sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Pesquisador explora diálogos literários entre dois territórios lusófonos

Luana Avelarpor em
Pesquisador explora diálogos literários entre dois territórios lusófonos
Wigvan Pereira dos Santos aproxima escritores de Goiás e Cabo Verde a partir das noções de fé, violência, identidade e desejo

O que as obras literárias podem revelar sobre os lugares em que foram produzidas? Além de retratar os cenários, as narrativas e os textos poéticos expõem as camadas históricas, as relações de poder e os valores simbólicos de cada localidade. Dessa forma, as palavras são capazes de aproximar zonas afastadas e tensionar fronteiras. Essa premissa motivou Wigvan Pereira dos Santos a analisar manifestações literárias de duas regiões geográficas distintas em O metafísico, o real e o sexo: ensaios sobre as literaturas de Goiás e Cabo Verde.

O autor articula dez escritores em cinco pares analíticos. Cada aproximação parte de um problema filosófico próprio: a relação entre existência e religiosidade em Leodegária de Jesus e Eugénio Tavares; a associação de violência e poder em Bernardo Élis e Manuel Lopes; as diferentes formas de ligação com o sobrenatural em Augusta Faro e Orlanda Amarílis; as concepções de real e polifonia em Lari Mundim e Germano Almeida; e a noção de sublime articulada ao desejo em Ubiratan Costa e Evel Rocha.

As aproximações não partem de uma suposta identidade entre os autores. Os cinco ensaios comparativos reúnem escritores de períodos, gêneros e contextos diferentes para testar uma hipótese crítica específica, sustentada por conceitos filosóficos, como os de Kierkegaard, Hannah Arendt, Michel Foucault e Lyotard.

Em “As Formigas”, de Augusta Faro, e “Luna Cohen”, de Orlanda Amarílis, a presença de animais e acontecimentos extraordinários permite discutir diferentes formas de relação entre o humano e aquilo que o excede. Já no último ensaio, o desejo e o erotismo aparecem na poesia de Ubiratan Costa em diálogo com “Marginais”, de Evel Rocha. A partir da filosofia do sublime de Jean-François Lyotard, a análise aproxima o obstáculo de apreender plenamente o corpo desejado da dificuldade de representar experiências de marginalidade, violência e exclusão.

O metafísico, o real e o sexo percorre desde o século XIX até a atualidade para compartilhar as descobertas que surgem quando diferentes perspectivas são combinadas e desenvolver ligações singulares entre os dois territórios lusófonos. Sem buscar equivalências, Wigvan Pereira dos Santos celebra as diferenças e propõe deslocar as referências literárias tradicionalmente associadas aos grandes centros para desenvolver novas configurações de conhecimento.

“Espero que o livro possa inspirar o leitor, sobretudo, a olhar para a literatura de outra maneira. A comparação pode revelar aspectos inesperados de obras que acreditamos conhecer e criar perguntas a partir de autores, geografias e experiências históricas aparentemente distantes. Quando colocamos textos em relação, não descobrimos apenas semelhanças: também compreendemos melhor aquilo que os separa”, explica o autor.

O autor

Wigvan Pereira dos Santos é doutor em Ciências da Literatura e Modernidades Comparadas (Uminho), mestre em Estudos Comparados (USP) e professor de Metodologia e Orientação Monográfica desde 2009. É autor de diversos livros de teoria e de ficção, entre eles ”I’ve got a blank space, baby“ (2026), e lança O metafísico, o real e o sexo: ensaios sobre as literaturas de Goiás e Cabo Verde, obra de literatura comparada das localidades lusófonas.

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