Coluna

O “efeito Argentina” sobre as exportações do Brasil e sobre a produção da indústria

Publicado por: Sheyla Sousa | Postado em: 13 de agosto de 2019

Em
meio ao clima de “terrorismo econômico” abertamente fomentado pelos mercados
(não sem a contribuição insana de seu vizinho mais à direita), a economia
argentina parece se desfazer mais uma vez. Na verdade, a crise vem de antes,
muito antes, aliás, de serem abertas as urnas das eleições primárias, que
indicaram evidente favoritismo da chapa de oposição às próximas eleições
naquele país. Seus efeitos já têm sido percebidos por aqui, retratados na queda
das exportações e, em especial, no tombo observado nas vendas externas de
automóveis de passeio, com impactos diretos sobre a produção industrial
brasileira.

Esse
desempenho muito negativo explica, ainda que parcialmente, a apatia revelada
pela produção industrial nos últimos meses, com novo esfriamento observado nos
dados mais recentes da pesquisa mensal da produção industrial conduzida pelo
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Nada sugere que a
atividade econômica na Argentina venha a oferecer alguma forma de refresco
daqui para frente. Pelo contrário, as expectativas são de nova retração no
Produto Interno Bruto (PIB).

Como
recapitula
Bráulio
Borges, pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV)e
economista-sênior da área de macroeconomia da LCA Consultores, o colapso
econômico da Argentina pegou os mercados – que apostavam nas políticas
liberalizantes e de austeridade fiscal do governo Macri – de calças nas mãos.
“Para se ter uma referência, até abril ou maio do ano passado, as projeções de
consenso indicavam crescimento de 3,0% para a economia argentina em 2018 e algo
perto desse mesmo percentual em 2019. Ao final, o PIB mergulhou 2,5% no ano
passado e deve cair em torno de 1,5% neste ano”, afirma Borges.

Na mesma
linha, Leonardo Costa, da LCA Consultores, afirma que “a marcante piora
econômica argentina teve influência nada desprezível na frustração do
crescimento doméstico em 2018 e continua a representar um fator de contenção da
atividade neste ano”. Ele pondera, no entanto, que a deterioração progressiva
das expectativas econômicas domésticas ao longo do primeiro semestre “parece
mais associada a fatores internos do que a fatores externos à nossa conjuntura”.

Área externa

De
acordo com Borges, praticamente um quarto das exportações brasileiras de
produtos manufaturados e 79% das vendas externas de automóveis tiveram o
mercado argentino como destino até o ano passado. Os dados sofreram alterações
neste ano, sempre para baixo, mas continuam refletindo uma dependência
relativamente elevada da indústria automobilística do Brasil em relação ao
mercado argentino, obviamente quando se consideram as vendas externas do setor.
Entre janeiro e julho deste ano, as vendas de automóveis de passageiros
produzidos aqui dentro para o exterior sofreram baixa equivalente a um terço,
aproximadamente, saindo de US$ 3,40 bilhões em 2018 para pouco mais de US$ 2,30
bilhões (mais precisamente, uma retração de 32,3%, com perdas de algo em torno
de US$ 1,10 bilhão).

Balanço

·  
A
Argentina desempenho papel decisivo naqueles resultados. Nos primeiros sete
meses do ano passado, o país vizinho foi destino de 78,72% de toda a exportação
brasileira de automóveis, somando US$ 2,677 bilhões. Mas o número murchou para
US$ 1,339 bilhão no mesmo período deste ano, num tombo de praticamente 50% (US$
1,338 bilhão a menos). Isso representou 58,21% das exportações totais de
automóveis de passageiros pelo Brasil.

·  
Na soma
de todos os produtos exportados pelo País, embora a participação argentina
tenha se limitado a 4,6% no acumulado entre janeiro e julho, a contribuição
negativa, no caso, foi bem mais relevante. Entre 2018 e 2019, sempre
considerando o mesmo intervalo, as exportações brasileiras sofreram baixa de
4,65%, saindo de US$ 136,342 bilhões para US$ 130,0 bilhões, em números
redondos.

·  
O Brasil
deixou de exportar algo como US$ 6,342 bilhões, como mostram aqueles dados. As
vendas para a Argentina desabaram 40% na mesma comparação, baixando de US$
9,977 bilhões (7,32% do total exportado pelo País) para US$ 5,986 bilhões
(4,60% do total). Neste caso, as perdas atingiram pouco mais de US$ 3,991
bilhões, o que correspondeu a 62,9% da redução acumulada pelo total das
exportações brasileiras no período.

Uma
parcela relativamente grande dessa queda veio das exportações somadas de
automóveis de passageiro, veículos de carga, tratores, motores, partes e peças
para veículos e pneus. A retração nesta área chegou a 51,55%, com as
exportações encolhendo de US$ 4,737 bilhões para US$ 2,295 bilhões (ou seja,
praticamente US$ 2,442 bilhões a menos, o que explicou 61,17% da redução
anotada pelo total das exportações brasileiras para aquele mercado). 

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