Num vice-campeonato nada honroso, inflação no Brasil só perde da Turquia

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 26 de novembro de 2021
Real,dinheiro, moeda

A desaceleração esboçada nas últimas duas semanas pela inflação não deverá ser suficiente para evitar que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) feche o ano acima dos 10% pela primeira vez desde 2015, quando havia alcançado 10,67%. Conforme já anotado neste espaço, os aumentos dos combustíveis, da energia elétrica e botijão de gás deverão explicar mais da metade da taxa esperada para este ano. Os mercados, conforme o relatório Focus, esperam uma inflação ao redor de 10,1% para 2021, saindo de 4,52% nos 12 meses de 2020.

A escalada inflacionária refletiu principalmente o aumento dos preços internacionais do petróleo e das demais commodities, sobretudo do minério de ferro, das carnes e dos grãos; a crise hídrica, que causou a redução para níveis históricos dos reservatórios das usinas, levando ao encarecimento da energia elétrica e à quebra na safra de milho (fazendo os preços, já pressionados pela alta externa, dispararem aqui dentro, elevando os custos de aves, suínos e bovinos); e a alta do dólar aqui dentro. A demanda chinesa ajudou a manter aquecidos os mercados de minério ferro, soja e carne bovina (até o bloqueio decretado a partir de setembro).

Houve igualmente larga dosagem de incompetência da equipe econômica para enfrentar o avanço geral dos preços. Paulo Guedes e Roberto Campos Neto, respectivamente, ministro dos mercados e presidente do Banco Central (BC), gostam de argumentar que a recaída inflacionária deriva de uma tendência internacional, pois os preços têm subido em praticamente todos os países, com algumas exceções, a exemplo da China. Mas apresentação recente de Campos, realizada durante o evento “Global EmergingMarketsYearAheadConference”, promovido por videoconferência pelo Bank of América, mostra que a taxa de inflação ao consumidor subiu muito mais no Brasil, desautorizando a retórica oficial.

Quase a mais alta

Na verdade, a escalada inflacionária por aqui só perde para a Turquia no acumulado até outubro deste ano. Em um dos slides da apresentação, o presidente do BC recorre a dados coletados pela agência Bloomberg para ilustrar o avanço do índice de preços ao consumidor em países escolhidos, tomando janeiro de 2020 como base (ou índice 100). Em outubro deste ano, a curva que retrata o índice no País aproxima-se de 113 (a inflação acumulada desde janeiro do ano passado ficou em 12,89%), com o índice da inflação turca superando os 130 pontos. Na China, o índice encontrava-se, em outubro deste ano, ligeiramente abaixo dos níveis de janeiro de 2020. No Chile, o mesmo indicador estava ligeiramente acima dos 107 pontos. Excluídos os preços dos alimentos e da energia, a inflação brasileira estaria numa faixa intermediária entre 106 e 108 pontos (ainda tomando janeiro do ano passado como base), numa quinta colocação entre as 10 economias escolhidas por Campos para fazer a comparação.

Balanço

  • Considerando apenas os preços da energia (que incluem, no caso, também petróleo e derivados, além da eletricidade), o Brasil lidera por larga distância, superando inclusive a Turquia por uma margem confortável – no caso, com evidente conotação negativa. A base para comparação, neste caso, foi fixada em dezembro de 2019. Por aqui, os custos saltaram de 100 para quase 136 pontos em outubro deste ano, significando um salto de praticamente 36%. Na Turquia, os preços no setor subiram em torno de 30%.Rússia, México e Colômbia, pela ordem, registraram elevações próximas de 9%, 7% e 4% naquele mesmo período.
  • Entre as economias avançadas, Estados Unidos e Canadá registraram as maiores altas, com o custo da energia subindo entre 17% e 15% (menos da metade da taxa registrada no Brasil), com avanços de 13% e 11% na chamada Zona do Euro e no Reino Unido. No Japão, dependente de importações nesta área, a variação ficou limitada a 4%.
  • A comparação comprova a inadequação, para dizer o mínimo, da política de paridade internacional adotada pela Petrobrás desde 2016. Traduzindo: por conta dessa política, os preços dos combustíveis no Brasil sobem conforme as altas no mercado internacional, desconsiderando que os custos da empresa aqui dentro são muito mais baixos. O objetivo, que vem junto com o desmonte da empresa, promovido pelo acionista controlador (quer dizer, pelo governo), e ampliar os ganhos para os acionistas da estatal, por meio de distribuição massiva de lucros e dividendos.
  • Ainda na apresentação do senhor Campos, o Brasil surgiu como a economia que sofreu a maior elevação dos juros entre 11 países escolhidos pelo presidente do BC. Desde março, a taxa básica foi elevada em 5,75 pontos de porcentagem, para 7,75%. O Brasil retomou a vice-liderança nesse ranking, perdendo para a Turquia. A diferença é que o banco central turco promoveu um corte de dois pontos de porcentagem em sua taxa, para 15,0% ao ano.A segunda maior elevação, no período analisado, ficou para a Rússia, que promoveu alta de 3,25 pontos, para 7,50% ao ano.
  • Oito países, incluindo economias mais avançadas, mantiveram as taxas de juros inalteradas. Estas continuam negativas na Zona do Euro (-0,5%) e no Japão (-0,10%) e forma mantidas em 0,13% nos Estados Unidos, 0,25% no Canadá, 0,10% no Reino Unido e na Austrália. China e Índia seguraram suas taxas básicas em 2,20% e 4,0% respectivamente.
  • Por aqui, o IPCA-15 (medido entre as duas semanas finais de um mês e as duas primeiras semanas do mês imediatamente seguinte) sofreu leve desaceleração e chegou a 1,17% ao final da primeira quinzena de novembro, diante de 1,25% nas quatro semanas de outubro. No ano, a inflação atingiu 9,57% e 53,9% do índice foram gerados pelos aumentos da gasolina, etanol, diesel, energia e botijão de gás. A gasolina sozinha, com salto de 44,83% desde janeiro, contribuiu com 28,7% do índice acumulado neste ano até 15 de novembro.
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