O “efeito Trump”. Inflação sobe para 0,88% pressionada pelos combustíveis
O aumento nos preços dos combustíveis, com saltos mais expressivos para gasolina e diesel, foi responsável por quase dois terços da alta registrada pela inflação medida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Entre os dias 13 de fevereiro e 17 de março, a taxa inflacionária havia alcançado 0,44%, mas o índice acumulado em todo o mês de março, aferida entre os dias 4 e 31, anotou aceleração para 0,88%. No curto espaço de espaço de duas semanas, portanto, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) praticamente dobrou, impulsionado basicamente pelo que se pode classificar como “efeito Trump”, por conta dos impactos sobre a economia global gerados pela guerra detonada pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã no final de fevereiro.
Os preços internacionais de petróleo, como se sabe, passaram a oscilar fortemente na mesma medida do acirramento do conflito e das declarações desconexas e contraditórias emitidas pelo presidente estadunidense. Os níveis de incerteza elevaram-se dramaticamente, turbinados ainda por turbulências em série geradas pelo comportamento errático de Donald Trump, envolvendo certamente interesses geopolíticos e da tentativa sustentação de um império decadente, mas também – e supostamente – por interesses mais relacionados a negócios da família presidencial e de seus “sócios”.
A inflação brasileira foi atingida, portanto, por fatores muito além do poder de contenção creditado à política monetária, vale dizer, à política de juros altos, embora não tenha alcançado, até o momento, níveis muito superiores àqueles registrados na primeira quinzena de fevereiro. Naquele momento, o IPCA-15 chegou a alcançar 0,84% movimentado pelo encarecimento sazonal dos custos de matrículas, mensalidades e materiais escolares. E empurrado ainda pelo salto nos preços das passagens aéreas, com alguma pressão, embora marginal, na área dos combustíveis (cujos preços, no entanto, vinham em desaceleração em relação às semanas anteriores).
Principais focos
A inflação desde lá recuou para 0,44% na medição realizada entre as quatro semanas finalizadas em 17 de março para disparar até 0,88% no enceramento do mês, conforme apontado mais acima, chegando à maior variação desde a elevação desde a taxa de 1,31% anotada em fevereiro do ano passado. Os preços dos combustíveis tornaram-se um dos principais focos de alta inflacionária no período mais recente, saindo de recuo de 0,03% entre 13 de fevereiro e 17 de março para um aumento de 4,47% na medição realizada nas duas semanas finais do mês passado, num salto expressivo e que tende a gerar estragos igualmente sobre a taxa a ser aferida em abril. Considerando o peso dos combustíveis no cálculo do índice geral de preços, o item foi responsável por 30,9% do IPCA mensal. Mas a contribuição para a alta entre um período e outro foi mais expressiva, considerando que o IPCA apresentou elevação de 0,44 pontos percentuais, dos quais pouco mais de 0,27 vieram exclusivamente do encarecimento dos combustíveis (ou seja, uma contribuição de 62,3%).
Balanço
Entre os combustíveis, a contribuição mais relevante veio dos preços da gasolina, que subiram 4,59% nos 30 dias de março, na sequência de um recuo de 0,08% acumulado entre 13 de fevereiro e 17 do mês seguinte. A contribuição para alta no grupo variou ao redor de 85%, superando a influência do diesel, embora o salto nos preços nesta área específica tenha alcançado 13,90% depois de variar 3,77% na medição anterior. Essa aparente discrepância explica-se porque o peso da gasolina no cálculo do custo de vida supera o do diesel.
Os chamados “efeitos de segunda ordem” podem ser mais relevantes no caso do diesel, de toda forma, considerando-se o impacto do encarecimento do combustível sobre os custos de transporte, majoritariamente dominado pelo modal rodoviário e, nesta área, pela frota de caminhões no País.
O segmento de combustíveis ajuda a explicar ainda a maior variação dos preços dos produtos e serviços monitorados, quer dizer, que tem sua política de reajustes definida pelo setor público (federal, estadual ou municipal). Em conjunto, a “inflação” dos itens monitorados avançou de apenas 0,18% nas quatro semanas de fevereiro para 1,22% em março. A participação do grupo na composição final do IPCA avançou de apenas 6,50% para 34,9%.
Num exercício, com a exclusão de produtos e serviços monitorados, a “inflação” no restante da economia teria recuado de 0,65% em fevereiro para 0,57% em março. Obviamente, trata-se apenas de uma forma de aferir como a inflação tem afetado os preços de bens e serviços no segmento “livre” do mercado.
O segundo foco altista veio do grupo alimentos e bebidas, sob pressão do aumento nos preços principalmente de tubérculos, legumes e raízes, que saíram de uma virtual estabilidade em fevereiro para alta de 16,78% em março. Em consequência, a “inflação” do grupo alimentação como um todo já havia avançado de 0,26% em fevereiro para 0,88% nas quatro semanas encerradas em 17 de março, subindo para 1,56% nos 30 dias do mês passado.
As chuvas no período contribuíram para reduzir a oferta de legumes e folhas, com impactos mais relevantes sobre tomate, cebola e batata inglesa, trio que, em conjunto, respondeu por 84,3% da variação total no subitem tubérculos e legumes e por quase 36,7% da alta dos alimentos em geral.
Aqueles três produtos e mais outros quatro, todos do grupo alimentação – feijão carioca, leite longa vida, lanches e refeições – explicam quase 75% da variação anotada pelo IBGE para os custos totais da alimentação entre fevereiro e março.
Isoladamente, as passagens aéreas voltaram a pressionar, com alta de 6,08% nos 30 dias de março, saindo de uma elevação de 5,94% até 17 de março (quando havia ensaiado uma tendência de recuo frente ao salto de 11,40% acumulado em fevereiro). Ainda não há elementos suficientes para relacionar o aumento nesta área à alta nos preços dos combustíveis, embora essa possibilidade não possa ser descartada. Em direção inversa, as tarifas de energia, que chegaram a variar 0,29% entre 13 de fevereiro e 17 de março, perderam algum ímpeto e encerraram o mês passado com elevação de 0,13%.