Oportunidades e riscos para indústria no acordo Mercosul e União Europeia
Assinado entre as duas partes em janeiro deste ano, depois de duas décadas e meia de negociações, o acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia, em sua parte comercial, em entrou em vigor desde 1º de maio, ainda que não integralmente. De forma escalonada no tempo, os europeus deverão eliminar tarifas de importação atualmente impostas a 95% dos produtos exportados pelo Mercosul, que assumirá, por sua vez, o compromisso de zerar tarifas sobre 91% dos bens que importa da UE. Numa primeira avaliação, a indústria de máquinas e equipamentos agrícolas antecipa um aumento da concorrência no setor, com maior entrada de importações, embora algumas empresas percebam um misto entre riscos e oportunidades, a depender de como o Brasil, de forma mais específica, tenderá a lidar com a macroeconomia daqui em diante e com a política de reindustrialização de sua economia.
“Se nós não melhorarmos o custo Brasil, no longo prazo, a indústria nacional vai perder mercado”, analisa Pedro Estêvão Bastos, presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas (Abimaq). O principal componente na formação daquele custo, que torna os produtos brasileiros em torno de 20% mais caros do que na média dos países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), segundo ele, está nos custos de capital proibitivos.
“Muito se fala sobre a baixa produtividade da indústria, mas não é nosso operário que tem baixa produtividade, mas sim o maquinário que está a sua volta, que é muito antigo”, pondera Bastos. Renovar o parque de máquinas, no entanto, exigirá que o país enfrente um problema estrutural gerado por juros médios acima de 20% ao ano, na sua descrição.
Tarifas mais baixas
O Acordo Interino de Comércio (ITA), que define a redução tarifária, entre outras questões de ordem comercial, estabelece prazos de até 15 anos para a implantação de toda a agenda de comércio entre os dois lados, como lembra Bastos. “Temos esse tempo para melhorar o custo Brasil”, comenta Bastos ainda. O desembarque de maquinário importado, de toda forma, não será automático. Há impeditivos, na expressão escolhida por ele, que poderão retardar o aumento da concorrência estrangeira num setor já amplamente dominado por multinacionais aqui dentro.
Balanço
Em primeiro lugar, aponta o presidente da Câmara Setorial, o Plano Safra em vigor exige uso de conteúdo local nas máquinas agrícolas nas linhas que financiam o investimento no crédito rural. “Quer dizer, a máquina que virá pronta da Europa para o Brasil não terá financiamento”, reforça. Adicionalmente, lembra Bastos, produtos de maior valor agregado demandam redes de pós-venda com capacidade para atender o campo em todas as regiões do País.
“Não é possível importar uma máquina, vender aqui dentro e não ter peças de reposição e nem quem a conserte. O fabricante europeu vai ter que se instalar aqui e montar sua rede de pós-venda, o que é possível, mas leva tempo”, acrescenta ele.
Numa vertente mais positiva, ainda em sua avaliação, ao abrir parte do mercado europeu a produtos agrícolas brasileiros, o acordo tende a favorecer as exportações de grãos e carnes. “Para nosso cliente é bom”, comenta Bastos, “na medida em que permite maior acesso ao mercado europeu, estimulando o aumento da área plantada aqui dentro e, portanto, o crescimento das vendas de máquinas.”
“Pessoalmente, sempre vejo acordos como positivos. Quanto maior o bolo econômico do qual você participa, mais alternativas você vai ter”, registra Carlos Daniel Hahshahn, CEO da Jacto. Obviamente, complementa, como qualquer outro acordo comercial, há riscos envolvidos, especialmente para empresas de capital nacional.
Mas, em sua expectativa, a chegada de companhias europeias “tende a elevar o nível tecnológico e ampliar o acesso a tecnologias pelo produtor rural, estimulando nossa empresa a crescer também”. Por isso mesmo, Hahshahn antecipa um “misto entre oportunidades e riscos, talvez com oportunidades maiores que os riscos”.
Linha de raciocínio semelhante à adotada pelo vice-presidente de vendas para o segmento agrícola da CNH para América Latina, Paulo Arabian. Para ele, a abertura comercial, a ser implementada gradualmente, com “desgravação de alíquotas de importação ao longo de 10 a 15 anos, tende a ampliar oportunidades para ambos os blocos, favorecendo o acesso a novas tecnologias, aumento da competitividade e maior integração produtiva”
A redução de barreiras comerciais, indica Cesar Roberto Guimarães de Oliveira, gerente de vendas e marketing da Agritech, deverá ser acompanhada pela maior entrada de tecnologias, componentes e sistemas de agricultura de precisão, num fluxo crescente, seguindo os prazos fixados pelo acordo. “A tendência é de aumento das pressões sobre a indústria nacional para ganhar eficiência e ampliar a competitividade”, pondera ele. A plena vigência do acordo, a seu ver, “terá que combinar abertura de mercado, maior disputa comercial e necessidade de adequação às exigências técnicas e regulatórias do bloco europeu”.
Lucas Zanetti, gerente de marketing de produto da Massey Ferguson, entende que o acordo deverá reforçar o protagonismo da América Latina na produção global de alimentos, exigindo avanços contínuos “em eficiência produtiva, sustentabilidade e rastreabilidade”. Para a indústria de máquinas agrícolas, aqueles movimentos deverão se traduzir em maior demanda por tecnologias. “É um movimento positivo, que estimula inovação e fortalece a competitividade do agro brasileiro no cenário internacional”, comenta ainda.