PIB do agronegócio experimenta segundo retrocesso em sequência
Ainda antes da confirmação do El Niño, numa versão muito mais intensa do que a inicialmente esperada, e decorridas apenas as primeiras semanas desde a deflagração da guerra contra o Irã por Israel e pelos Estados Unidos, em 28 de fevereiro, o agronegócio fechou o primeiro trimestre deste ano em baixa de 2,01% no cálculo realizado pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP, em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). “Esse desempenho dá continuidade à tendência observada no quarto trimestre de 2025, quando o PIB apresentou retração em relação ao trimestre imediatamente anterior, interrompendo a trajetória de crescimento registrada até o terceiro trimestre daquele ano”, anota o centro de estudos.
Além das pressões geopolíticas, o agronegócio – no conceito mais amplo elaborado pela Cepea e pela CNA, que inclui a produção primária de grãos, fibras e proteína animal, os setores de fabricação e distribuição de insumos, a agroindústria e toda a rede de serviços associados àquelas atividades – já vinha sendo castigado pela redução dos preços pagos aos produtores na agricultura, margens mais curtas e endividamento em alta. Mantido o desempenho verificado no primeiro trimestre, o Cepea projeta uma redução na participação do agronegócio no PIB brasileiro de 25,22% no ano passado para 22,83% neste ano, aproximando-se de R$ 3,126 trilhões. A fatia tende a ser a mais baixa desde 2019, quando havia atingido 20,31%.
Ao considerar a mesma metodologia adotada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para medir o PIB nacional, o agronegócio manteve-se em crescimento, mas numa intensidade muito inferior àquela observada no ano passado, como mostram as séries estatísticas do Cepea. Depois de avançar 7,11% em 2025, o PIB do setor cresceu 2,33% no primeiro trimestre, com altas de 2,09% e de 2,76% respectivamente para os ramos agrícola e pecuário. Neste caso, o PIB é medido segundo o critério de preços constantes, indicando como resultado a variação do volume em cada segmento do setor. O PIB aferido pela parceria Cepea-CNA “reflete a renda real do setor, sendo consideradas no cálculo variações de volume e de preços reais, sendo estes deflacionados pelo deflator implícito do PIB nacional”, na descrição do centro de estudos.
Preços para baixo
O resultado do agronegócio no primeiro trimestre deste ano, analisa o Cepea, “refletiu, principalmente, o desempenho menos favorável das cadeias agrícolas, em um contexto marcado pela redução dos preços reais de importantes produtos agropecuários na comparação com o mesmo período de 2025”. Mesmo diante da perspectiva de avanço para a produção “em diversas atividades, a queda dos preços prevaleceu, pressionando a renda gerada pelo setor”, complementa o centro de estudos.
Balanço
Ao analisar o comportamento de cada um dos ramos do agronegócio nos três primeiros meses deste ano, o Cepea mostra que a retração observada “foi puxada principalmente pelo setor agrícola”, que sofreu retração de 3,62% no período, diante de avanço modesto de 0,7% realizado pela pecuária.
Entre os segmentos que formam a cadeia do agronegócio, no conceito elaborado pelo Cepea e pela CNA, todos eles transitaram por terreno negativo no primeiro trimestre. O levantamento observou baixas de 2,15% para o setor de insumos, de 1,03% para a agroindústria e de 1,25% nos agrosserviços, com tombo mais expressivo para o segmento de produção primária, que encolheu 4,15% no trimestre.
No caso dos insumos, o setor registrou perdas tanto nos produtos de base agrícola quanto no setor pecuário, que acusaram quedas de 1,95% e de 2,76%. “No caso da base agrícola, a redução dos preços nas indústrias de defensivos e de máquinas agrícolas, aliada à menor produção esperada para o ano, impactou negativamente o resultado do segmento”, analisa o centro de estudos. Os insumos destinados à pecuária sofreram com a “retração no desempenho da indústria de ração, que foi afetada pela queda dos preços”.
O setor primário agrícola, confirmando o pior comportamento da agricultura, fechou o trimestre com seu PIB em queda de 5,72% e “refletiu a projeção de redução do valor da produção em 2026”. O esperado aumento da produção de commodities importantes como café cana de açúcar e soja deverá ser mais do que compensado, em sentido negativo, pela queda dos preços, reforça o Cepea.
A perda foi menos intensa quando se avalia o comportamento do setor primário na pecuária, que anotou recuo de 1,77% no primeiro trimestre, segundo o centro de estudos, “também em decorrência da perspectiva de menor valor da produção para o ano”.
A agroindústria teve seu PIB puxado para baixo pela queda de 2,31% nas atividades de base agrícola ao longo do período, já que a indústria associada à pecuária, a exemplo de frigoríficos e laticínios, chegou a avançar 1,93% no período analisado. Na área agrícola, a redução do PIB agroindustrial refletiu em grande medida as contribuições negativas das indústrias de café e de açúcar, com maiores baixas no valor da produção realizada.
A agroindústria de base pecuária foi favorecida, paradoxalmente, por um dado aparentemente negativo, mas que, na composição geral, ajudou a alavancar seu desempenho. De acordo com o Cepea, a queda mais intensa no consumo intermediário nesta área favoreceu o avanço da agroindústria pecuária como um todo. “Como o valor adicionado corresponde à diferença entre o valor bruto da produção e o consumo intermediário, a retração relativamente maior deste último resultou em expansão do PIB do segmento”, comenta o Cepea.
A montante, os serviços associados à agricultura sofreu recuo de 3,40%, mas com avanço de 1,86% no setor pecuário, “sustentado pela projeção”, observa o Cepea, “de maior produção em todos os segmentos da cadeia, fator que contribuiu para elevar a demanda por atividades de transporte, comércio e demais serviços”.
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