o ataque sorrateiro ao Irã, em conjunto com forças israelenses, e os cenários produzidos para o que poderá vir daqui em diante devem ser classificados como mentiras deslavadas, no primeiro caso, e fantasias desbragadas no segundo. O uso do adjetivo aqui não parece deslocado ou precipitado, especialmente quando se considera que as duas partes vinham mantendo negociações em Genebra, oficialmente para dissuadir Teerã de levar adiante supostos objetivos nucleares. De toda forma, à alardeada facilidade de uma vitória, “seja qual for a duração” do conflito, nas palavras de Donald Trump, deveriam ser contrapostas as imagens da fuga vergonhosa das forças estadunidenses daquele país em 1979, no curso da chamada Revolução Islâmica, que resultou na queda do então Xá do Irã, Mohammad Reza Pahlavi, e na consequente expulsão dos EUA.

A série de bombardeios em território iraniano, para além das mortes injustificadas de civis e da eliminação das principais lideranças daquele país, numa tentativa de desestabilizar o regime instalado no poder há quase cinco décadas e impor aos iranianos um governo títere, desprezando a complexidade histórica em toda a região do Oriente Médio, carrega também objetivos geopolíticos de prazo mais longo, como se supõe. O ataque, sob certo ponto de vista, pode ser avaliado como uma reação dos EUA ao processo de decadência que enfrenta e, mais imediatamente, como parte da ofensiva estadunidense para conter a presença e frear a influência chinesa na região e no restante da Ásia. Por óbvio, a guerra já deflagrada atropela o que restava do sistema de regulação global, a legislação internacional e o arranjo arquitetado entre as nações desde o final da Segunda Grande Guerra como forma de preservar a paz.

Não devem ser desprezados motivos mais domésticos e mesquinhos, já que a solução bélica tem sido um recurso utilizado historicamente por governantes nos EUA como estratégia de dissuasão, com o propósito de desviar atenções e soterrar o noticiário em geral considerado muito negativo para aqueles instalados no poder mais alto no país, com potencial para gerar desgastes mais severos, internamente, do que o ataque a terceiras nações, embora este de consequências muito mais dramáticas para as populações sob ataque, em sofrimento e mortes.

Riscos e incertezas
As consequências no plano geopolítico e econômico são imprevisíveis, dadas as incertezas produzidas por uma guerra e ainda diante do potencial de uma conflagração daquele tipo para gerar crises. Os países do Oriente Médio, com estaque para a Arábia Saudita, produzem entre 27% e 31% do petróleo consumido globalmente, abrigando ainda perto de metade das reservas de óleo bruto em todo o mundo. Mais do que isto, o Estreito de Ormuz, que separa o Irã dos Emirados Árabes Unidos e de Omã, responde pelo escoamento de quase um quinto de toda a produção global de petróleo, cumprindo função logística estratégica para a economia, mas especialmente para Índia, Japão, Coreia do Sul e China.

Balanço
· Os mercados futuros de petróleo reagiram com o nervosismo esperado diante dos ataques lançados pelos EUA e pelo governo de Tel Aviv contra o Irã. Entre quinta-feira e domingo, os preços do barril do petróleo tipo Brent, produzido no Mar do Norte, subiram quase 10,8% com alta de 10,4% para o barril do West Texas Intermediate (WTI, denominação do petróleo mais pesado produzido pelos EUA e negociado na Bolsa Mercantil de Nova York).
· Segundo a plataforma Investing.com, as cotações ontem fecharam em quase estabilidade, na faixa de US$ 71,33 para o barril do WTI e de US$ 78,35 para o Brent. Para relembrar, até quinta, dia 26, os preços havia encerado os pregões diários nos mercados de futuros em US$ 65,21 e US$ 70,75 naquela mesma ordem, significando ainda elevações em torno de 9,4% para o barril de WTI e de 10,7% para o Brent.
· Projetar impactos sobre a inflação brasileira e mesmo sobre os resultados da balança comercial (exportações menos importações) e da “conta petróleo”, incluindo seus derivados, no caso brasileiro, parece ser de uma ousadia desmesurada, dado o nível geral de incertezas num conflito de desdobramentos dificilmente perceptíveis num horizonte já duvidoso.
· Até aqui, os preços vinham se comportando favoravelmente, com indicações de uma desaceleração após absorvido o choque sazonal causado pela alta das mensalidades e matrículas escolares. Com ajuda dos combustíveis inclusive, que saíram de alta de 2,14% em janeiro, conforme aferição do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), para variação de 1,38% nas quatro semanas terminadas em 12 de fevereiro. Os preços da gasolina e do etanol que haviam subido 2,06% e 3,44% nos 30 dias de janeiro, apontaram um ritmo menos acelerado nas duas semanas seguintes, indicando variações de 1,30% e de 2,51%.
· O levantamento feito pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV) para cálculo do Índice de Preços ao Consumidor Semanal (IPC-S) registrou baixa de 0,49% para a gasolina na quadrissemana concluída em 28 de fevereiro, sugerindo mais uma rodada de redução de pressões inflacionárias neste setor.
· O IPC-S havia apresentado alta de 0,50% em janeiro, mas a perda de ímpeto dos preços em geral derrubou o índice para apenas 0,10% no mês passado, com desaceleração mais intensa para os custos da alimentação, que saíram de 0,70% para 0,07%, e para o grupo “educação, leitura e recreação”, que havia subido 1,16% em janeiro e passou a recuar 0,24% (lembrando que o grupo, na definição do Ibre/FGV, inclui as passagens aéreas). No caso dos custos de transportes, a alta de 1,18% observada em janeiro abiu espaço para variação de 0,04% em fevereiro (refletindo a queda nos preços da gasolina, entre outros fatores).
· As pressões inflacionárias no mercado atacadista, como mostram os dados do Índice Geral de Preços-Mercado (IGP-M), apurado entre os dias 21 de janeiro e 20 de fevereiro, igualmente foram esvaziadas. Aquele índice recuou 0,73% depois de subir 0,41% nas quatro semanas imediatamente anteriores. No mesmo período de 2025, o IGP-M havia subido 1,06%. A queda em fevereiro deste ano foi causada pela baixa de 1,18% observada para os preços no setor atacadista, influenciada pelo tombo de 2,95% nos preços agropecuários e pelo recuo de 0,58% nos produtos industriais.
· Para avaliar a intensidade da desaceleração dos preços no varejo, o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) havia apresentado elevação de 0,30% nos 30 dias encerrados em 20 de fevereiro. Na mediação realizada apenas uma semana depois, como mostram os dados do IPC-S, a inflação no setor havia cedido para 0,10%.

 

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