terça-feira, 31 de março de 2026

Operações com recebíveis respondem por 31,5% da alta no crédito para empresas

Lauro Veiga Filhopor Lauro Veiga Filho em 31 de março de 2026

O volume de recursos levantados pelas empresas por meio da antecipação de pagamentos de créditos a receber, os chamados “recebíveis”, entrou em disparada nos últimos anos, atingindo em fevereiro deste ano perto de R$ 1,013 trilhão, algo como 14,5% de todo o saldo do crédito ampliado contratado pelo setor corporativo. Segundo as estatísticas do Banco Central (BC), a comparação com fevereiro do ano passado, quando o saldo das operações com títulos de dívida securitizados havia alcançado R$ 892,650 bilhões, mostra um avanço nominal de 13,48%, correspondendo a uma variação absoluta de R$ 120,328 bilhões.

Em igual intervalo, o saldo do crédito ampliado ainda no setor empresarial observou um incremento muito mais modesto, saindo de R$ 6,611 trilhões para praticamente R$ 6,993 trilhões e crescendo 5,78% – ainda sem descontar a inflação do período, que atingiu 3,81% nos 12 meses encerrados em fevereiro deste ano. Registrou-se, portanto, um acréscimo de R$ 381,913 bilhões – o que significa dizer que as operações com créditos securitizados (quer dizer, transformados em títulos negociados no mercado de capitais) tiveram uma participação de 31,51% no aumento do crédito total operado pelas empresas.

O aumento observado na captação de dívidas por meio de títulos securitizados superou com certa folga o crescimento registrado para o total das operações realizadas no âmbito do sistema financeiro nacional, quer dizer, aquelas sustentadas por recursos captados por bancos, financeiras e outras instituições de crédito. Neste segmento, o valor total de empréstimos e financiamentos apresentou variação de 7,33% na mesma comparação, com o saldo daquelas transações avançado de R$ 2,149 trilhões para alguma coisa abaixo de R$ 2,307 trilhões, num incremento de R$ 157,572 bilhões entre fevereiro do ano passado e o mesmo mês deste ano.

Securitização dispara

Como mostram os dados do BC, o estoque de títulos de dívidas securitizadas passou a corresponder a 43,92% do saldo do crédito no sistema financeiro convencional, saindo de 41,54% em fevereiro do ano passado. Numa comparação de prazo mais amplo, tomando fevereiro de 2013 como base, enquanto o crédito tradicional experimentou alta de 89,10%, partindo de quase R$ 1,221 trilhão, a securitização foi multiplicada em pouco mais de 13,5 vezes, já que haviam somado apenas R$ 74,606 bilhões há 13 anos. Em fevereiro de 2013, apenas como referência, o estoque de papéis securitizados correspondia a apenas 6,11% do saldo de empréstimos e financiamentos contratados pelas empresas no sistema financeiro. Embora represente uma fonte mais barata de recursos para as empresas, diante de riscos em tese mais baixos, já que o lastro desse tipo de transação são recursos a receber pelas corporações, a securitização acrescenta maior volatilidade ao mercado de crédito, não apenas por conta do risco de inadimplência, mas principalmente diante da atuação agressiva de fundos e de plataformas de investimento.

Balanço

A oferta de rendimentos elevados para atrair investidores e dar liquidez às operações de securitização, como mostra o exemplo recente do Banco Master, contribui para agravar incertezas e trazer maior insegurança ao setor, considerando as dimensões alcançadas para aquele tipo de transação.

Ainda no mercado corporativo, a securitização respondia por apenas 3,51% do estoque das operações de crédito ampliado em fevereiro de 2015. Na saída da pandemia, em 2021, aquela participação havia alcançado 6,06% (no dado de fevereiro daquele ano), praticamente dobrando no mesmo mês de 2024, para 12,02%. Neste ano, o dado de fevereiro indicou uma fatia de 14,48%, quatro vezes maior do que em 2015.

Entre 2017 e 2022, enquanto as operações de empréstimo e financiamento avançaram a uma velocidade de 29,06%, o saldo dos títulos de recebíveis aumentou 197,68%. Na saída de 2021 para 2026, sempre na posição fevereiro, as operações dentro do sistema financeiro nacional cresceram 47,70% e a securitização disparou com alta de 294,0%. Sempre no mercado corporativo.

Os instrumentos de securitização disponíveis para famílias têm mantido uma proporção de 2,2% em relação ao estoque do crédito ampliado (que soma empréstimos do setor bancário com operações no mercado de capitais e de títulos) num período mais recente. Essa participação havia alcançado 2,54% em fevereiro de 2017 e chegou a recuar para 1,36% em 2022.

Mas avançou para 1,6% em 2025 e atingiu, em fevereiro deste ano, 2,25%. A partir de 2022, o estoque de títulos securitizados entre as famílias aumentou 172,17%, passando de R$ 40,249 bilhões para R$ 109,546 bilhões, diante de um avanço de 63,58% para o saldo total do crédito ampliado para as famílias, que subiram R$ 2,975 trilhões para R$ 4,866 trilhões. O incremento da securitização, no entanto, contribuiu com apenas 3,66% para o crescimento geral das operações de crédito em seu conceito mais amplo.

No caso das famílias, o saldo do crédito ampliado alcançou níveis recordes em fevereiro deste ano, passando a corresponder a 37,9% do Produto Interno Bruto (PIB), diante de uma fatia de 36,4% em fevereiro do ano passado. Aquele estoque subiu de R$ 4,348 trilhões para R$ 4,866 trilhões, numa alta de 11,91% em termos nominais.

Considerando apenas as operações no sistema financeiro nacional, os níveis de endividamento e do comprometimento da renda com o pagamento de dívidas pelas famílias mantiveram-se em níveis historicamente muito elevados, chegando a 49,7% na primeira variável e a 29,3% no segundo caso. Os dados do BC para a renda nacional bruta disponível das famílias apontam uma variação de 3,96% em valores reais e ajustados sazonalmente, avançando de R$ 8,943 trilhões para R$ 9,297 trilhões, num ganho real de R$ 353,995 bilhões.

A comparação entre as duas séries de dados permite estimar uma elevação de 9,96% para as despesas com juros e prestações das dívidas familiares (considerando os percentuais da renda comprometidos com o serviço daquelas dívidas). Nesta estimativa, aquele gasto teria crescido de R$ 2,477 trilhões para R$ 2,724 trilhões, num incremento de R$ 246,815 bilhões. Vale dizer, quase 70% dos ganhos de renda no período foram drenados para o pagamento de juros e amortizações, com impactos negativos sobre as decisões de consumo.

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