quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Muito barulho por quase nada. E a loucura aparente dos mercados

Lauro Veiga Filhopor em
Muito barulho por quase nada. E a loucura aparente dos mercados
Foto: Paulo Pinto/ABr

Numa notória agência de notícias, especializada em assuntos financeiros, estampo a manchete chocante em suas páginas no meio da tarde de ontem, indicando que os “banqueiros mais riscos do Brasil” teriam engolido uma perda nada irrisória de US$ 10,0 bilhões com o nervosismo instalado nos mercados aqui dentro, resultando numa queda de 13,88% no índice de ações da B3, a bolsa brasileira, instalada no coração da capital paulista, levando ainda a uma alta nos juros nos contratos futuros negociados dia a dia no mercado, com o dólar subindo pouco mais de 8,0%.

Seria um evento e tanto, de fato, mas nada que o setor não conseguisse acomodar em seus balanços. Afinal, na soma dos dez maiores bancos brasileiros, aquela perda corresponderia a pouco mais de 5% do patrimônio líquido, estimado em mais de R$ 1,070 trilhão. Na mesma “reportagem”, a agência noticia que os dez brasileiros mais ricos teriam acumulado perdas ao redor de US$ 15,0 bilhões até o meio dia de ontem em Nova York. Pela cotação de ontem do dólar, seria uma perda de qualquer coisa ao redor de R$ 81,0 bilhões. A tal “reportagem” chega a divulgar que um banqueiro brasileiro, com atuação destacada nos meios políticos, teria perdido quase um terço de sua fortuna em único dia.

Seriam perdas, claro, nada desprezíveis. Não fossem aqueles dados totalmente “furados”, alardeados para gerar uma corrida de venda de papéis por investidores incautos e de menor calibre, que vão pagar de fato o “mico”, para quem se lembra desse jogo de baralho aparentemente em desuso. Primeiro, avalie, rara leitora e raro leitor, a (falta de) lógica da notícia. Seria preciso acreditar que grandes bancos e banqueiros conhecidos por sua agressividade e capacidade de gerar ganhos em manobras e jogadas bilionárias no mercado de ações e títulos teriam decidido vender suas ações e desfazer posições assumidas nos mercados futuros num momento de quedas exacerbadas dos mercados.

 

Perda contábil

Mais claramente, a perda de patrimônio e de riqueza apenas se concretizaria na hipótese de venda de ações e títulos agora desvalorizados. As estimativas apresentadas pela agência noticiosa são meramente contábeis e ocorreriam unicamente se aqueles ricaços decidissem colocar à venda o patrimônio acumulado exatamente em um momento muito desfavorável. Passado esse primeiro momento de agitação, a tendência é que o mercado retome um comportamento mais moderado e mesmo com alguma elevação mais adiante, já que a queda de preços gera oportunidades para quem decidir entrar comprando papéis na baixa.

 

Balanço

Há outro fator a ser considerado. Aqueles setores muito cheios da grana e investidores estrangeiros vinham apostando vitória da oposição no segundo turno das eleições presidenciais e puxando os mercados desde a segunda-feira seguinte ao primeiro turno, o que estimulou a entrada de “peixes miúdos” no mercado, sem o nível de informação dos grandões, que começaram a liquidar suas posições ainda antes da segunda rodada das eleições presidenciais. Na sequência, já conhecido o resultado das urnas, foram seguidos pela “raia miúda”, que vai de fato amargar prejuízos.

Mesmo nesta hipótese, para aqueles investidores que olham mais o longo prazo, as variações ontem na B3 podem causar estragos apenas se decidirem vender suas ações. Caso contrário, o estrago tende a não ser tão duro como sugere o tombo registrado ontem (lembrando que a bolsa havia escalado depois do primeiro turno, com baixa dos juros no mercado futuro e do dólar).

Comparado ao mesmo período de 2022, apenas para ilustrar o raciocínio, o Ibovespa, o índice das ações negociadas na B3, ainda acumula alta de 56,6%, correspondente a uma variação real de quase 30%.

No movimento seguinte, aqueles investidores com negócios lá fora, o que inclui estrangeiros e brasileiros endinheirados, transformaram o lucro de curtíssimo prazo realizado no início do dia em dólares, aumentando a demanda pela moeda estadunidense na ponta e provocando a alta de pouco mais de 8,0% registrada ontem. Mais uma vez, normalizada a procura pelo dólar, a cotação tenderá a se estabilizar mais à frente.

Mesmo porque, a situação das contas externas brasileiras continua bastante favorável, como mostram os dados mais recentes do Banco Central (BC). Em setembro, o déficit na conta de transações correntes desabou 42,13% em relação ao mesmo mês do ano passado, encolhendo de US$ 8,812 bilhões para US$ 5,10 bilhões. O investimento estrangeiro direto no País aumentou 17,79% em igual período, saindo de US$ 9,588 bilhões (apenas 8,81% maior do que o déficit corrente) para US$ 11,294 bilhões (agora mais de 2,2 vezes acima do déficit).

No acumulado entre janeiro e setembro, o País reduziu seu déficit com o resto do mundo de US$ 56,691 bilhões no ano passado para US$ 49,273 bilhões nos nove primeiros meses deste ano, num recuo de 13,08%. A comparação entre os mesmos períodos mostra um aumento de 4,45% no investimento direto, que passou de US$ 72,483 bilhões para US$ 75,709 bilhões. O investimento entre janeiro e setembro deste ano superou o déficit corrente em 53,65% neste ano, diante de uma diferença de 27,86% em igual período do ano passado.

A redução do déficit em transações correntes foi fortemente influenciada pela alta recorde no saldo comercial brasileiro, que escalou de US$ 2,459 bilhões em setembro do ano passado para US$ 6,869 bilhões no mesmo mês deste ano, em alta de 79,34%. O mesmo fator foi decisivo para a melhora na conta no acumulado entre janeiro e setembro, com superávit comercial crescendo 36,24%, de US$ 40,295 bilhões no ano passado para US$ 54,897 bilhões.

Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.