sábado, 5 de setembro de 2026

Nem todas as baleias voam

Luana Avelarpor em
Nem todas as baleias voam
Romance do escritor português Afonso Cruz usa a Guerra Fria como cenário para contar uma história de amor, perda e música

Publicado originalmente em Portugal em 2016 e lançado no Brasil pela Dublinense em 2021, “Nem todas as baleias voam” é um romance que recusa classificação fácil. Afonso Cruz costura espionagem, história e prosa poética numa narrativa cujo fio condutor é a música — e, por extensão, a obsessão de um homem por uma mulher que desapareceu sem deixar rastro.

O pano de fundo é o programa Jazz Ambassadors, iniciativa real da CIA durante a Guerra Fria. O plano consistia em levar grandes nomes do jazz aos países do bloco soviético como estratégia de sedução cultural — uma guerra travada com notas musicais em vez de armas. É nesse cenário que o leitor conhece Erik Gould, pianista de blues que sofre de sinestesia: vê sons e pinta retratos enquanto toca piano. A condição o une ao filho Tristan, que carrega a mesma doença com manifestações distintas. Os dois habitam um mundo em que os sentidos se embaralham de formas que o romance explora com precisão e delicadeza.

O enredo gira em torno do sumiço de Natasha Zimina, mulher de Erik. Ela desaparece sem carta, sem explicação, e o pianista percorre caminhos improváveis em busca dela, sem outra bússola que não o acaso. Cruz não resolve a história com soluções convencionais. O romance acumula elementos heterodoxos: um Museu do Sentido da Vida montado com caixas de sapatos deixadas por crianças em estado terminal, um editor coxo e o chamado Evangelho das Putas Gnósticas. São camadas que constroem uma narrativa densa sem torná-la hermética.

A edição brasileira tem 288 páginas. É um livro que se lê com leveza apesar do peso — o que, para um romance que transita entre thriller de espionagem, ficção histórica e lirismo, não é pouca coisa. Cruz é um dos nomes mais originais da literatura portuguesa contemporânea, e este livro confirma essa posição.

O autor 

Nascido em julho de 1971 na Figueira da Foz, Portugal, Afonso Cruz é escritor, ilustrador, cineasta e músico da banda The Soaked Lamb. Estudou na Escola António Arroio e na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, além do Instituto Superior de Artes Plásticas da Madeira. Trabalhou como cineasta por mais de uma década antes de se dedicar integralmente à literatura.

Tem mais de 40 livros publicados — romances, contos, poesia, teatro, ensaio e literatura infantojuvenil — traduzidos para mais de 20 idiomas. Entre os prêmios que recebeu estão o Grande Prêmio de Conto Camilo Castelo Branco, o Prêmio da União Europeia para a Literatura, o Prêmio Fernando Namora e o Prêmio da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil do Brasil.

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