quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Perdas do BC fazem gastos com juros saltarem 42,6% em agosto

Lauro Veiga Filhopor em
Perdas do BC fazem gastos com juros saltarem 42,6% em agosto
Foto: Rafa Neddermeyer/ABr

As perdas realizadas pelo Banco Central (BC) no mercado do dólar em agosto deste ano ajudaram a catapultar as despesas com juros naquele mês, explicando ainda todo o aumento no déficit nominal do governo central e do setor público como um todo no mesmo período. A queda observada para o chamado déficit primário, diferença entre receitas e despesas, desconsiderados os gastos com juros, foi integralmente consumida pelo forte avanço experimentado pelos gastos de caráter meramente financeiro. Entre os governos regionais, num comportamento inverso, as despesas menores com juros explicaram quase dois terços da melhora no resultado nominal.

O desempenho das contas regionais, especialmente no caso dos governos estaduais, deixa evidente a alternativa para cumprir o ajuste fiscal tão reclamado pelas “esquadrilhas austericidias”, com uma vantagem muito nítida em relação às propostas de enxugamento radical do “tamanho” do Estado, com cortes igualmente drásticos aplicados a programas sociais, pensões e aposentadorias de trabalhadores. A redução dos juros não lançaria milhões à situação de miséria, de onde conseguiram sair graças particularmente a programas de governo desenhados para combater a fome e a pobreza nas faixas de mais baixa renda da população.

Adicionalmente, juros mais baixos poderiam ainda destravar decisões de consumo e de investimento de famílias e empresas, gerando condições mais favoráveis ao crescimento e à geração de empregos (que têm batido recordes, é verdade, a despeito da política de arrocho monetário em curso). O custo mais baixo do dinheiro facilitaria ainda a renegociação de dívidas a prazos mais logos e a taxas mais favoráveis, ajudando a enfrentar os níveis elevados de endividamento, sobretudo da classe média. Uma trajetória que seria dificultada caso políticas mais duras de “ajuste fiscal” fossem aplicadas, diante de seus feitos negativos sobre a renda agregada no País, reduzindo as possibilidades de a população fazer frente a compromissos em atraso.

 

O “efeito BC”

A nota do BC sobre o desempenho da política fiscal em agosto, divulgada ontem, 30, registra um aumento de 26,69% no déficit nominal na comparação com o mesmo mês do ano passado, saindo de R$ 91,516 bilhões para R$ 115,946 bilhões para o conjunto de todo o setor público brasileiro, equivalente a um incremento de quase R$ 24,430 bilhões. No governo central (União e BC), o resultado nominal, que já inclui os juros, avançou de R$ 80,726 bilhões para R$ 117,568 bilhões, num salto de 45,64% – algo como R$ 36,841 bilhões a mais. Apenas o BC, no entanto, foi responsável por 85,94% da variação registrada no governo central. A autoridade monetária havia registrado superávit de R$ 6,870 bilhões em agosto do ano passado, mas passou a anotar déficit de R$ 24,791 bilhões, o que correspondeu a uma deterioração de R$ 31,662 bilhões.

 

Balanço

Analisadas em conjunto, as contas de Estados e prefeituras deixaram para trás um déficit de R$ 9,389 bilhões em agosto do ano passado e passaram a registrar saldo positivo de modestos R$ 127,247 milhões no mesmo mês deste ano, correspondendo a uma melhoria de R$ 9,833 bilhões na comparação mensal. A parcela mais relevante desse “ajuste” veio do tombo de 71,65% nas despesas com juros, que despencaram de R$ 9,044 bilhões em agosto do ano passado para R$ 2,564 bilhões, numa “economia” de algo como R$ 6,480 bilhões.

Quer dizer, praticamente 61,2% da melhora no resultado nominal regional saíram da redução no pagamento de juros, o que pode estar associado, por sua vez, à crescente adesão dos gestores estaduais ao Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag), que estabeleceu condições muito mais benevolentes para o pagamento daquelas dívidas.

Os gastos com juros de todo o setor público aumentaram de R$ 74,261 bilhões para R$ 105,934 bilhões no mesmo período, num salto de 42,65% – perto de R$ 31,672 bilhões a mais, quer dizer, bem mais do que o incremento registrado pelo déficit nominal, que avançou, como visto, R$ 24,430 bilhões. O impacto negativo foi compensado parcialmente pela retração de 41,98% no déficit primário, que baixou de R$ 17,255 bilhões para R$ 10,012 bilhões, ao redor de R$ 7,243 bilhões a menos.

Pouco mais 83% do avanço nas despesas com juros do governo central podem ser debitados à conta do BC, que havia registrado receitas líquidas com juros de R$ 6,926 bilhões em agosto do ano passado e agora, no mesmo mês deste ano, observou despesas líquidas nesta mesma área de R$ 24,734 bilhões. A mudança de sinais gerou um impacto negativo de R$ 31,661 bilhões na conta de juros da autoridade monetária. Os juros no governo central subiram de R$ 64,792 bilhões para R$ 102,881 bilhões, quase 58,8% a mais, num acréscimo de R$ 38,088 bilhões.

O resultado primário do governo central foi reduzido de R$ 15,934 bilhões para R$ 14,687 bilhões, em baixa de 7,83%, motivada pela alta de 26,54% no superávit do governo federal (saltando de R$ 3,142 bilhões para R$ 3,976 bilhões) e pelo recuo de 2,18% no déficit do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS), saindo de R$ 19,020 bilhões para R$ 18,606 bilhões.

No acumulado entre janeiro e agosto, o déficit primário experimentou alta de 43,78% e avançou de R$ 61,792 bilhões para R$ 88,847 bilhões, algo como R$ 27,055 bilhões a mais. Ainda assim, a relação entre déficit primário e o resultado nominal, igualmente deficitário em função da inclusão dos juros, variou apenas de 9,36% para 10,29% – o que significa dizer que a conta de juros respondeu por 89,7% do déficit nominal.

Os governos regionais contribuíram com mais da metade do aumento no déficit primário do setor público – mais precisamente, observou-se uma contribuição de 54,96%, relacionada ao tombo de 47,79% no superávit primário de governos estaduais e prefeituras, que despencou de R$ 31,117 bilhões para R$ 16,247 bilhões (ou R$ 14,871 bilhões a menos).

A baixa foi mais intensa nos governos estaduais, que observaram o saldo positivo, antes do pagamento de juros, encolher 72,27% em relação aos primeiros oito meses do ano passado, desabando de R$ 26,001 bilhões para R$ 7,210 bilhões (em torno de R$ 18,791 bilhões a menos).

Nos mesmos oito meses, o setor público gastou R$ 774,550 bilhões com juros, em alta de 29,11% frente a despesas de R$ 599,937 bilhões entre janeiro e agosto de 2025 – um incremento de R$ 174,613 bilhões. Ainda na soma geral do setor público, sob efeito dos juros, o déficit nominal passou de R$ 661,729 bilhões para R$ 863,397 bilhões, variando 30,48% e saindo de 7,89% para 9,60% do PIB.

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