segunda-feira, 28 de setembro de 2026

O grande jogo de manipulação das taxas básicas de juros no País

Lauro Veiga Filhopor em
O grande jogo de manipulação das taxas básicas de juros no País
Foto reprodução Canva

“O mercado financeiro forma grupos que se organizam para ‘ajustar’ o Relatório Focus e influenciar as decisões do Banco Central (BC). É tudo combinado. Eles já sabem o que fazer. Essa é a grande farsa que ninguém expõe”. A declaração, até surpreendente a se considerar a fonte, deveria ter ganhado manchetes por simplesmente desnudar o jogo de manipulação que cerca as decisões supostamente técnicas tomadas pela alta diretoria do BC, reunida no Comitê de Política Monetária (Copom), para definir a política de juros. O autor do comentário não é um principiante e muito menos um ingênuo analista financeiro, mas um escolado e experiente gestor de ativos, conhecedor dos meandros desse mercado e fundador da Skopos Investimentos, Pedro Cerize.

O gestor participou do Convex Day 2024, realizado no Hotel Unique, em São Paulo, no dia 24 de setembro deste ano, dedicado a investidores de alta renda, consultores e gestores, empresários, advogados e influenciadores, organizado pela Convex Research. Em seu site, a empresa, criada em 2018, se autodenomina como uma “casa de análise independente, especializa em mercados voláteis, com experiência no mercado financeiro, de trading e de commodities”. A Skopos por sua vez opera desde 2001 na gestão de ativos, fundos de investimentos e fundos de previdência.

O relatório Focus, como se sabe, é operado pelo BC para aferir as expectativas do mercado financeiro em relação à inflação, a tendências esperadas para o Produto Interno Bruto (PIB), para os resultados fiscais do governo, para a dívida pública e para o dólar, entre outras variáveis. O BC consulta semanalmente 120 instituições financeiras sobre suas expectativas frente a indicadores econômicos relevantes, utilizando a mediana daquelas estimativas (na matemática, mediana corresponde ao valor que está entre a metade maior e a metade menor de uma amostragem qualquer).

Mas Cerize, que teve passagem por outras casas de investimento, não parou por ali. Na sequência, segundo texto divulgado no site da Convex, ele acrescentou: “E mesmo que eu fale sobre isso, ninguém me chama para desmentir, porque eu sei quais são os grupos e onde eles combinam: ‘Você ajusta o Relatório Focus, eu também ajusto…’ Está tudo articulado entre eles, e o BC, por dolo ou inocência, acaba sendo conduzido”. Na sua visão, compartilhada por vários críticos da política monetária e da atuação da autoridade monetária, o BC “não conduz o mercado. Ele tem o controle de uma ferramenta, que é a taxa de juros de curto prazo. Mas no Brasil, isso não acontece da mesma forma. Aqui, quem controla os juros de curto prazo é o Relatório Focus e esses grupos que fazem as combinações”.

Os erros de Campos Neto

Ainda conforme Cerize, a atuação recente do presidente do BC, Roberto Campos Neto, contribuiu para corroer a credibilidade da instituição dirigida por ele próprio. Afinal, afirma ele, Campos Neto “errou ao desmanchar três ‘guidances’ consecutivas”. Numa tradução mais literal, guidance significa orientação ou indicação da atuação futura do BC em relação à política de juros. “Você nunca verá o Federal Reserve (Fed) anunciar que vai cortar os juros na próxima reunião e não cumprir. O Fed jamais faria isso. E o nosso Banco Central fez isso três vezes e ainda fala de credibilidade? Ele não tem credibilidade nem para um planejamento de 30 dias”, enfatiza Cerize.

Balanço

  • Entre 2 de agosto do ano passado e 20 de março deste ano, o Copom aplicou seis rodadas de cortes nos juros básicos, todas de meio ponto percentual, somando, portanto, uma redução acumulada de três pontos percentuais, com a taxa básica saindo de 13,75% para 10,75%, ainda uma enormidade, dadas as condições presentes na economia brasileira naquele momento, com inflação bem-comportada e uma atividade econômica em recuperação moderada.
  • A ata do Copom, divulgada no dia 26 de março, registrava então: “O comitê avalia que o cenário-base não se alterou substancialmente. Em função da elevação da incerteza e da consequente necessidade de maior flexibilidade na condução da política monetária, os membros do comitê, unanimemente, optaram por comunicar que anteveem, em se confirmando o cenário esperado, redução de mesma magnitude na próxima reunião. O Comitê avalia que essa é a condução apropriada para manter a política monetária contracionista necessária para o processo desinflacionário”.
  • Nas semanas seguintes, o que se viu foi uma verdadeira ofensiva de Campos Neto, com reuniões e encontros reservados, aqui e lá fora, com grandes donos de empresas, banqueiros e operadores do mercado para alardear, como se recorda, uma mudança de ânimo na economia, supostamente associada a uma (levíssima) mudança nas metas fiscais, o que exigiria a interrupção da política de cortes dos juros básicos. Não satisfeito, o presidente do BC teria ligado para banqueiros com o objetivo de consolidar a virada na política de juros, embora os indicadores macroeconômicos no País mostrassem um cenário de relativa calmaria.
  • Em sua reunião de 8 de maio, o Copom decidiu aplicar um freio nos cortes, contrariando o que havia anotado em ata dois meses antes. Os juros baixaram mais uma vez, para 10,50%. Desta vez, aplicou-se uma redução de 0,25 pontos percentuais. Insatisfeito, Campos Neto retomou a carga e conseguiu colocar num corner os membros do Copom. Caso decidissem prosseguir com a redução da chamada “taxa Selic” (abreviação de Sistema Especial de Liquidação e de Custódia), que define os juros básicos na economia, seriam taxados pelo mercado como “lenientes” em relação ao combate à inflação, gerando turbulências e fazendo elevar as expectativas inflacionárias. O resultado desse jogo de sombras e manipulação veio na reunião seguinte: os juros foram aumentados para 10,75% a partir de 18 de setembro, retomando os níveis do final de março.
  • Não bastassem esses fatos, a porta-giratória do BC em direção ao mercado financeiro e vice-versa continua operando a todo vapor. Cerize retoma aqui sua avaliação ao lembrar que um diretor do BC “ganha apenas R$ 12 mil por mês (atualizados para cerca de R$ 18 mil sem desconto, ou R$ 14,5 mil líquidos). Para muitos, isso é como um MBA, um estágio. Você passa um tempo ali, faz um sacrifício, e depois busca uma posição melhor no mercado. Esse conflito precisa acabar. Não temos mais funcionários de carreira no Banco Central”, afirma ele.
  • Na corrida para tentar antecipar os movimentos seguintes do BC e seu Copom, agentes do mercado chegaram a desenvolver algoritmos baseados em inteligência artificial para coletar e analisar dados, “permitindo estimar a probabilidade indicada pelo mercado de alteração na próxima reunião do Copom”, afirma o release distribuído no final de setembro pela assessoria de uma casa de investimentos. O algoritmo sugeria então uma probabilidade de 76,2% de um aumento da taxa Selic em mais 0,25 pontos na próxima reunião do comitê, agendada para os dias 5 e 6 de novembro. Façam suas apostas, porque o jogo continua sendo jogado. Sem pretensões técnicas, mas com muita malícia.

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