Coluna

OCDE antecipa forte desaceleração para a economia mundial neste ano

Publicado por: Sheyla Sousa | Postado em: 03 de março de 2020

As
primeiras projeções da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico
(OCDE) sobre os efeitos do coronavírus (COVID-19) na economia mundial sugerem
riscos apenas menos severos do que aqueles enfrentados pelo mundo na crise
financeira de 2008/2009, com impactos mais severos nos primeiros meses deste
ano. No cenário mais benigno, supondo uma rápida reversão da epidemia e pronta
reação dos governos, o crescimento global seria reduzido de 2,9% em 2019,
variação já considerada muito modesta pelo organismo, para 2,4% neste ano.

O
fato é que o ataque virótico atinge a economia global em plena desaceleração e
seus impactos, claro, deverão ser sentidos por aqui, até porque os ensaios da
OCDE, com base em informações disponíveis até fevereiro, mostram a perspectiva
de forte desaquecimento no comércio de bens e serviços ao redor do globo, com
efeitos mais duros sobre o mercado chinês – que multiplicou sua relevância
global desde a última epidemia causada por outra cepa do coronavírus em 2002.
Mais sugestivo ainda, a organização acredita que o nível da atividade econômica
global deverá registrar queda no primeiro trimestre deste ano, complicando as
possibilidades de uma retoma mais acentuada no restante do ano, caso o vírus
venha a ser contido celeremente (o que ainda representa meramente uma aposta de
alto risco).

Na
hipótese de um surto mais intenso, com contágio mais amplo de pessoas na Ásia,
Europa e América do Norte, as perspectivas de crescimento neste ano ficariam
limitadas a apenas 1,5%, o que corresponderiam à metade da taxa projetada pela
OCDE ao elaborar o cenário básico para a economia mundial no final do ano passado.
Neste caso, a organização sugere que seria mais afetados países que respondem
por 70% das riquezas geradas em todo o planeta, consideradas pela paridade de
poder de compra. O volume do comércio mundial encolheria, nesta hipótese, algo
como 3,75% na comparação com 2019.

As
estimativas para o Brasil mostram que a atividade econômica tenderá a manter o
padrão de baixo desempenho observado desde 2016, determinando o que seria o
quarto ano de crescimento bastante tímido e aquém das necessidades de uma
economia de médio porte e em atraso em relação a economias de igual tamanho no
cenário internacional. Na previsão da OCDE, o Produto Interno Bruto (PIB)
brasileiro cresceria algo em torno de 1,7% neste ano, na hipótese de um ataque
mais brando do vírus. Trata-se de uma taxa inferior à previsão de 2,17%
registrada pelo Banco Central (BC) ao aferir os humores do mercado financeiro
aqui dentro.

Estrago maior

Previsíveis,
os impactos sobre a economia chinesa tendem a ser obviamente mais intensos.
Centro e origem da nova epidemia, a China deverá apresentar crescimento de
apenas 4,9% neste ano, o que se compara com o avanço de 6,1% observado em 2019
e com a previsão anterior da OCDE, que havia calibrado suas estimativas para a
economia chinesa considerando uma variação de 5,7% para o PIB em 2020. Não é
pouca coisa diante do que a economia chinesa se tornou nos últimos 18 anos. A
interrupção dos fluxos de turistas, a paralisação de fábricas, a queda na
confiança das pessoas no futuro imediato da economia e os impactos sobre os
mercados financeiros (com queda nas bolsas e fuga de capitais para refúgios
considerados mais seguros) detonaram uma dinâmica negativa para toda a economia
mundial.

Balanço

·  
As
mudanças ocorridas no curso das últimas décadas sugerem que os efeitos do
coronovírus podem ser mais severos do que sua versão anterior, como apontam os
dados da OCDE. Em 2002, a China respondia por alguma coisa ao redor de 6% do
PIB mundial e hoje representa algo em torno de 17% (ou seja, a participação
mais do que dobrou em menos de duas décadas).

·  
No
setor de commodities, sem considerar o setor agrícola (altamente dependente dos
chineses no caso brasileiro, que destina praticamente 80% de suas exportações
de soja para aquele mercado), a China consumia perto de 10% da oferta mundial
de alumínio e cobre em 2002, percentual que saltou agora para 55% e 50%
respectivamente (em valores aproximados).

·  
No
caso do níquel, a participação chinesa saiu de 5% para qualquer coisa próxima a
48%. Idem nos mercados de chumbo e zinco, onde a China tem participação de 46%
e 44% na demanda global. No setor petróleo cru, a participação é menos
relevante, mas avançou de 5% para próximo de 15% no período.

·  
Além
disso, a extensa globalização ocorrida no período criou uma intricada cadeia
global de suprimentos, envolvendo desde peças e acessórios a componentes de
alta tecnologia e mesmo serviços extremamente especializados. A paralisação das
fábricas na China já tem causado transtornos e pode complicar o suprimento de
insumos e componentes no Brasil. De acordo com a Associação Brasileira da
Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), mais da metade das empresas do setor
associadas à entidade (57% mais precisamente) já enfrentava, na semana passada,
problemas para receber materiais, insumos e componentes da China, incluindo telas
de televisão e aparelhos celulares (visto que o Brasil abdicou da produção
desses insumos e produtos).

·  
Para
mitigar os efeitos do coronavírus, a OCDE sugere reforço nos investimentos nos
sistemas de prevenção e cuidados com saúde, atenção especial com setores mais
vulneráveis da população, até com distribuição direta de recursos e criação de
esquemas especiais de oferta de emprego no curto prazo.

No plano macroeconômico, seria necessária uma
melhor coordenação entre políticas de juros e fiscais, combinando juros mais
baixos (ou sua manutenção em níveis reduzidos), algum aumento temporário de
despesas públicas e, se necessário, mesmo alguma redução de impostos para dar
suporte à demanda e socorrer especialmente famílias de renda mais baixa, mais
expostas aos riscos de contaminação. 

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