Novo surto de Covid e alta de juros pioram cenários antevistos para 2022

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 22 de janeiro de 2022

A depender da intensidade e duração da “onda Ômicron”, a novíssima variante do Sars-CoV-2, que elevou a média diária de casos positivos de Covid no País para mais de 110,0 mil, a serem considerados os números da semana encerrada na quinta-feira, 20, poderá complicar o cenário de escassez relativa de matérias primas e de insumos ainda enfrentado pela indústria aqui e ao redor do mundo. O aumento no número de afastamentos de trabalhadores no chão de fábrica, em escritórios e repartições ajudaria a tornar o cenário de curto prazo ainda mais incerto para a economia em geral, com retração no nível geral dos negócios frente ao ano passado, como já vêm indicando empresas e lojas. E 2021 não foi necessariamente marcante para a atividade industrial no Brasil, diante do desaquecimento e quedas na produção registradas ao longo da segunda metade do período.

A Sondagem da Indústria do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV) chegou a mostrar alguma melhora na situação de escassez de insumos e matérias primas em outubro do ano passado, comparado a medições anteriores, ressalvando, no entanto, uma dificuldade ainda grande e persistente para alguns segmentos da indústria terem acesso a insumos essenciais ao processo produtivo. Conforme o Ibre, “a expectativa das empresas é de que ao longo de 2022 essa situação seja normalizada, mas existem fatores que podem adiar esse processo. Um deles é o avanço da nova variante Ômicron no Brasil, que já ocorre em vários países do mundo”.

Diante da possibilidade de adoção novas restrições à circulação de pessoas, pondera o instituto, “consumidores podem voltar ao comportamento anterior de demanda por produtos de consumo e novamente sobrecarregar algumas cadeias em detrimento de outras”. Há riscos de outra ordem, relacionados aos mesmos fatores, mas sobretudo às incertezas exacerbadas pelo avanço acelerado dos casos de contaminação, com perspectivas concretas de sobrecarga das redes pública e privada de saúde e crescimento das mortes. Em algumas regiões, já é possível observar a redução no fluxo de consumidores nos corredores de centros comerciais e polos de varejo, trazendo a perspectiva de dispensa de pessoal pelas lojas, o que serviria para impor novo freio à atividade em um momento sanitário novamente delicado.

Estagnação à vista

Acrescido a esse novo fator, mas não de todo inesperado dada as discrepâncias e desigualdades regionais e globais no ritmo da vacinação contra a Covid-19, a alta dos juros tenderá a trazer impactos previsíveis sobre as contas do setor público, para os balanços das empresas e ainda para as famílias mais endividadas no Brasil. A perspectiva de uma conjuntura pouco simpática ao longo de 2022 já vinha sendo contabilizada inclusive pelos tais mercados, que haviam reduzido suas apostas para o Produto Interno Bruto (PIB) neste ano para uma variação de apenas 0,29% (o que significaria, a se confirmar a projeção, uma economia estagnada e com inflação na faixa de 5,0% ao ano).Ainda em 2021, de acordo com estudos do Ibre, o crédito passou a ter efeito neutro sobre a atividade econômica, significando que deixou para trás os impactos positivos trazidos pelo forte crescimento de empréstimos e financiamentos em 2020, estimulados pelo socorro concedido a pequenos e médios negócios.

Balanço

  • Adicionalmente, no trimestre concluído em outubro do ano passado, corroído pela inflação em alta, o rendimento real médio dos trabalhadores havia alcançado seu menor nível na série histórica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A massa de rendimentos efetivamente recebidos pelas famílias de trabalhadores, no mesmo período, chegou a avançar ligeiramente em relação aos mesmos três meses de 2020, saindo de R$ 220,604 bilhões para R$ 225,687 bilhões. Mas não foi suficiente para repor as perdas realizadas desde janeiro de 2020, restando um tombo de 18,5% em termos reais, com as perdas de renda somando R$ 51,333 bilhões.
  • Os dados aferidos pela sondagem da FGV mostravam, em outubro de 2021, que 42,5% das indústrias de transformação enfrentavam ainda dificuldades para abastecer suas linhas de produção com aço, plásticos, embalagens em geral e componentes eletrônicos. Esse percentual havia recuado de 55,5% em novembro de 2020 para 52,4% na medição feita em junho do ano passado, recuando mais uma vez em outubro, conforme registrado acima.
  • Para alguns segmentos, no entanto, as restrições permaneciam bem mais severas do que a média do setor de transformação. No setor de bens duráveis, perto de 70,1% das empresas ouvidas continuavam sem ter acesso integral a matérias primas e insumos, percentual que atingia 59,3% dos fabricantes de bens de capital, variando entre pouco mais de 30,0% e 35,0% no setor de bens intermediários e entre 40,0% e quase 45,0% na indústria de bens não duráveis (alimentos, vestuário, calçados e outros).
  • Considerando os tipos de matérias primas e/ou insumos, as restrições haviam baixado de 12,5% para 9,2% no setor de aço, entre junho e outubro do ano passado, recuando de 11,8% para 8,1% no caso das embalagens. Mas avançaram de 2,2% para 6,0% no setor de plásticos e de 1,4% para 3,9% no de componentes eletrônicos. Embora a falta desses componentes tenha sido menos percebida pelo conjunto da indústria, a escassez afetava fortemente a indústria de informática e de eletroeletrônicos, com 75,0% do setor com problemas para assegurar seu abastecimento em outubro de 2021. Para comparar, em julho do mesmo ano, o percentual havia sido de 27,8%.
  • Pertos de 19,0% das indústrias de máquinas e equipamentos e de 16,7% do setor de veículos automotores acusaram falta de componentes em outubro, saindo de 6,8% e zero em julho.
  • Ainda de acordo com Ibre, entre outras consequências desse cenário prolongado de restrições de oferta, “o principal efeito da interrupção na cadeia de suprimentos tem sido o aumento dos custos de produção, citado por 57,6% das empresas. Destacam-se também maiores atrasos (32,5%) e dificuldades na entrega de seus produtos (34,1%)”.O impacto sobre os custos “foi mais expressivo para a indústria de bens intermediários (72,3%), bens de capital (57,8%) e bens não duráveis (59,1%)”, atingindo 35,5% do setor de bens duráveis. Neste último setor, no entanto, nada menos do que 71,4% das empresas foram forçadas a paralisar a produção por falta de peças, componentes e matérias primas.
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