Os desafios adiante para a consolidação do 5G no campo

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 18 de dezembro de 2021

O desafio central para o acesso do agronegócio à tecnologia 5G não está precisamente na conectividade, de resto ainda um problema, ou no desenvolvimento de novas plataformas e aplicativos, que, na prática, já estão em uso ou a caminho do campo. “Será essencial desenvolver uma cultura digital dentro do setor”, observa Abdalah Novaes, líder de negócios da ClimateFieldView para a América Latina.As tecnologias associadas à rede 5G vão de fato agregar maior capacidade de banda, aumentar a velocidade de transmissão e de tratamento de dados e imagens, reduzir a latência (ou seja, o tempo de resposta de todo o sistema), trazendo soluções mais inteligentes e mais baratas para a tomada de decisões em tempo real, comenta Novaes. “Mas não são mais fáceis de utilizar”, acrescenta.

Ele lembra que os dados do mais recente Censo Agropecuário, realizado em 2017 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que quase 72% das propriedades rurais ainda não têm acesso à internet. Mas observa avanços entre os 30% que conseguem acessar a rede mundial de computadores em suas fazendas. Ao longo deste ano, prossegue Novaes, o aumento nos custos de produção, associados à elevação do dólar, a problemas logísticos globais e à escassez de matérias primas para a produção agrícola, “chamou a atenção do produtor para tecnologias que ajudam a otimizar o uso de insumos, incrementando a busca de soluções digitais”. Como parte da iniciativa ConectarAgro, associação criada por fabricantes de máquinas e equipamentos agrícolas, operadoras de telefonia e provedores de soluções tecnológicas para o campo, além da própria Climate, foi possível incluir 5,0 milhões de hectares na rede 4G em 2020, primeiro ano do projeto. Mais 13,0 milhões de hectares em áreas novas deverão ser conectadas até o final deste ano, gerando impactos dentro das propriedades e igualmente nas comunidades próximas, descreve Novaes.

Robôs no campo

A consolidação do 5G nos próximos anos, antecipa Novaes, deverá intensificar a digitalização, com avanço da internet das coisas, ampliação do uso de ferramentas de inteligência artificial, assim como robôs deverão se tornar mais presentes e mais fortes no agronegócio. A Climate já testa, no Brasil e na Argentina, desde o ano passado, o manejo de ervas daninhas com uso de drones inteligentes, que conseguem identificar pragas nas lavouras a partir da captura de imagens de altíssima resolução. As imagens são enviadas para a nuvem onde são tratadas por algoritmos de inteligência artificial e transformadas em mapas vegetativos que serão transmitidos a pulverizadores equipados com o FieldView Drive, permitindo a aplicação racional de defensivos. A tecnologia, diz Novaes, depende do tráfego muito rápido de dados e o 5G poderá desempenhar papel relevante em sua consolidação.

Balanço

  • A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) não tem ainda previsão sobre quando a rede móvel de quinta geração deve chegar ao meio rural. A agência lembra que, após cumpridos os compromissos fixados no edital de concessão do 5G, as operadoras dos serviços de telecomunicações terão liberdade para atender a quaisquer demandas compatíveis com seus modelos de negócios, nas áreas de outorga”.
  • Atualmente, algo em torno de 80% das interações entre a Climate, subsidiária da Bayer, e seus clientes ocorrem de forma remota. Adicionalmente, a plataforma de vídeos e conteúdos educativos, abrigados no portal FieldView, registra perto de 20,0 mil acessos por mês.
  • A primeira rede móvel em tecnologia 5G no país foi instalada em Rio Verde (GO), no início de dezembro do ano passado, em caráter experimental, interligando a Fazenda Nycolle ao Parque Tecnológico do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Goiano (IF Goiano) e ao Centro de Excelência em Agricultura Exponencial (Ceagre), inaugurados no mesmo período. Resultado de uma parceria entre a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg), o governo de Goiás e o Centro de Excelência em Inteligência Artificial da Universidade Federal de Goiás (Ceia/UFG), envolvendo ainda o IF Goiano, Claro e Huawei, o projeto permitiu o desenvolvimento de dronese de veículos autônomos utilizados no manejo de pragas na fazenda, conforme o secretário geral de Governo do Estado, Adriano Rocha Lima.
  • Os drones capturam imagens em alta resolução, enviadas para a nuvem onde são processadas com utilização de ferramentas de inteligência artificial, permitindo a identificação de ervas daninhas. Os veículos inteligentes operam no solo, se deslocando entre as linhas de plantio para detectar, também por meio de imagens, pragas que atacam a parte rasteira das plantas. “O sistema ajuda a detectar 100% dos focos de contaminação da lavoura, tornando seu combate mais racional e eficaz”, resume Rocha Lima. Há seis meses, os testes entraram em sua segunda etapa, agora envolvendo o desenvolvimento de drones com capacidade para fazer a pulverização a campo diretamente, seguindo os pontos de ocorrência de pragas previamente identificados.
  • Até 2030, segundo o estudo 5G Business Potential, realizado pela Ericsson, o processo de digitalização do agronegócio tende a gerar receitas adicionais de R$ 49,0 bilhões na área de tecnologia da informação e comunicação, dos quais R$ 10,0 bilhões estarão relacionados ao 5G, detalha Murilo Barbosa, vice-presidente de Negócios Regionais da Ericsson para o Cone Sul da América Latina. A multinacional sueca é uma das parceiras da São Martinho, juntamente com a Vivo, no projeto 5G SmartFarming, lançado em novembro do ano passado com o objetivo de desenvolver soluções em 4G e 5G para tornar mais eficientes processos e sistemas de produção da principal usina do grupo, instalada em Pradópolis (SP). Inicialmente, foram relacionadas 24 aplicações que poderão ser desenvolvidas com tecnologia 5G. A primeira delas, já testada na Usina São Martinho, conecta drones fabricados pela brasileira XMobotspara mapeamento de alta precisão dos canaviais, investigando falhas nas linhas de plantio, ervas daninhas e pragas. As imagens de alta qualidade são transmitidas em tempo real para a central de operações agrícolas da usina, onde são tratadas utilizando recursos tecnológicos associados à plataforma 5G.
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