Novos indicadores mostram perda de fôlego da economia

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 20 de outubro de 2021

Os dados apurados pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), por meio do Monitor do PIB-FGV, confirmam o que outros levantamentos têm demonstrado – ao menos até onde se pode considerar que esse tipo de indicador captura de fato o comportamento no lado real da economia. Mais claramente, a economia, depois do mergulho registrado nos primeiros momentos da pandemia, veio ensaiando alguma melhora enquanto os números eram comparados aos piores momentos observados durante a fase mais dura das medidas de distanciamento social. A comparação, daí em diante, num momento em que aquelas medidas vieram sendo gradualmente relaxadas, mostra resultados modestos, aparentemente com retorno aos padrões de baixo crescimento observadas desde a recessão encerrada em 2016.

O avanço da vacinação, neste ano, ainda ajudou a injetar algum ânimo nas atividades de serviços, setor mais duramente atingido pela crise sanitária e seus impactos. Mas, mesmo nesta área, os levantamentos mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam para certo desaquecimento, com o varejo e a indústria igualmente acompanhando de forma mais preocupante a desaceleração em cena, esbarrando, mais nitidamente, no desemprego muito alto, na dificuldade para trabalhadores conseguirem retornar ao mercado, com alongamento do tempo de desocupação, na queda real da renda das famílias e no processo de alta inflacionária (novamente contribuindo para achatar o poder de compra dos salários).

Perdendo vapor

O monitor do Produto Interno Bruto (PIB) da fundação chegou a apresentar, por volta de abril deste ano, alta de 15,0% em relação ao mesmo mês de 2020, com a taxa limitando-se a uma variação de 4,4% em agosto, na medição mais recente, divulgada ontem pela instituição. Como os números dos dois meses anteriores ainda haviam sido melhores, registra-se um avanço de 6,7% no trimestre encerrado em agosto diante de igual período de 2020. A série dessazonalizada (quer dizer, descontados fatores que se repetem em certos períodos do ano e que poderiam distorcer comparações) continua derrapando, chegando a uma queda de 1,1% em agosto frente a julho. Entre o trimestre finalizado em agosto e os três meses até maio deste ano, o PIB teria avançado 0,7%.

Balanço

  • Para o economista Claudio Considera, coordenador do Monitor do PIB-FGV, segundo nota da assessoria de imprensa do Ibre, “a economia brasileira continua em trajetória de recuperação em relação À forte queda de 2020 devida à pandemia”. Conforme ainda Considera, nos 12 meses concluídos em agosto deste ano, o PIB teria avançado 3,6% frente aos 12 meses imediatamente anteriores, quando havia sofrido baixa de 3,1%. Mais claramente, o PIB teria retomado os níveis observados por volta de 2019.
  • Claro, melhor assim do que um processo de perdas continuadas, diriam analistas e consultores mais alinhados aos mercados. A questão é que a atividade continua derrapando e as perspectivas de uma recuperação mais duradoura parecem distantes, diante da ausência de condições objetivas para que se realizem as previsões mais otimistas em relação à economia.
  • O setor de serviços, que sofreu perdas mensais sucessivas e bastante severas entre março de 2020 e o mesmo mês deste ano, pondera ainda o economista, passou a registrar números positivos de abril em diante, acumulando elevação de 2,6% nos 12 meses terminados em agosto. O segmento “outros serviços”, que responde por 15,0% do PIB geral, chegou a desabar 22,8% em seu pior momento e voltou a crescer a partir de abril deste ano, refletindo, na visão do Ibre, a “maior abrangência da vacinação”, o que “possibilitou a maior interação entre as pessoas com idas a hotéis, bares, restaurantes, viagens”, entre outras atividades. O consumo de serviços pelas famílias, por sua vez, avançou 8,2% em agosto.
  • Entre os grandes setores que compõem a demanda na economia, a desaceleração também vigora. O consumo das famílias havia experimentado salto de 10,8% no segundo trimestre deste ano em relação ao mesmo período de 2020. Em agosto, a taxa trimestral havia anotado variação de 6,5%. Ajustado sazonalmente, o indicador do consumo variou 1,9% no trimestre finalizado em agosto na comparação com os três meses imediatamente anteriores.
  • O investimento (ou formação bruta de capital fixo, em economês castiço), na mesma linha, chegou a experimentar um salto trimestral de 32,9% em junho (comparado ao segundo trimestre do ano passado), passando a anotar variação de 18,5% no trimestre finalizado em agosto deste ano. Obviamente, trata-se de um taxa alentada, mas deve-se considerar que o desempenho de 2020 deixou muito a desejar, para dizer o mínimo. Adicionalmente, o monitor do investimento da FGV apresentou retração de 3,5% entre os trimestres finalizados em maio e em agosto deste ano.
  • No setor externo, enquanto as importações experimentaram salto de 32,7% em volume na comparação entre o trimestre junho-agosto e os três meses anteriores (com alta de 40,8% para a entrada de bens intermediários importados), as exportações avançaram apenas 3,0%. O descompasso sugere uma contribuição negativa da balança comercial (exportações menos importações) de bens e serviços para o PIB. Na comparação com o trimestre março-maio, as vendas externas caíram 7,0%.
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