Perspectiva de novos recordes anima investimento no setor de fertilizantes

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em: 12 de novembro de 2021

A indústria caminha para mais um recorde na entrega de fertilizantes ao consumidor final neste ano.O setor, no entanto, já assegurou grande parte do insumo a ser aplicado no plantio da safra 2021/22, estima Arthur Liacre, vice-presidente de assuntos corporativos, estratégia e sustentabilidade da Mosaic Fertilizantes. Na sua previsão, mais de 65% dos fertilizantes destinados ao cultivo da segunda safra de milho, no próximo ano, foram igualmente assegurados pelos produtores, sugerindo uma safra cheia em 2022. Em sua segunda estimativa para a safra de grãos a ser colhida no ano que vem, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) aposta numa produção de 289,8 milhões de toneladas, praticamente 37,4 milhões de toneladas a mais do que no ciclo passado.

A demanda tende a superar a marca de 44,0 milhões de toneladas em 2021, na expectativa de Liacre, o que significaria um avanço em torno de 8,5% frente às quase 40,6 milhões de toneladas vendidas em 2020, numa alta acumulada superior a 20% em dois anos. “Essa trajetória ascendente deve continuar nos próximos anos, como consequência de alguns fatores importantes, sendo puxada pelo aumento de tecnologia nas principais lavouras, e novos incrementos de área plantada de grãos, além de conversão de áreas de pastagem em lavoura”, acredita ele.

A Mosaic espera ampliar seus investimentos no País em pouco mais de 17% entre 2020 e 2021, avançando de US$ 145,0 milhões para algo em torno de US$ 170,0 milhões até o final deste exercício. No ano passado, detalha Liacre, os recursos foram concentrados em tecnologias digitais destinadas a aumentar a produtividade das plantas da empresa no Brasil e mitigar impactos ambientais, com 70% dos investimentos reservados a operações de manutenção e os restantes 30% a projetos de melhoria da eficiência operacional ou de aumento da capacidade. Competitividade e sustentabilidade continuam orientando os investimentos neste ano, prossegue o executivo, que destaca o projeto Recuperação em Massa, destinado a “maximizar a eficiência” na exploração de rocha fosfática nas unidades de Tapira (MG) e Catalão (GO). Num aporte de US$ 12,0 milhões envolvendo aquisição de equipamentos e mudanças de rotas de processo, conforme Liacre, “essa iniciativa visa elevar ganhos de produção e diminuir o custo do concentrado fosfático por tonelada”.

Carbono neutro

A Yara espera neutralizar todas as suas emissões de carbono até 2050, de acordo com Maicon Cossa, vice-presidente comercial da empresa no Brasil. A multinacional norueguesa avançou mais um passo nessa direção ao fechar, em setembro, acordo com a Raízen para a aquisição inicial de 20,0 mil metros cúbicos por dia de biometano. O insumo, obtido no tratamento do biogás produzido a partir de resíduos da produção agrícola, começa a ser entregue em 2023 e será destinado ao complexo da Yara em Cubatão (SP). “Trata-se do primeiro movimento para a produção de amônia verde no Brasil, o que permitirá o desenvolvimento de soluções sustentáveis no curto prazo, seja em nitratos para aplicação industrial ou em fertilizantes nitrogenados”, declara Cossa.

Balanço

  • O biometano vai permitir a substituição gradual do gás natural, como parte do processo global de descarbonização levado adiante pela Yara, reduzindo em pelo menos 80% as emissões de carbono. “A partir da amônia verde, a oferta do fertilizante verde passa a ser uma realidade, com um impacto positivo para toda a cadeia do agronegócio”, avalia Cossa. O volume acertado com a Raízen corresponderá a 3% do volume consumido pela planta de amônia operada pela Yara no complexo químico de Cubatão.
  • Os recursos apurados com a venda do complexo de Serra do Salitre (MG), deverão ser alocados no desenvolvimento de “soluções para cadeia de alimentos, descarbonização da agricultura, digitalização e produção de amônia verde”, detalha Cossa. O acordo com a EuroChem foi fechado em agosto e aprovado em setembro pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), numa transação avaliada em US$ 410,0 milhões (aproximadamente R$ 2,3 bilhões),
  • No mercado de fertilizantes, Cossa antecipa demanda especialmente aquecida para o segmento de fertilizantes especiais, num reflexo da “busca dos agricultores por melhores tecnologias”, que permitam ampliar a produção agrícola de forma mais sustentável. “A boa rentabilidade no campo tem feito com que a demanda por produtos e soluções especiais aumente acima da média do mercado como um todo, claro indicativo de que o agricultor está investindo no aumento da produtividade e, consequentemente, da rentabilidade”, afirma.
  • O cenário para o próximo ano sugere um mercado ainda em crescimento, mas em ritmo mais moderado do que o assinalado neste ano. Segundo Cossa, a rentabilidade esperada para as lavouras deverá ser afetada pelo forte aumento nos custos de produção, “com grande contribuição dos fertilizantes”.
  • A dinâmica das entregas de fertilizantes neste ano contrariou o histórico do mercado, com a demanda mantendo-se forte ao longo de todo o período, influenciada pelos preços mais altos, conforme Nelson Canato Júnior, diretor comercial da área de fosfatos da CMOC Brasil. Esse comportamento impediu que a indústria conseguisse formar estoques, “trabalhando praticamente o ano todo da ‘mão para a boca’”, constata. Se por um lado isso trouxe redução de custos de estoques e “menos problemas com a qualidade do produto”, prossegue Canato, de outro afetou o atendimento ao cliente, considerando o mercado como um todo.
  • “Com a crescente demanda, revisitamos nosso plano de produção para melhor atender os nossos clientes, reduzimos horas paradas planejadas, aumentamos os níveis de produção e alteramos o mix de produção”, aponta ele.
  • Depois de concentrar os investimentos em 2020 em atualização tecnológica e de ativos, a CMOC planeja investir em 2022 na modernização das plantas de beneficiamento e de seus equipamentos, reservando recursos ainda para automação de “sistemas chaves para aumento da recuperação em massa e metalúrgica”, adianta Canato. Olhando o setor como um todo, o diretor da CMOC demonstra preocupação com o “envelhecimento dos atuais depósitos de fosfatos no Brasil, outro fator importante a ser monitorado”. Segundo ele, “novas reservas precisam ser desenvolvidas, pois as atuais já não sustentam a demanda crescente pela produção do produto final”.
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